Terceira Parte: Noturno
Languesce a calma ardente:
Nos ares, levemente,
Desdobra-se tremente
Da noite a coma escura;
Do zéfiro o adejo
Envolve em longo beijo
O símbolo do pejo,
— A rosa da espessura.
A linfa marulhosa
Dolente, langorosa,
Estende-se chorosa
Num leito de luar;
Além um canto soa,
Por sobre a espuma voa
Ligeira, uma canoa
Cortando o azul do mar.
Do espaço eis a princesa:
Na gélida beleza
Que doce morbidez,
Que angústia calma e funda!
E cada flor nevada
Que dobra-se queimada
Na haste recurvada,
Com a branca luz inunda!
Planetas fulgurantes
Se velam, por instantes,
Nas rendas flutuantes
Das nuvens de algodão;
Sacode a noite o manto,
Na terra chove pranto...
Que vaporoso encanto
Embala a criação!...
O Elísio tem fulgores,
A terra orvalho, flores,
E místicos amores
Que velam descuidados;
Mas, ah! quanto lamento
Não sobe tardo, lento,
Na voz do sofrimento,
No — ai — dos desgraçados?
Ao mísero infeliz
Envia, ó Deus piedoso,
Um raio esperançoso
Que abrande a intensa dor!
Na vaga que delira,
No euro que suspira,
Na casta e santa pira
Lhe infunde teu amor!