Capítulo II A Família Medeiros · Capítulo 2 de 42
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Capítulo II

Octavio recordava-se de tudo ao passar: as casas baixas com a porta ao centro e egual numero de janellas de cada lado; a loja do Theodoro, na esqui.ia, com peças de baeta vermelha apinhadas, e fardos de algodão; a botica do Anselmo, o velho pharmaceuticoT muito magro e alto, que lia sentado ao pé do balcão, com os óculos encavalgados no seu grande nariz adunco e os lábios delgados em continuo movimento; a escola de D. Maria do Carmo, d^nde sahia o alegre vozear das criancinhas pobres, e o botequim do Guilherme allemão, ao lado, muito varrido e com as portas abertas, mostrando no interior uma rapariga loura amamentando uma criança ainda mais loura, que brincava com os pésinhos no ar De longe em longe encontrava uma pessoa conhecida, a quem não fallava, mas a quem cumprimentava, como a toda a gente na roça. As habitações foram rareando; viu dous chalets novos, nos terrenos do antigo chefe do partido conservador da cidade, o major Caetano, cuja casa em decadência apparecia além, cercada pelos muros da chácara, onde as chuvas tinham posto grandes laivos verdes. Mais adeante, num valle apertado, umas negras de saias brancas, curtas e camisas de decóte estreito, cantavam, batendo roupa nas

pedras do rio que ia serpeando alegremente como uma estreita faixa prateada. Seguia-se».depois, a propriedade do conselheiro Bittencourt; alli, sim, havia alguma differença: o prédio tinha mais um andar, com sacada sobre o jardim gradeado, e um pombal deselegante, pintado de verde, onde centenares de pombos pousavam agitando rumorosamente as suas bellas azas e as cabecinhas gentis. Por sobre o muro do pomar da casa pendiam para a estrada os vigorosos ramos de três abacateiros carregados de folhas e de fructos. Do lado opposto, ao longe, uns montes verdeescurostaxonados

chupava uma laranja, deitado de bruços e firme nos cotovellos. Octavio reconhecia aquelles typos; toda a sua infância fora passada alli, tinha recordações vivas de tudo. Transposta uma aguada, onde o animal bebeu demoradamente, a estrada bifurcava-se^ a da direita seguia em linha recta, a da esquerda subia em zig-zag, e, por ser mais estreita, era mais ensombrada. Por alli passava menos gente, era quasi um caminho particular, commum unicamente a dous ou trêsfazendeiros. Octavio tomou esta estrada; d'ahi por deante teve um único encontro, ode um sujeito fiel aos antigos costumes de viajor paulista: grande pala côr de café com leite, riscada de branco, que lhe cahia dos hombros arredondando-se sobre as ancas do cavallo, botas até o joelho, esporas de prata, chapéo desabado e chicote de grosso cabo de couro; atraz d'elle, em respeitosa distancia,, galopava o pagem, com uma forte manta listrada de vermelho, enrolada como um travesseiro e posta na frente, sobre o sellim. Depois, mais ninguém. Arvores gigantes, cipós entrançados, cantos agudos de pássaros, rumorejar d'aguas em abysmos perfumados de baunilha, abysmos de uma frescura deliciosa, todos vestidos de folhas claras e florinhas coloridas. Decorrida uma hora de marcha, Octavio viu ao longe, do lado esquerdo do valle, sobre a outra coluna fronteira, a torre do sino de

Santa Genoveva e as paredes brancas da casa de seus pães. O coração bateu-lhe violentamente; uma commoção forte abalou. Por umad'essascircumstanciasextranhas, que fazem com que ás vezes duas cousas diversas se apresentem ao mesmo tempo ao espirito, elle recordou-se do seu tempo de infância, como que se viu naquelles dias longínquos, quando voltava dé assistir a alguma procissão na cidade, encostado aos joelhos da mãe, olhando para a estrada com indiffere iça e socego; e, á proporção que essa lembrança lhe tangia na alma a dolorosa nota da saudade, recitava mentalmente os deliciosos versos de João Je Deus: Vi o teu rosto lindo, Esse rosto sem par! Contemplei-o de longe, mudo e quedo, Como quem volta d'aspero degredo E vê, ao ar subindo, O fumo de seu lar! E como elle compr hendia agora a suavidade d'esse seitimeito! Com que alegria e ternura olhava para a torre do sino e para as paredes brancas da casa! dia transformou-se subitamente; accu.nulavam-se nuvens diminuindo o calor a luz do sol. As vozes dos escravos vinham

de além, num rythmo original e encantador, penetrar-lhe na alma como um echo de saudade; descendo mais, na curva da estrada perdeu de vista a casa e a torre do sino. Sobre a sua cabeça as arvores cruzavam as ramas folhudas e o vento impellia uma ou outra folha que vinha como uma caricia, roçar-lhe pela face, pelo hombro, ou pela mão. Sahindo d'aquelle tunnel perfumado e sombrio, deparou-se-lhe a porteira da fazenda, onde se lia ainda, em grandes caracteres brancos como outfora, o nomcde—Santa Genoveva—que era o da sua avó. O cavallo, a cada movimento nervoso do cavalleiro, estugava a marcha. Octavio atravessou meia légua no cafesal, e depois o campo de pastagem, onde as vaccas lambiam os novilhos e as cabras fugiam aos saltos. Ao fundo havia o muro da horta; ladeou-o e penetrou num grande páteo. Uns creoulinhos gritavam, percorrendo-o em procissão, com um jornal na ponta de um páo, á guiza de estandarte. A1 porta do gallinheiro, a um lado, de costas para elle, uma mulher vestida de chita clara, com as trancas negras presas na nuca, num rolo forte,atirava de uma cuia mão-cheias de milho ás aves. Noemiaé uma criança, pensou Octavio, e Nicota é loira. Quem' será aquella rapariga?

Nesse momento ouviu um grito de sorpreza e levantando os olhos viu na varanda a irrnan mais velha, que o reconhecera. — Octavio! — Nicota! Apeou-se á pressa e abraçando a irman entrou na sala de jantar, muito extensa, illuminada pelas j.anellas das extremidades. A mãe, sentada na rede, com as pernas cruzadas, escolhia hervas para o jantar, a tenra camboquira ('), e o agrião separando-as de um cestinho para o outro. O filho correu a abraçal-a e a pobre senhora, suffocada de susto e de alegria, desatou a chorar A saleta de estudo era contígua, e, ouvindo a bulha, Noemia, a irman mais novaT abandonou a lição e, deixando a mestra só, veiu cahir risonha nos braços de Octavio. Era uma creaturinha delicada, sem ser bonita, de olhos garços, cabellos castanhos,, rosada, activa e baixinha. _ Nicota era loura, alta, cheia, um todo grave e sizudo como o de uma matrona, a mais formosa da família, e a quem até os pães parecia respeitarem. — E pae? (") perguntou o recém-chegado á irman mais velha. — Está lá dentro, eu mando chamar. (J) (1) Grelos fie abóbora; prato muito usa Io na província. (-1 Conserva-se fielmente a linguagem provinciana: emS. Paulo, pelo menos no interior, não se costuma dizer papae. (3) Esta plirase, como outras pronunciadas pelos personagens, não é conecta, mas é verJadeira.

— Não! prefiro ir lá ter com elle. Acompanhado da mãe e irmans, Octavio atravessou o longo corredor sombrio até a uma das salas da frente. Impellida a porta, entraram. Nenhuma alteração havia alli. Como ha doze annos, a mesma mobília tinha a mesma disposição: o sofá e as cadeiras de braços em frente ás janellas, o piano coberto de chita de ramagens grandes,duas redes ao fundo, uma de cada lado, entre ambas o consolo antigo absolutamente despido de enfeites. O commendador Medeiros dormia numa das redes, com a barriga para o ar, arfando, a bocca entreaberta, o chapéo de feltro cahido sobre os olhos, e o chicote de tatu estirado ao comprido no chão. Despertando ao ruido dos passos e das risadinhas agudas de Xoemia, o commendador deparou attonito com o filho. — Que diabo!. exclanou, contendo a sua alegria, então vindes assim, (') sem avisar a gente? E abraçaram-se longamente. Depois Octavio contou tudo minuciosamente: a conclusão dos estudos, a ancied.ide de vêr a família:, e descreveu a viagem até Santos, onde desembarcara, a subida da serra do Cubatão, e a sua impaciência. (I) E' muito usado no interior deS. Paulo o tratameno na segundu pessoa do plural.

A mãe e as irmàns ouviam muitoattentas, curyando-se para elle; o pae espreguiçava-se •de vez em quando, disfarçando a sua comm*^ão. No fim de uma demorada palestra, o •dono da casa, voltando-se para Nicota, disse: — Olhae que o vosso noivo vem jantar cá, hoje; o compadre Antunes me mandou «viso. — Já sei que Nicota está para casar, replicou Octavio sorrindo; contou-me o doutor Morton essa grande novidade. — E o doutor Morton fallou também de Eva? perguntou Noemia interessada. — Eva. não. Quem é? — E' a nossa prima, a filha do tio Gabriel; mora agora comnosco, continuou ella. — Tio Gabriel!. elle fez as pazes com pae? perguntou Octavio voltando-se para o commendador. — Antes não fizesse, respondeu-lhe este. — Ora essa! porque? — Deixou-me a filha, que é. — Um anjo! acudiu Noemia. — Qual anjo! um diabo levado de seiscentos! concluiu enraivecido o fazendeiro. Nicota sorriu, Noemia baixou entristecida a cabeça, a mãe voltou impassível os olhos para fora, e Octavio achou mais prudente mudar de assumpto. As horas avançavam c as senhoras retiraram-se, uma para dar ordens, as outras

para fazerem a sua toilettè e escreverem ás amigas participando a chegada do irmão. O commendador e o filho ficaram sós, e puzeram-se a discutir assumptos de lavoura. Octavio ouvia com desgosto o pae expender idéas antigas, pejadas de rancor e de fastio; de vez em quando aventurava um aparte ou um elogio aos processos novos, fugindo de o molestar, como se tratasse com uma criança, O fazendeiro repellia indignado as idéas dõ filho e firmando-se nellas, seguia disparatadamente contra os reformadores, contra as modernas theorias, contra tudo e todos. Octavio avançava que a agricultura no Brasil devia ser tratada como uma das cousas mais bellas e mais dignas de estudo e de transformação. O pae declamava, jurando maldições contra os abolicionistas, os «pescadores de águas turvas» e ladrões! Seguia por ahi fora contra a execrável raça, concluindo: «Os negros fogem, livram-se e o infeliz lavrador não tem nem o direito de se queixar! Infames, canalha! » Aquella linguagem feria dolorosamente os ouvidos de Octavio, que estremecia intimamente de repugnância e tristeza. Estava num terreno perigoso. Ahstinha-se de proseguir. O pae, que vociferasse á vontade; elle constranger-se ia, respeitosamente. Suppunha poder demolir pouco a pouco o bronzeo egoísmo do pae e vêl-o emfim cooperar na

grande obra de humanidade e de patriotismo. Precisava procurar com cuidado as occasiões propicias para o completo desenvolvimento da sua idéa. Naquelle momento tudo seria inútil; o commendador, muito exaltado, não o escutaria, e elle era incapaz nesse dia de sustentar com o velho, para cujos braços voltava cheio de alegria, uma questão qualquer Susteve-se emquanto o pae continuava amaldiçoando o tempo dos abusos e dos ataques á propriedade alheia! — « Se elles se lembrarem de vir a Santa Genoveva, exclamava, os bandidos dos abolicionistas, eu sei como os hei de receber: — a tiro! Defendo a minha propriedade, estou no meu direito. A culpa é também das auetoridades, que não amoldaçam esses cachorros do& jornaes, que latem, latem, para os ^outros morderem! » '*'-#' Neste ponto bateram de manso á porta, e uma voz de mulher perguntou de fora: - «Dá licença, meu tio?» —Mau! lá vem a lambisgoia!. Entre! Octavio levantou-se, e recuando um pouco, encostou-se ao piano; a porta, impellida docemente, deu passagem á mesma pessoa que elle vira de costas, dando milho ás aves. — Eva chegou em bem má oceasião... disse o commendador seccamente. —Demoro-me pouco. Octavio não fora notado e observava com attenção a recém-chegada.

Era uma mulher nova,esbelta, levemente morena, de fartos cabellos negros, rosto oval, olhos franjados por longas pestanas muito escuras,feições regulares, andar firme, cabeça erguida sem affactação nem altivez. Tinha a voz grave, cheia, e a attitude serena. Vestia com simplicidade o seu vestido de pcrcale, escrupulosamente ajustado. — Que temos? indagou o tio. —Venho pedir-lhe que perdoe ao Manoel; elle promette ser obediente d'aqui por deante. Manda tirar-lhe os ferros? —Asneira! deixe-se d^sso, que não é da competência das moças. Se não quizer ver o negro com os ferros, não olhe para elle. — Não olho, mas nem assim deixo de saber que os traz, e isto dóe-me. O commendador deu uma gargalhada. Pelos olhos de Eva passou um relam ^ago de indignação e um sorriso de desdém arqueoulhe os lábios. —Já não sei quantas vezes tenho,a seu pedido, perdoado faltas dos escravos! Olhe, é melhor que se vá preparar para o jantar; aqui está meu filho que chegou hoje, e espero amigos nesta meia hora. Eva voltou serenamente os olhos para Octavio, a quem cumprimentou friamente, sem avançar um passo; depois, num tom de quem se desculpa, disse: — 1.u não sabia da sua chegada; venho neste momento

— De alguma senzala, interrompeu com ironia o tio. — E' verdade, confirmou ella; de uma senzala. Fui ver a Josepha, que está doente. A' sahida encontrei o Manoel que me pediu que o apadrinhasse; prometti vir em seu soccorro e atravessei logo para aqui. — Não deve prometter o que não pôde cumprir. Eva olhou para o primo, como a pedir-lhe auxilio; Octavio, approximando-se do fazendeiro, disse, commovido: —A minha chegada justificará a clemência que tiver para com o infeliz; em nome da grande alegria de nos tornarmos a ver, peçolhe, meu pai, que attenda aos rogos da prima Eva. O commendador fingio reflectir um momento, e voltando-sc para a sobrinha, disse: — Está bom! por hoje perdôo, mas não torne a fazer semelhantes pedidos! — Obrigada. E Eva sahiu da sala sem precipitação. Octavio sentiu avivar-se-lhe a curiosidade a respeito da historia d'aquclla prima, que não conhecera nunca, e que vinha encontrar debaixo do tecto paterno, tratada por uns como um anjo, e por outros como um demônio. Avaliou num momento a triste posição de Eva, recebendo por caridade á sombra de um telhado e o pão de um velho e encarniçado inimigo de seu pae. Absteve-se, comtudo, de

qualquer pergunta naquella occasião em que via o commendador excitado contra elía; pensou sensatamente que qualquer informação seria apaixonada, e reservou-se para mais tarde, quando o visse de animo tranquillo. E no fundo do seu espirito havia já a convicção de que a opinião de Noemia era a justa: « Eva é um anjo!» Dissera ella, e elle comprehendia-a depois de ter presenciado,aquella scena. Só os anjos arrostam com a má vontade dos poderosos a favor dos fracos e dos opprimidos; só os anjos supportom injurias com humildade quando a causa que advogam é a dos desgraçados. Sim, Noemia tinha razão. Eva é um anjo.

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