Terceira Parte: Ave-Maria
SOBRE UMA PÁGINA DE LAMARTINE
O rei do dia vacilante, incerto,
Abandona seu carro de vitória,
E reclinado em rúbida alcatifa
Adormece no tálamo da glória!
A cortina de nuvens cambiantes
Guarda o róseo vestígio de seus passos;
À imensidão em luz, a terra em sombra,
Prendem milhares de púrpuros laços!
Como esplêndida lâmpada de ouro
Do crepúsculo suspensa à fronte nua,
Ondula lá na fímbria do horizonte
De palor ideal cingida — a lua!
A catadupa flácida dos raios
Repousa sonolenta sobre a relva,
E o negro véu que cai sobre a campina
Mais densa torna a negridão da selva!
A natureza envolve-se nesta hora
Em faixas siderais de poesia,
Vendo sumir-se o resplendor divino,
Vendo cair da noite a lousa fria!
E murmurando a colossal estrofe
De um poema de célica linguagem,
Ao Criador que o sol formou da treva
Oferece a magnífica homenagem!
Eis o imenso holocausto do universo
Da terra a vastidão tendo por — ara!
Por dossel — a safira do infinito!
Por círio — os mundos que o Senhor aclara!
Os flocos purpurinos que vagueiam
Na planície do ar, do poente à aurora,
São colunas de incenso que embalsamam
Os pés do Deus que a natureza adora!...
Porém é mudo o gigantesco templo!
Do céu é mudo o manto peregrino!
Donde rebenta o celestial concerto?
Donde se eleva o sacrossanto hino?
No harmônico remanso só escuto
Pulsar meu coração, ora ofegante...
A voz augusta é nossa inteligência
Que no éter flutua irradiante!...
Nos rubores da tarde que agoniza,
Sobre as asas balsâmicas do vento,
Nosso ser, sobranceiro à térrea urna,
— Sutil essência — sobe ao firmamento!
E prestando uma fala a cada ente,
Trépido eflúvio a cada flor rasteira,
— Ave de amor — para a serena súplica
Com seus hinos desperta a terra inteira!
Os páramos silentes do deserto
Parecem escutar a voz do Eterno!
As multidões contritas buscam ávidas
Um só fulgor de seu olhar paterno!
E Aquele que ouve os salmos das esferas,
Que contempla perene a luz do dia,
Neste instante solene, ao som dos sinos,
Faz subir uma prece — Ave-Maria!