Segunda Parte: O Ita-Tiaya Nebulosas · Capítulo 18 de 44
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Segunda Parte: O Ita-Tiaya

Ante o gigante brasíleo,

Ante a sublime grandeza

Da tropical natureza,

Das erguidas cordilheiras,

Ai! Quanto me sinto tímida!

Quanto me abala o desejo

De descrever num harpejo

Essas cristas sobranceiras!

. . . . . . . . . . . . . . . .

Vejo a quem os vales pávidos

Que se desdobram relvosos;

Profundos, vertiginosos,

Cavam-se abismos medonhos!

Quanto precipício indômito,

Quanto misterioso assombroso

Nesse seio pedregoso,

Nessa origem de mil sonhos!...

Ondulam ao longe múrmuras

Aos pés de esguios palmares,

As florestas seculares

Cingidas pela espessura;

A liana forma dédalos

Na grimpas das caneleiras,

Do cedro as vastas cimeiras

Formam docéis de verdura.

Por sobre os seixos dos álveos

Coleiam brancas serpentes,

E as águas soltam frementes

Doridos, brandos queixumes;

Ao perpassar pelas fragas

Em prateados cachões,

Sacodem nos turbilhões

Seu diadema de lumes.

Brota a torrente cerúlea

Do Aiuruoca em cascata,

Rola a treda catarata

Sobre coxins de esmeraldas;

A linfa desmaia túmida

No coração da voragem,

E terna — lambendo a margem

Vai perder-se além das fraldas!

Em três lagos vejo o tálamo

Onde as agulhas se elevam,

Neles constantes se cevam

Três espumosas vertentes;

Do Paraná galho ebúrneo

Do Mirantão se desprende

E, sem que banhe Resende,

Leva ao Prata os confluentes!

Rompendo o celeste páramo

Nem mais um tronco viceja,

A ericínia rasteja

Sobre as fendas do granito:

Tapeta o solo a nopália,

Verte eflúvios a açucena,

E a legendária verbena

Coroa o negro quartzito!

Rompendo o celeste páramo

A ericínia rasteja;

Mais alto, ostenta-se a anêmona

No caule ranunculoso;

Pendem do seio mimoso

Flocos de virgem pureza:

Roubou-lhe a tinta das pétalas

O scirrus cirro que adorna a aurora;

A vaga quando desflora

Imita-lhe a morbidez!

O Térglu, o Asse e o Pesciora

Invejam esta altitude,

E da coma áspera e rude

Os cabeços recortados.

Pendem rochedos erráticos

Na vastidão da eminência,

Riquezas que a Providência

Guarda a seus predestinados.

Em derredor, às planícies

Nivelam-se as serranias;

Envoltos nas brumas frias

Transparecem os outeiros;

E o olhar ardente e ávido

Contempla os montes perdidos,

Como troféus reunidos,

Como tombados guerreiros!...

Salve! Montanha granítica!

Salve! Brasíleo Himalaia!

Salve! Ingente Itatiaia,

Que escalas a imensidade!...

Distingo-te a fronte válida,

Vejo-te às plantas, rendido,

O meteoro incendido,

A soberba tempestade!...

De teu dorso assomam ínvios

Feixes de pedra em pilastras,

Órgão gigante que enastras

De mil grinaldas alpestres!

Quem lhes calca a base, intrépido,

Vendo o sublime portento,

Liberta seu pensamento

Das amarguras terrestres!

Rasgando o horizonte plúmbeo

O sol te envia seus raios;

As nuvens formam-te saios

Quais ligeiras nebulosas!

Mimam-te as flores etéreas,

Cobrem-te espumas de neve,

Dão-te o pranto fresco e leve

Da noite as fadas formosas!

E quando envolvem-te as áscuas

Queimando o chão rociado,

Funde-se o tirso gelado,

Caem profusos fragmentos!

Muda-se o quadro de súbito:

— Chovem cristais dos pilares,

E nu se perde nos ares

O perfil dos monumentos!...

. . . . . . . . . . . . . . . .

Vai meu canto ao mundo sôfrego

Que ante os prodígios se inclina,

Narrar a beleza alpina

Das regiões em que trilhas;

Leva-lhe nas asas vélidas

Meu culto à serra gigante,

Pátrio ponto culminante,

Berço de mil maravilhas!...

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