Segunda Parte: A Noite Nebulosas · Capítulo 26 de 44
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Segunda Parte: A Noite

Ó Noite, meiga irmã da poesia,

Ninfa em lânguidas cismas balouçada,

Abre-me o seio teu, pleno de encantos!

Oh! Quero em ti fugir à dor famélica

Que me devora o coração sem vida

E os seios de minh'alma minha alma dilacera!

Quero a fronte pendida alçar, envolta

Na fímbria imensa de teu manto tétrico!...

Debruça-se a nopália enfraquecida

Se o cálice lhe bafeja o Norte adusto;

Desmaia a vaga azul na praia curva

Como um arco indiano, quando céleres

Do favônio indolente os leves beijos

Esfrolam da laguna a nívea opala;

Também meu coração se estorce e sangra

Do sofrimento entre as cruentas fragas!

E tu, que as alvas pétalas requeimadas

Alentas com uma lágrima celeste;

Tu, que da espuma da amorosa ondina

Formas na concha a preciosa pérola;

Concede ao peito meu que a mágoa enluta

Ainda um momento de serenos gozos...

Um riso que meus lábios ilumine,

Um só lampejo de fugaz delícia!

Ó fonte de ilusões, sobre teu colo

Repousa exangue o desgraçado escravo;

Ao silêncio que espalhas sobre a terra

Implora o triste bardo a estrofe rútila,

Que se expande em torrentes de harmonia!

E o pobre, em áureos sonhos, transportado,

Contempla a messe que promete o estio

Aos filhos desditosos da miséria!

Quanto te amo, ó Noite! À mole queixa

Da brisa que adormeces na floresta

Confundo meus tristíssimos gemidos;

À melodia das esferas pálidas

Que as orlas de teu véu sombrio bordam,

Concerto os trenos que o sofrer me inspira

E a gota amarga que me sulca as faces

A um teu sorriso se converte em bálsamo!...

Quando na extrema do horizonte infindo

Do sol se apaga o derradeiro raio;

Quando lenta e tardia desenrolas

De teu manto real a tela plúmbea;

Quando vais rociar a lajem tosca

Da fria sepultura com teus prantos,

O murmúrio dos mundos emudece

Ante tua grandeza melancólica!...

E se a filha gentil de teus amores

Cingida de palor no éter brilha;

Se a poeira dos astros cintilantes

Do Senhor do universo esmalta o sólio;

minh'alma minha alma desatando os térreos laços,

De vaga fantasia arrebatada,

Vai pelos raios de formosa estrela

Aninhar-se do elísio na flor cérula!...

Ó Noite, meiga irmã da poesia,

Ninfa em lânguidas cismas balouçada,

Abre-me o seio teu, pleno de encantos!

Desse regaço o divinal mistério

Faz-me esquecer a angústia cruciante

De passadas visões! E de meu seio,

Teu morno sopro nas geladas cinzas,

Anima a esperança de um futuro esplêndido!...

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