Primeira Parte: Cisma
Ó aura merencória do crepúsculo,
Mais terna que o carpir de Siloé;
És tu que embalas minha funda angústia,
És tu que acendes no meu peito a fé.
És tu que trazes-me a virgínia endecha
Que os anjos gemem na celeste estância;
O sussurro dos plátanos do Líbano,
O frescor dos rosais de minha infância!
Estranha languidez gela-me o seio;
Abre-se além a campa glacial;
Minha fronte que ao chão lívida pende,
Levanta com teu beijo divinal!
Eu tenho n’alma uma saudade infinda,
Mais profunda que o abismo dos espaços;
— Choro meu berço que deixei criança;
— Choro o sol que aclarou meus débeis passos.
Recorda-me as dolentes melodias
Que na lagoa canta o pescador;
E as tristonhas cantigas dos escravos
Quando o céu se desata em luz de amor!
E os campos de esmeraldas que se enlaçam
À opala radiante do infinito...
E a pluma extensa dos bambus da mata,
Onde ecoava da araponga o grito...
Ai, não me fujas, viração sentida!
Fala-me ainda da estação feliz!
Desfolha sobre a tumba de meus sonhos
A grinalda dos risos infantis!
Este ligeiro hálito da pátria
Como desperta sensação tão pura!
Como esta essência dos folguedos idos,
Infunde n’alma tão sutil ternura!
Ó aura do crepúsculo, mais suave
Que o perfume das rosas de Istambul;
Leva ao meu ninho meu gemer de Alcíone!
Traz de meu ninho a primavera azul!