Segunda Parte: À Lua
Contemplas-me, virgem pálida?
Mandas-me um riso? Não creio!
Não vejo a espuma fulgente
Da luz, num beijo fervente,
Tingir-te a neve do seio!
Por que de brandas carícias
Circundas a poetisa?
Não tens, acaso, nas flores
Mais feiticeiros amores?
Não tens o arpejo da brisa?
Quando no leito sidéreo
Repousas a face linda,
Pareces alva criança
Que, descuidosa, descansa
No berço alvejante ainda.
E se passas entre páramos
Nos braços de mil anjinhos;
Se vais banhar-te nos lagos
Do lírio aos langues afagos,
Saúdam-te os passarinhos!
Ah! quebra a mudez intérmina,
Meiga irmã dos pirilampos!
Não vives de poesia?
Por que percorres sombria
Do céu os lúcidos campos?
Estendo-te os braços trêmulos,
Vem desvendar-me o mistério;
Contar-me as latentes dores,
A causa dos teus palores,
Rainha do reino aéreo.
Depois... ao clarão esplêndido,
Seguindo-te os lentos passos,
Contar-te-ei meus pesares
Em frente à extensão dos mares,
Presa em teus débeis laços.
Mas não tentes, em silêncio,
Sondar a chaga dorida!
É tarde, virgem, é tarde,
No meu seio apenas arde
Uma centelha de vida!