Segunda Parte: A Resende Nebulosas · Capítulo 21 de 44
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Segunda Parte: A Resende

Enfim te vejo, estrela da alvorada,

Perdida nas celagens do horizonte!

Enfim te vejo, vaporosa fada,

Dolente presa de um sonhar insonte!

Enfim, de meu peregrinar cansada,

Pouso em teu colo a suarenta fronte,

E, contemplando as pétreas cordilheiras,

Ouço o rugir de tuas cachoeiras!

Mal sabes que profundos dissabores

Passei longe de ti, Éden de encantos!

Quanto acerbo sofrer, quantos agrores

Umedeci com as bagas de meus prantos!

Sem um raio sequer de teus fulgores...

Sem ter a quem votar meus pobres cantos...

Ai! o simum cruel da atroz saudade

Matou-me a rubra flor da mocidade!...

Vivi bem triste! O coração enfermo

Buscava embriagar-se de harmonias,

Porém via do céu no azul sem termo

Um presságio de novas agonias!...

O bulício do mundo era-me um ermo

Onde as lavas do amor chegavam frias...

Só uma melancólica miragem

Dourava-me a solidão — a tua imagem!

Caminhei, caminhei sem ter descanso

Ao som das epopeias das florestas;

Caminhei, caminhei e no remanso

Da tarde, ouvi do mar as vozes mestas;

Nas ribas descansei de um lago manso

Pra gozar do talento as nobres festas,

E adormeci na esmeraldina alfombra

Da palmeira real à grata sombra!

Caminhei inda mais: com nobre empenho

Penetrei no sagrado santuário

Onde o gênio — em delírio — arrasta o lenho

Do trabalho, em demanda de um Calvário!

Vi surgir sobre a tela, à luz do engenho,

E povoar o templo solitário,

Da Carioca a lânguida figura,

De Nhaguassu o feito de bravura!...

Inclinada nas longas penedias

Acompanhei o voo das gaivotas;

Meu nome arremessei às ventanias

Sem que sentisse sensações ignotas!

Da musa do piano as melodias,

De uma flauta canora as doces notas,

O gelo que sorvi num mago enleio,

Tudo gelado achou meu débil seio!...

Mas após negridão de noite lenta,

Na curva do horizonte o sol resplende:

Após o horror de tétrica tormenta,

Fugaz santelmo lá no céu se acende;

Após o latejar da dor cruenta

Vejo-te enfim, ó plácida Rezende,

Debruçada no cimo da colina,

Sorrindo meiga à exausta peregrina!

Abre-me os braços, filha do ocidente,

Quero beber teus úmidos luares!

Quero escutar o soluçar plangente

Do vento pelas franças dos palmares!

Não vês que no meu lábio há sede ardente

Que calcinou-me a tez o sol dos mares?...

Ah! mostra ao passo meu tardio, incerto,

A sombra da arequeira do deserto!

Que saudades que eu tinha das campinas,

Destes prados e veigas odorantes!

De teu tirso de cândidas neblinas

Recamado de auroras cambiantes!

Destas brandas aragens matutinas

Que doudejam com as ondas murmurantes,

De tudo, tudo quanto em ti resumes,

Formosa noiva dos estivos lumes!

Na corola da flor de minha vida

Se aninha agora inspiração mais pura;

De meu rio natal a voz sentida

Desperta em mim um mundo de ternura!

Em minha triste fronte empalecida

Mais uma estrofe límpida fulgura,

E no berço de tuas matas densas

Libo sedenta o orvalho de mil crenças!...

Ó filha de Tupã, que um véu de brumas

Estendes sobre o mísero precito;

Ó ave linda, que as mimosas plumas

Aqueces nos ardores do infinito;

Garça gentil, que surges das espumas

Como da mente do poeta o mito,

Enquanto a lua ondula pelo espaço,

Abre a meu sono eterno o teu regaço!

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