Segunda Parte: A Noite
Ó Noite, meiga irmã da poesia,
Ninfa em lânguidas cismas balouçada,
Abre-me o seio teu, pleno de encantos!
Oh! Quero em ti fugir à dor famélica
Que me devora o coração sem vida
E os seios de minh'alma minha alma dilacera!
Quero a fronte pendida alçar, envolta
Na fímbria imensa de teu manto tétrico!...
Debruça-se a nopália enfraquecida
Se o cálice lhe bafeja o Norte adusto;
Desmaia a vaga azul na praia curva
Como um arco indiano, quando céleres
Do favônio indolente os leves beijos
Esfrolam da laguna a nívea opala;
Também meu coração se estorce e sangra
Do sofrimento entre as cruentas fragas!
E tu, que as alvas pétalas requeimadas
Alentas com uma lágrima celeste;
Tu, que da espuma da amorosa ondina
Formas na concha a preciosa pérola;
Concede ao peito meu que a mágoa enluta
Ainda um momento de serenos gozos...
Um riso que meus lábios ilumine,
Um só lampejo de fugaz delícia!
Ó fonte de ilusões, sobre teu colo
Repousa exangue o desgraçado escravo;
Ao silêncio que espalhas sobre a terra
Implora o triste bardo a estrofe rútila,
Que se expande em torrentes de harmonia!
E o pobre, em áureos sonhos, transportado,
Contempla a messe que promete o estio
Aos filhos desditosos da miséria!
Quanto te amo, ó Noite! À mole queixa
Da brisa que adormeces na floresta
Confundo meus tristíssimos gemidos;
À melodia das esferas pálidas
Que as orlas de teu véu sombrio bordam,
Concerto os trenos que o sofrer me inspira
E a gota amarga que me sulca as faces
A um teu sorriso se converte em bálsamo!...
Quando na extrema do horizonte infindo
Do sol se apaga o derradeiro raio;
Quando lenta e tardia desenrolas
De teu manto real a tela plúmbea;
Quando vais rociar a lajem tosca
Da fria sepultura com teus prantos,
O murmúrio dos mundos emudece
Ante tua grandeza melancólica!...
E se a filha gentil de teus amores
Cingida de palor no éter brilha;
Se a poeira dos astros cintilantes
Do Senhor do universo esmalta o sólio;
minh'alma minha alma desatando os térreos laços,
De vaga fantasia arrebatada,
Vai pelos raios de formosa estrela
Aninhar-se do elísio na flor cérula!...
Ó Noite, meiga irmã da poesia,
Ninfa em lânguidas cismas balouçada,
Abre-me o seio teu, pleno de encantos!
Desse regaço o divinal mistério
Faz-me esquecer a angústia cruciante
De passadas visões! E de meu seio,
Teu morno sopro nas geladas cinzas,
Anima a esperança de um futuro esplêndido!...