Terceira Parte: Fantasia
É bela a cecém do vale
Quando desponta mimosa,
Sobre o caule, melindrosa,
Ao rutilar do arrebol;
Quando a gota etérea e pura
Que chora o céu sobre a terra,
O lindo seio descerra
Aos frouxos raios do sol.
É bela a meiga criança
Sorrindo à luz da existência,
Com a alma — toda inocência,
E a face — todo rubor!
Os róseos lábios ungidos
Por mil acentos — suaves
Como o gorjeio das aves,
Como um suspiro de amor!...
Des’brocha o lírio, mais alvo
Que o tênue floco de neve;
A viração fresca e leve
Lhe oscula as pétalas — f’liz;
Ternos carmes lhe murmura
A namorada corrente,
Que se deriva indolente
Por sobre o flóreo tapiz.
Assim a virgem formosa
Torna-se mais sedutora,
Quando a poesia enflora
Sua beldade ideal!
Quando no brilho fulgente
Dos olhos vividos, belos,
Sua alma ardente de anelos
Mostra candor divinal!
Então, se a fita a miséria
Sente no seio a esperança;
A um seu sorriso a criança
Ligeira tenta sorrir;
Aos lábios — casto delírio
Implora a audaz borboleta;
O mesmo altivo poeta
Pede-lhe um raio de amor!
E tudo, tudo o que a cerca
De medrosos juramentos,
Vê, nos vagos pensamentos
A candidez que seduz!
E tudo, tudo o que sofre
Vê que, à imagem de Maria,
A virgem — flor de poesia —
Deus fez repleta de luz!
Que o Senhor a ti, ó virgem,
— Símbolo de amor e candura —
Poupe a taça da amargura
Que a meu lábio não poupou!
Que se desdobre nitente
A fita de tua vida,
De tantos sonhos tecida
Quantos o céu me negou!