Terceira Parte: Recordação
Lembras-te ainda, Adelaide,
De nossa infância querida?
D’aquele tempo ditoso,
D’aquele sol tão formoso
Que dava encantos à vida?
Eu era como a florinha
Desabrochando medrosa;
Tu, alva açucena do vale,
Entreabrias em teu caule
Da aurora à luz d’ouro e rosa.
Nosso céu não tinha nuvens
Nem uma aurora fugia,
Nem uma ondina rolava,
Nem uma aragem passava
Que não desse uma alegria!
Tu me contavas teus sonhos
De pureza imaculada;
Dilúvios de poesia,
Trenos de maga harmonia...
Eras sibila inspirada!...
E a nossos seres repletos
Desse amor que não fenece,
Como sorria a existência!
Quanto voto de inocência
Levava ao céu nossa prece!
Hoje que apenas cintila
Ao longe a estrela da vida,
Venho triste recordar-te
Esse passado, abraçar-te,
Minha Adelaide querida!