Terceira Parte: O Baile
A noite desce lenta e cheia de magia;
A multidão febril do templo da alegria,
Invade as vastas salas.
O mármore, o cristal, a seda e os esplendores,
Do manacá despertam os mágicos olores,
A languidez das falas.
Ao rutilar das luzes as dálias desfalece…
Roçando o pó as vestes das virgens se enegrece,
Enturva-se a brancura…
O ar vacila tépido… a música divina
Semelha o suspirar de uma harpa peregrina…
É a hora da loucura!
Pela janela aberta por onde o baile entorna
No éter transparente a vaga tíbia e morna
Do hálito ruidoso,
Da vida as amarguras espreitam convulsivas
O leve esvoaçar das frases fugitivas…
O estremecer do gozo!…
E tudo se inebria: o lampejar de um riso
Acende n’alma a luz gentil do paraíso,
Arranca a jura ardente!
E mariposa incauta, em súbita vertigem,
Arroja-se a mulher crestando o seio virgem
Na pira incandescente!
Aqui, na nitidez de um colo a coma escura
Se espraia em mil anéis, enlaça a fronte pura
Auréola de rosas;
Da valsa ao giro insano, volita pelo espaço
Do cinto estreito, aéreo, o delicado laço,
As gazes vaporosas.
Ali, na meiga sombra indiferente a tudo,
Imerso em doce cisma um colo de veludo
Ondula deslumbrante:
Que fogo oculto, ignoto, em suas fibras vaza
Vivido ardor que faz tremer-lhe a nívea asa
De garça agonizante?…
Além, meus olhos tímidos contemplam com tristeza
As penas da mulher, dessa — ave de beleza —
Calcadas sem piedade!…
Esparsas pelo solo as laceradas rendas…
As flores já sem viço… abandonadas lendas
Da louca mocidade!
A festa chega ao termo; a harmonia expira;
A luz na convulsão final langue se estira
Pelo salão deserto;
Há pouco — o doudejar da multidão festante,
Agora — o empalidecer empalecer da chama vacilante,
Ao rosicler incerto!
Depois — a razão fria contando instantes ledos
De castos devaneios, de juramentos tredos
Ouvidos sem receio…
Num corpo languescido o espírito agitado…
E a febre da vigília ao doloroso estado
Ligando vago anseio…
A vida é isto: hoje cruel grilhão de ferro;
Talvez d’ouro amanhã, mas sempre a dor, o erro,
Aniquilando o gênio!
Passado — áureo friso num mar de indiferença,
Presente — eterna farsa universal, suspensa
Do mundo no proscênio!