Terceira Parte: O Baile Nebulosas · Capítulo 38 de 44
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Terceira Parte: O Baile

A noite desce lenta e cheia de magia;

A multidão febril do templo da alegria,

Invade as vastas salas.

O mármore, o cristal, a seda e os esplendores,

Do manacá despertam os mágicos olores,

A languidez das falas.

Ao rutilar das luzes as dálias desfalece…

Roçando o pó as vestes das virgens se enegrece,

Enturva-se a brancura…

O ar vacila tépido… a música divina

Semelha o suspirar de uma harpa peregrina…

É a hora da loucura!

Pela janela aberta por onde o baile entorna

No éter transparente a vaga tíbia e morna

Do hálito ruidoso,

Da vida as amarguras espreitam convulsivas

O leve esvoaçar das frases fugitivas…

O estremecer do gozo!…

E tudo se inebria: o lampejar de um riso

Acende n’alma a luz gentil do paraíso,

Arranca a jura ardente!

E mariposa incauta, em súbita vertigem,

Arroja-se a mulher crestando o seio virgem

Na pira incandescente!

Aqui, na nitidez de um colo a coma escura

Se espraia em mil anéis, enlaça a fronte pura

Auréola de rosas;

Da valsa ao giro insano, volita pelo espaço

Do cinto estreito, aéreo, o delicado laço,

As gazes vaporosas.

Ali, na meiga sombra indiferente a tudo,

Imerso em doce cisma um colo de veludo

Ondula deslumbrante:

Que fogo oculto, ignoto, em suas fibras vaza

Vivido ardor que faz tremer-lhe a nívea asa

De garça agonizante?…

Além, meus olhos tímidos contemplam com tristeza

As penas da mulher, dessa — ave de beleza —

Calcadas sem piedade!…

Esparsas pelo solo as laceradas rendas…

As flores já sem viço… abandonadas lendas

Da louca mocidade!

A festa chega ao termo; a harmonia expira;

A luz na convulsão final langue se estira

Pelo salão deserto;

Há pouco — o doudejar da multidão festante,

Agora — o empalidecer empalecer da chama vacilante,

Ao rosicler incerto!

Depois — a razão fria contando instantes ledos

De castos devaneios, de juramentos tredos

Ouvidos sem receio…

Num corpo languescido o espírito agitado…

E a febre da vigília ao doloroso estado

Ligando vago anseio…

A vida é isto: hoje cruel grilhão de ferro;

Talvez d’ouro amanhã, mas sempre a dor, o erro,

Aniquilando o gênio!

Passado — áureo friso num mar de indiferença,

Presente — eterna farsa universal, suspensa

Do mundo no proscênio!

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