Segunda Parte: Sete De Setembro
Salve! dia feliz, data sublime
Que despertas o sacro amor da pátria
Em nossos corações!
Salve! aurora redentora que eternizas
A era em que o Brasil entrara ovante
No fórum das nações!
Além do oceano, entre coreias místicas,
Com a imensa coma abandonada aos ventos
Descansava a dormir,
O filho altivo das cabrálias cismas;
— Calmo como a Sibila que tateia
Mistérios do porvir!
E os ósculos ardentes do pampeiro
Do gigante adormido os lassos membros,
Enchiam de vigor,
E os débeis raios da saudosa lua
A soberba cabeça lhe adornavam
De estremas de fulgor.
Um dia... ai! despertou, vendo cortado
Pela infame cadeia dos cativos
O nobre pulso seu;
Estremecera em ânsias: lava ardente
Rugia incendiada pelas fibras
Do novo Prometeu!...
E os mundos agitaram-se nos eixos;
E o mar convulso arremessou aos ares
Cristais em turbilhões;
E a humanidade inteira ouviu tremendo
O brado heroico que rasgara o peito
Do gênio das soidões!
Após insano esforço, ergueu-se ingente
Calcando aos pés a algema espedaçada
Da luta no estertor,
E o Amazonas foi dizer aos mares,
E os Andes se elevaram murmurando:
"Eis-nos livres, Senhor!"
Tu foste meiga estrela que fulguras,
Apontando o caminho ao pegureiro
Exposto ao vendaval;
Rosa orvalhada de divinas lágrimas,
Que o colo purpurino reclinaste
No sólio de Cabral;
Liberdade gentil, visão dos anjos,
Clícia mimosa balouçada à sombra
Pelo bafo de Deus,
Tu foste, como sempre, a luz da aliança
Que a santa chama na alma aviventaste,
Roubando-a aos escarcéus!...
Mas não se cinge a escravidão à algema:
A terra que sagrar vieste livre
Do futuro no altar,
Rasgado o seio por voraz abutre,
Vê-se agora entregue à escravidão dos erros,
Sem forças, vacilar!
Ah! não te esqueças deste augusto dia!
Ampara o débil povo que se curva
Ante um falso poder!
Desdobra tuas asas refulgentes
Sobre o leito fúnebre em que repousa
O mártir Xavier!
E quando os filhos teus tendo por bússola
A crença livre que na antiga idade
Fundiu tantos grilhões,
Remontarem aos polos do futuro
Enchendo o vazio de um presente inerte
De indústria e aspirações;
Serás tu, liberdade sacrossanta
Que cingida de magos resplendores
Nos ungirás de luz!
Serás tu, que voltada para o pr'o infinito
Nos guiarás na senda fulgurante
Que à vitória conduz!...
Salve! dia feliz, data sublime,
Que despertas o sacro amor da pátria
Em nossos corações!
Salve! aurora redentora que eternizas
A era em que o Brasil entrara ovante
No fórum das nações!...