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Nebulosas

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Nebulosas

Capítulo 1 · Nebulosas

Primeira Parte: Nebulosas

No seio majestoso do infinito,

— Alvos cisnes do mar da imensidade, —

Flutuam tênues sombras fugitivas

Que a multidão supõe densas caligens,

E a ciência reduz a grupos válidos;

Vejo-as surgir à noite, entre os planetas,

Como visões gentis a flux dos sonhos;

E as esferas que curvam-se trementes

Sobre elas desfolhando flores d’oiro,

Roubam-me instantes ao sofrer recôndito!

Costumei-me a sondar-lhes os mistérios

Desde que um dia a flâmula da ideia

Livre, ao sopro do gênio, abriu-me o templo

Em que fulgura a inspiração em ondas;

A seguir-lhes no espaço as longas clâmides

Orladas de incendidos meteoros ;

E quando da procela o tredo arcanjo

Desdobra n’amplidão as negras asas,

Meu ser pelo teísmo desvairado

Da loucura debruça-se no pélago!

Sim! São elas a mais gentil feitura

Que das mãos do Senhor há resvalado!

Sim! De seus seios na doirada urna,

A piedosa lágrima dos anjos,

Ligeira se converte em astro esplêndido!

No momento em que o mártir do Calvário

A cabeça pendeu no infame lenho,

A voz do Criador, em santo arrojo,

No macio frouxel de seus fulgores

Ao céu arrebatou-lhe o calmo espírito!

Mesmo o sol que nas orlas do Oriente

Livre campeia e sobre nós desata

A chuva de mil raios luminosos,

Nos lírios siderais de seu regaço

Repousa a fronte e despe a rubra túnica!

No constante volver dos vagos eixos,

Os orbes em parábolas se encurvam

Bebendo alento no seu manso brilho!

E o tapiz movediço do universo

Mais belo ondeia com seus prantos fúlgidos!

E quantos infelizes não olvidam

O hóscopo fatal de horrenda sorte,

Se no correr das auras vespertinas

Seus seres vão pousar-lhes sobre a coma,

Que as madeixas enastram do crepúsculo!

Quanta rosa de amor não abre o cálice

Ao bafejo inefável das quimeras

No coração temente da donzela,

Que, da lua ao clarão dourado as cismas,

Lhes segue os rastros na cerúlea abóbada!...

Um dia no meu peito o desalento

Cravou sangrenta garra; trevas densas

Nublaram-me o horizonte, onde brilhava

A matutina estrela do futuro.

Da descrença senti os frios ósculos;

Mas no horror do abandono, alçando os olhos

Com tímida oração ao céu piedoso,

Eu vi que elas, do chão do firmamento,

Brotavam em lucíferos corimbos,

Enlaçando-me o busto em raios mórbidos!

Oh! Amei-as então! Sobre a corrente

De seus brandos, noctívagos lampejos,

Audaz liberei-me nas azuis esferas;

Inclinei-me, de chamas circundada,

Sobre o abismo do mundo torvo e lúgubre!

Ergui-me ainda mais: da poesia

Desvendei as lagunas encantadas,

E prelibei delícias indizíveis

Do sentimento nas caudais sagradas,

Ao clarão divinal do sol da glória!

Quando desci mais tarde, deslumbrada

De tanta luz e inspiração, ao vale

Que pelo espaço abandonei sorrindo,

E senti calcinar-me as débeis plantas

Do deserto, as areias ardentíssimas;

Ao fugir dos sinais que estende a noite

Sobre o leito da terra adormecida,

Fitei chorando a aurora que surgia!

E — ave de amor — a solidão dos ermos

Povoei de gorjeios melancólicos!...

Assim nasceram os meus tristes versos,

Que do mundo falaz fogem às pompas!

Não dormem eles sob os áureos tetos

Das térreas potestades, que falecem

De morbidez nos flácidos triclínios!

Cortando as brumas gélidas do inverno,

Adejam nas estâncias consteladas

Onde elas pairam; e à luz da liberdade,

Devassando os mistérios do infinito,

Vão no sólio de Deus rolar exânimes!...

Nebulosas

Sinopse

Nebulosas, de Narcisa Amália, é um livro brasileiro de poesias publicado em 1872 pela Livraria Garnier, com prefácio de Peçanha Póvoa. Esta edição gratuita do Literunico oferece leitura online em capítulos HTML, obra em domínio público, fonte BLPL/UFSC validada, capa com identidade Literunico, espelhos completos de conteúdo e metadados reforçados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

Nebulosas

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