Terceira Parte: Os Dois Troféus Nebulosas · Capítulo 44 de 44
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Terceira Parte: Os Dois Troféus

VICTOR HUGO

Tem visto, ó povo, esta época

Teus trabalhos sobre-humanos,

Viu-te altivo ante os tiranos

Calcar a Europa assombrada;

Criando tronos hercúleos,

Despedaçando áureos cetros,

Das coroas - vis espectros -

Mostraste o potente nada!

Em cada passo titânico

Semeavas mil ideias;

Marchavas: iam-se as peias

Que o torvo orbe prendiam;

Tuas falanges incólumes

Eram vagas do progresso:

Transbordadas de arremesso

De cimo a cimo erguiam!

Vias a deusa da glória

Cingir-te a fronte de louros;

Derramavam-se tesouros

De luz, por onde passavas!

E a Revolução flamígera

Arremessava à Alemanha

Danton; a quem, sobre a Espanha

Com Voltaire triunfavas!

Como ante os filhos da Hélade,

Curvou-se o mundo aos franceses;

Soberbo em frente aos reveses,

O crime caiu-te às plantas!

As trevas da Idade Média,

A pira do Santo Ofício,

O inferno, o erro e o vício,

Com um lampejo quebrantas!

De teus esplendores límpidos

Estava a terra juncada;

Fugia a noite assustada

Ao reboar de teus passos!

Enquanto a senda estelífera

Trilhavas, ébrio de crenças,

Da história as folhas imensas

Prendiam-te entre seus laços!

Cem vezes pairando impávido

Nos campos que o sol descerra,

Curvaste a face da terra

A um teu aceno arrogante;

Do Tejo, do Elba a vitória

Ao Nilo, ao Ad’ge corria,

E o povo titã jungia

O mesmo chefe gigante.

E os dois monumentos típicos

Dali surgiram um dia:

A coluna - ingente e fria,

O arco - poema ousado!

Ambos, ó povo, são símbolos

De teu poder infinito:

Um talhado de granito,

Outro de bronze amassado!

São dois fantasmas terríficos

Dos passados esplendores;

Doutra idade vingadores

Se os vê, a Europa estremece!

Por eles velando túmido

Nosso amor, sempre sombrio,

Nas almas acende o brio

Quando o vigor lhe falece!

Se nos ultrajam estólidos

Ei-los aí, testemunhos,

Do valor de nossos punhos,

Nos acenando à vingança:

No metal, no altivo mármore,

Tentamos dos veteranos

Ver os sábios, livres planos,

A nobre perseverança.

Na hora da queda horrenda

Mais vivo o orgulho cintila;

Aumenta a palma que oscila

O refulgir dos troféus;

As almas no fogo vívido

Acendem a sacra chama,

E o povo em luto brama

No estrugir dos escarcéus!

Outrora a falange célere

Passava em pleno lampejo;

Como um cavo, longo arpejo

Rolava o trovão nos montes!

Desses peitos magnânimos

Que resta? O trabalho ingente

Que à mocidade indolente

Mostra os negros horizontes!

As raças de hoje, mais pálidas

Que os finados de outras eras,

Dessas virtudes austeras

Nem mesmo a imagem possuem!

E se eles tremem nos túmulos,

É teu alvião que soa,

Tua bomba que reboa

Contra os portentos que aluem.

* * *

Horríveis dias são próximos,

Que sinais aterradores!

Clamam — Basta! — os pensadores

Como Lear à procela!

Não pode morrer um século

Sem que um outro além desponte;

Do porvir — no germe insonte —

Quem ousa manchar a tela?

Oh, vertigem! Paris fúlgida

Nem sabe quem mais a esmaga!

Se um poder que tudo estraga,

Se outro que tudo fulmina!

Assim lá no Saara tórrido

Lutam contrárias tormentas,

Vibrando às ondas poentes

Do raio a chama divina!

Erram, ó povo, esses abismos!

O firmamento que freme,

O rijo solo que treme,

Conjuntamente censuro!

Esses poderes coléricos

Cuja sanha cresce ignara,

Um tem a lei que o ampara,

Outro o direito e o futuro!

Tem Versalhes — a paróquia,

Paris ostenta — a comuna;

Mas, além dessa coluna

Desata a França seu manto!

Quando devem verter lágrimas

É justo que se devorem,

Sem que a desdita deplorem,

Sem que vertam negro pranto?!

Fratricidas! Gemem férvidos

Canhões, morteiros, metralha;

Além o vândalo espalha

Do inferno as fúrias vis!

Aqui, campina Caríbdis,

Lá, Cila avulta arrojada!

De teu fulgor ofuscado,

Ó povo, vão-se os loureis!

Ai! nestes tempos infaustos

Em que inglórios vivemos,

Dois fortes domínios vemos

Estranhamente rivais!

Um toma o arco mármoreo,

Outro a pilastra imponente;

E o malho, e o obus fremente

Tornam-se forcas fatais!

Mas, vede: é a França exânime

Que esses colossos sustentam!

Nosso valor representam

Embora aí Bonaparte!

Sim, franceses, se frenéticos

Derrubamos essa herança,

Que restará da provança?

Onde as honras do estandarte?!

Se o senhor condena indômito,

Mais forte o povo aparece;

Nobre a Esparta resplandece

Através do despotismo!

Abatei de um golpe a árvore,

Mas respeitai a floresta:

Quando chora a pátria mesta

Mais belo fulge o heroísmo!

E tantas almas intrépidas

Nas espirais balouçadas,

Enchem naus almirantadas,

Fossos, paióis e campinas;

Franqueiam muralhas sólidas,

Longas pontes, torres altas,

Saudando o porvir que assaltas

Com mil armas peregrinas.

Em vez de César grandíloquo

Colocai, justiça, Roma;

Ver-se-á que vulto assoma

Nesse cimo sobranceiro!

Condensai nesta pirâmide

A turba infrene, compacta;

Que o direito a estátua abata

Do assombro do mundo inteiro!

E que este gigante estrênuo

O — Povo — aclarando a estrada,

Tenha na mão uma espada,

De auroras cingido o busto;

Respeito ao soldado árbitro!

A seus pés o ódio expira!

Do vingador da mentira

Nada iguala o talhe augusto!

Surge — Oitenta e Nove — atlético

Ganhando vinte batalhas!

Marselhesa, és tu que espalhas

Medo e assombro à velha idade!

Se o granito aqui ostenta-se,

O bronze avulta em rugidos,

E dos troféus reunidos

Salta um grito: — Liberdade!

* * *

Quê! Com nossas mãos alígeras

Da pátria o seio rasgamos,

E o duplo altar laceramos

Pelos teutões invejado!

Pois quê! Nos padrões egrégios

A multidão delirante

Ceva a clava flamejante,

Agita o facho abrasado!

É aos nossos golpes válidos

Que a franca glória vacila;

Seus louros virgens mutila

Nossa maça ensanguentada!

E sempre a esfinge da Prússia!

Que horror! A quem foi vendida,

Ai! pobre pátria perdida,

Tua invencível espada?...

Sim! foi por ela que inânime

De Ham o nome caíra;

Ante a Reischoffen expira

De Wagram Vagrã o grito ovante!

Riscado Marengo inclito,

Waterloo Vaterlu apenas resta...

E sob a folha funesta

Rasga-se a lenda brilhante!

Uma bandeira teutônica

Enluta nosso horizonte;

Sedan Sedã enegrece a fronte

Que a Austerlitz Osterliz deu renome!

Vergonha! A rajada freme

É Mac-Mahon Maque marrom que vibra;

Forbach Forbá a Iena equilibra,

E o fogo as glórias consome!

Onde os Bicêtres, ó Gália?

Os Charentons denodados?

Dormem os grandes soldados

Em teu leito de Procusto.

De Coburgo, de Brunópolis,

Onde estão os vencedores

Com seus sabres vingadores,

Correndo areais adustos?

Rasgar da história uma página

Não é um crime inaudito?

Não será negro delito

Manchar vultos que tombaram?

Sufocar a voz dos mártires

Que nunca clamaram — basta —

E sempre de fronte casta

Papas e reis cativaram?

* * *

Ai! após tantas misérias

Mais este golpe cruento!

Este delírio sedento

Que na paz mesmo abre chagas!

E tantos combates trágicos!

Com Estrasburgo queimada,

Com Paris atraiçoada,

Que valem hoje estas plagas?!

Se da Prússia o orgulho frívolo

Vendo seu negro estandarte

Vencedor por toda a parte,

Com Paris a suas plantas,

Nos clamasse: "Quero rápida

A vossa glória obumbrada:

Abaixo a pilastra ousada

Com que aos orbes espantas!

Abaixo esse arco insigne —

Emblema do império falso! —

Quero aqui — um cadafalso,

Ali — obuses em linha;

Contra um — fogo mortífero,

Canhão, bombarda, escopeta;

Contra outro — a picareta!

Cumpri: a ordem é minha."

Que vulto erguera-se esquálido

Bradando às turbas "soframos"?

Oh! nunca, à morte corramos!

Lutemos, que o insulto é novo!

Que importa mais cruas mágoas?

Que importa um revés de mais?

Curvar-nos? Jamais! Jamais!

— E vós o fizeste, ó povo!

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