Terceira Parte: Ave-Maria Nebulosas · Capítulo 43 de 44
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Terceira Parte: Ave-Maria

SOBRE UMA PÁGINA DE LAMARTINE

O rei do dia vacilante, incerto,

Abandona seu carro de vitória,

E reclinado em rúbida alcatifa

Adormece no tálamo da glória!

A cortina de nuvens cambiantes

Guarda o róseo vestígio de seus passos;

À imensidão em luz, a terra em sombra,

Prendem milhares de púrpuros laços!

Como esplêndida lâmpada de ouro

Do crepúsculo suspensa à fronte nua,

Ondula lá na fímbria do horizonte

De palor ideal cingida — a lua!

A catadupa flácida dos raios

Repousa sonolenta sobre a relva,

E o negro véu que cai sobre a campina

Mais densa torna a negridão da selva!

A natureza envolve-se nesta hora

Em faixas siderais de poesia,

Vendo sumir-se o resplendor divino,

Vendo cair da noite a lousa fria!

E murmurando a colossal estrofe

De um poema de célica linguagem,

Ao Criador que o sol formou da treva

Oferece a magnífica homenagem!

Eis o imenso holocausto do universo

Da terra a vastidão tendo por — ara!

Por dossel — a safira do infinito!

Por círio — os mundos que o Senhor aclara!

Os flocos purpurinos que vagueiam

Na planície do ar, do poente à aurora,

São colunas de incenso que embalsamam

Os pés do Deus que a natureza adora!...

Porém é mudo o gigantesco templo!

Do céu é mudo o manto peregrino!

Donde rebenta o celestial concerto?

Donde se eleva o sacrossanto hino?

No harmônico remanso só escuto

Pulsar meu coração, ora ofegante...

A voz augusta é nossa inteligência

Que no éter flutua irradiante!...

Nos rubores da tarde que agoniza,

Sobre as asas balsâmicas do vento,

Nosso ser, sobranceiro à térrea urna,

— Sutil essência — sobe ao firmamento!

E prestando uma fala a cada ente,

Trépido eflúvio a cada flor rasteira,

— Ave de amor — para a serena súplica

Com seus hinos desperta a terra inteira!

Os páramos silentes do deserto

Parecem escutar a voz do Eterno!

As multidões contritas buscam ávidas

Um só fulgor de seu olhar paterno!

E Aquele que ouve os salmos das esferas,

Que contempla perene a luz do dia,

Neste instante solene, ao som dos sinos,

Faz subir uma prece — Ave-Maria!

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