Primeira Parte: Confidência
Pensas tu, feiticeira, que te esqueço;
Que olvido nossa infância tão florida;
Que às tuas meigas frases nego apreço...
Esquecer-me de ti, minha querida!?...
Posso acaso esquecer a luz divina
Que rebrilha nas trevas desta vida?
Era esquecer a lúcida neblina,
Que nas gélidas orlas de seu manto,
Extingue a febre que meu ser calcina.
Esquecer o orvalho puro e santo,
Que a campânula curva à calma ardente,
Dá mais viço e fulgor, dá mais encanto.
Esquecer o cristal liso ou tremente
Que me retrata a fronte pensativa!
Esquecer-me de ti, anjo temente...
Ouço-te a voz na langue patativa
Que em trinos desfalece ao vir do inverno:
— Contemplo-te na mimosa sensitiva.
Sem ti não tem o sol um raio terno;
Contigo o mundo todo — é paraíso,
E a taça do viver tem mel eterno!
Oh! envia-me ao menos um sorriso!
Dá-me um sonho dos teus doirado e belo,
Que bem negro o porvir além diviso!
Que a existência sem ti, é um pesadelo!...