Primeira Parte: Resignação
No silêncio das noites perfumosas,
Quando a vaga chorando beija a praia,
Aos trêmulos rutilos das estrelas,
Inclino a triste fronte que desmaia.
Eu vejo perpassar as sombras castas
Dos delírios da leda mocidade;
Comprimo o coração despedaçado,
Pela garra cruenta da saudade.
Como é doce a lembrança desse tempo
Em que o chão da existência era de flores,
Quando entoava, ao murmúrio das esferas,
A cópia tentadora dos amores!
E voava feliz nos ínvios serros
Em pós das borboletas matizadas...
Era tão pura a abóbada do elísio
Pendida sobre as veigas rociadas...
Hoje escalda-me os lábios riso insano,
É febre o brilho ardente de meus olhos:
Minha voz só retumba em ai plangente,
Só juncam minha senda agros abrolhos.
Mas que importa esta dor que me acabrunha,
Que separa-me "afasta-me" dos cânticos ruidosos,
Se nas asas gentis da poesia
Elevo-me a outros mundos mais formosos?!
Do céu azul, da flor, da névoa errante,
De fantásticos seres, de perfumes,
Criou-me regiões cheias de encanto,
Que a lua doura de suaves lumes!
No silêncio das noites perfumosas,
Quando a vaga chorando beija a praia,
Ela ensina-me a orar tímida e crente,
Aquece-me a esperança que desmaia.
Oh! Bendita esta dor que me acabrunha,
Que separa-me "afasta-me" dos cânticos ruidosos,
De longe vejo as turbas que deliram,
E perdem-se em desvios tortuosos!...