Segunda Parte: Vinte E Cinco De Março
Na noite sepulcral dos tempos idos
Plácida avulta a merencória esfinge;
Esplêndido ideal que esclarecera
A crente multidão!
Monumento do verbo grandioso
Deste povo titã, débil ainda...
Centelha sideral que fecundara
A seiva da nação!
Lacerado o sendálio tenebroso
Que nos velava os livres horizontes,
Entoa o continente americano
Um hino colossal;
Mais vívida no peito a fé rutila;
Mais nobres se erguem dos heróis os bustos
Cingidos pela chama deslumbrante
Da glória perenal.
Mas tu projetas o negror no espaço
Que sobre nós desata-se em sudário!
Mas teu hálito extingue a luz benéfica
Que acendera o Senhor!
Maldição! Maldição! A liberdade
Vê de lodo seu manto salpicado...
Do vulcão popular a ígnea lava
Desmaia sem calor...
Raiaste como o símbolo nefasto
Do traidor Antiteu, mentindo ao orbe;
E os louros virgens da nação sorveste
Como hidra voraz!
Roubaste ao povo a palma do triunfo,
Recompondo a algema ao pó lançada,
E moldaste no bronze a estátua fria
Da mentira loquaz!
Das espaldas robustas da montanha
A pedra derrocada, abate selvas;
A avalanche vacila lá nos Alpes...
Convulsam terra e mar!
Resvalaste, padrão de cobardia,
Pelos áureos degraus do sólio augusto...
E a santa aspiração, e os sonhos grandes,
Esmagaste ao tombar!...
Após a luz... o caos confuso, intérmino!
Após o hino festivo de um povo...
O lúgubre silêncio do sepulcro
Sem uma queixa ou voz!
Lançaste a pátria em báratros profundos
Ferida pela mão da tirania,
E apenas um lampejo de civismo
Deixaste ao crime atroz!
. . . . . . . . . . . . . . . .
Onde estavam, ó pátria, os teus Andradas
Que sustinham-te aos ombros gigantescos?
Onde o tríplice brado altipotente
Do peito popular?
— Gemem sem luz em cárceres medonhos,
— Seguem do exílio a pavorosa senda,
Rorando com seu pranto piedoso
De teu solo o altar!
Rasgai, rasgai a folha lutulenta,
— Emblema do mesquinho cativeiro;
Não vedes? Choram hoje em suas campas
Os manes dos heróis!...
Salvai a honra dos que em lar estranho
Por ti verteram lágrimas de sangue,
E resgatando a fé despedaçada,
Vingai nossos avós!