Capítulo XV
XV Deixando a festa do casamento da irman, Octavio partiu a todo o galope para Santa Genoveva. A noite estava escura e quente; de vez em quando um pequeno relâmpago cortava momentaneamente a treva. Elle ia na persuasão de encontrar tudo em boa paz; não po-.dia attribuir a Eva senão sentimentos generosos e puros e dispunha-se a combater a inverosimil infantilidade do pae com respeito ao terror que lhe inspirava a sobrinha. Mas combater de que maneira? Provando pela evidencia dos factos a sua innocencia. Anhelava por esclarecer tudo; confiando ao pae o que ouvira de Morton, para convencel-o de não estar no poder de Eva a cartacausadorade tantos sobresaltos. Confiava em que, desapparecido o receio de ver surgir a qualquer instante uma prova contra a sua honra, clesapparecesse também a desconfiança do seu espirito e o rancor do seu coração. O respeito que tinha pelo pai diíficultava-lhe a acção. Faltava-lhe a coragem para a lueta, temendo sempre ser cedo para ferir, directamente, tão grave assumpto. Contava estabelecer a harmonia na família, sem que o pai suspeitasse siquer, que elle, seu filho, conhecia tão revoltante segredo! Quando chegou á fazenda eram onze horas; apeou-se longe, no pasto, prendendo o cavallo ao varal de um carroção: desceu a pé, attonito por encontrar todas as porteiras abertas.
Deu volta por detraz das senzalas, caminhando com precaução; assim chegou ao fundo da casa principal; ia rodeal-a quando, ao approximar-se de úma esquina, ouviu vozes de homens que fallavam baixo do outro. lado. Octavio, encostando-se á parede,escutou: — Tá tudo prompto? perguntava um d'elles. — Tudo... respondia outro. — Os negro da casa tão no curro? (i) carece de sabe bem isso. — Dê certo estão... — Arrepare, Joaquim! é perciso. fazê ás coisa Gum geito. — Tá dereito, nho Furctuoso! Eu sou um decidido! logo pego, arrombo num baque (2) as porta do quadrado e ponhamo-nos a fazêbaruio. Sahe cinza. — Que a confusão damnada! mecès tudo não se-esqueça de dizò quifoiD. Eva qui mandou nóis cá. si não, os negro nos arresiste! — Entonces, quem si havéra de si esquece d'isso?! — Se argum si quizé fazê dê tolo, já se sabe, tiro pra frente! as alma vieram carregadas por móde isso. — Tá bom, gentes... (1) Curro: assim chamam a reunião das senzalas, que lambem denominam—quadrado e quartel. (2) Num baque—num momento.
Octavio ouvira palavra por palavra, cheio de espanto. As mãos crisparam-se-lhe; no seu rosto livido os olhos tinham um brilho singular. Era então verdade! Eva descia odiosamente a uma baixeza d^quellas! Ruia o pedestal em que a collocára superior a todas as mulheres; a estatua dá compaixão., a rnartyr, como a suppuzera, patinhava descalça, audaz e deshonesta, na lama de uma vingança torpe. Urgia não perder um minuto e evitar a revolução. Octavio procurava um meio de se reunir aos de casa, sem attrahir a attenção dos malfeitores. Passou-lhe pelo espirito uma multidão de alvitres, cada qual mais confuso e mais disparatado. Felizmente, os capangas estavam do outro lado da casa e elle poderia voltar á frente sem ser visto e chamar em seu auxilio o feitor. Assim fez; caminhou com precaução, amparando-se á parede, até perto da torre do sino; ahi parou. No terreiro da frente caminhava também um grupo de homens, fallando em segredo; passaram a pouca distancia de Octavio, num rumor soturno de passos e de vozes que a pouco e pouco se foi perdendo a distancia...Não os ouvindo já, Octavio galgou de um salto os seis degraus da escada de pedra e chegou ao alpendre; bateu com força na janella do feitor, dizendo alto: « Sou eu, Octavio, abra depressa! » Fora sentido fora
e dentro da casa ao mesmo tempo; mas,-no momento em que o feitor, pallido e tremulo, lhe abria a porta, um tiro disparado de entre a escuridão da noite cravou-lhe nas costas uma bala. Octavio cahiu debruços, para dentro, indo bater com o peito no chão; a mulher do' feitor puchou-o, arrastando-o, para o corredor, emquanto o marido fechava violentamente a porta; depois levaram-no para o leito, onde elle ficou estendido, inerte, manchado de sangue. A revolta rebentara lá fora; ouviam-se gritos, imprecações e tiros, estalos de portas arrombadas, vozes afflictas de crianças e mulheres. Sem cuidarem de Octavio, na allucinação do medo, sem mesmo saberem se estava vivo ou morto, correram o feitor e a mulher a collocar moveis junto ás janellas e á porta. Que iria fazer lá fora o feitor? Que era um homem para uma revolta de cem? Como o tratariam tantos e tão encarniçados inimigos? Agora não eram os mesmos cordeiros, aos quaes elle distribuía a esmo chicotadas; não eram brutos irracionaes, sem dignidade e sem coragem: eram homens enraivecidos ecapazes de tudo para satisfazerem os seus fins. A gritaria cessou depois de uma hora infernal. De vez em quando batiam na porta e atiravam pedras aos vidros, que se quebravam em estilhaços. O feitor collava-se, encolhido, a um canto; a mulher arrastava-se de joelhos,
a rezar, batendo no peito grandes pancadas, com a mão curva. Tinham-se refugiado numa alcova interior, quasi sem ar, fechada hermeticamente, mal allumiada pela luz mortiça e tremula de uma lamparina, em'frente ao oratoriosinho de madeira que tinham sobre a commoda. No seu throno enfeitado de hortensias, de lirios e de cravos, a Virgem das Dores, com uma lagrima crystalisada na face impassível e o seu manto de velludo orlado de renda dourada, cahindo-lhe da cabeça aos pés numa volta muito redonda, a Virgem das Dores, com o punhal cravado no peito, a brilhar de vez em quando aos lampejos intermittentes da luz, era entre as sombras frias d^quclle quarto mofado e humido, a única esperança d'aquella pobre gente. O feitor tremia, encolhido e côr de cera; a mulher, com a physionomia alterada, levantava para a serena imagem as mãos supplices. Houve um momento em que o marido, abandonando o canto em que se collocára, foi ajoelhar-se em frente ao oratório, acompanhando alto um Padre Nosso, dito nervosamente por ella. A' proporção que diminuía lá fora a gritaria, iam elles melhorando de animo; e quando pelas frinchas das portas entrou a luz do dia numas estreitas fitas esbranquiçadas, foi que se atreveram aseguirpelo corredor atéoquarto da frente, em que Octavio tinha ficado abandonado, estendido sobre uma cama sem lençóes.
Eram cinco horas da manhan, quando a voz do compadre Antunes gritou de fora: — Seu Honorato, abra a porta! é gente de paz. A porta abriu-se e o feitor viu os escravos da casa, amarrados e submissos, numa longa fila silenciosa, cercados pela gente do Antunes. A'frente d'elles,o compadre d? Medeiros, com um brilho singular nos olhinhos pardos, bamboleava o corpo, bufando alto. — Mande dar uma pinga a essa gente, homem! disse elle apontando para os seus capangas, logo que viu o feitor. — Tá dereito! respondeu-lhe este ainda tremulo; mais venha primeiro cá dentro... Entraram ambos para a sala, ainda ás escuras. Abriram as janellas á claridade e ao ar fresco da manhan. — Então que é que ha? perguntou o Antunes-. — Ha que seu Octavio levou um tiro de garrucha e está ferido.. — Seu Octavio! pois elle não está na cidade?! — Não senhor, está aqui. Antunes tornou-se livido, vergaram-selhe os joelhos e uma vertigem escureceu-lhe a vista; pouco depois, voltando á costumadaenergia, disse ir elle próprio buscar um medico e ò pae da victima.
— Medico. para que? Seu Octavio morreu. Convidou-o para ir ver o cadáver; mas Atir tunes, de olhos ésgazeados, negou-se a isso, ficando hirto e immovel no mesmo logar. O feitor deixou-o, e tirando um crioulo da desgraçada turma, mandou-o distribuir aguardente aos capangas. A'commoção tinha vencido toda a actividade do Antunes. Conhecera Octavio ainda pequenino, sempre tivera predilecção por elle. Entre todos os rapazes distinguia o sempre, e acariciava "a idéa de o \er casar com a sobrinha. Aquella morte era um desastre para a sua família, era talvez a ruina d'elle, Antunes, que projectava ligar o.moço Medeiros aos s u s interesses particulares. Estava todo entregue á apathia da sua grande dor, quando ouviu gritos dolorosos numa voz tremida de mulher e a bulha de um corpo que se arrastava; impressionado, voltou se: era a mama de Octavio, a pobre negra velha, que ia como um réptil, pelo chão, como ventre encostado ao assoalho, as pernas mirradas pela paralysia, arrastadas e molles, pondo nas mãos engelhadas toda a sua actividade, estendendo ora um braço ora outro, encarquilhando os dedos nas gretas das taboas, quebrando as unhas, rasgando as roupas,.arranhando as carnes, arfando de cançaço, mas proseguindo no esforço até a porta do quarto do ferido, que ella abriu com a cabeça, num desespero angustioso.
Mas, o corpo do moço estava numa cama alta e a desgraçada não se podia erguer para beijal-o e vel-o; extenuada, poz-se a chamal-o com uma voz dolorida e débil, levantando o rosto lacrimoso para o leito a que não conseguiu chegar. — Meu filho... Meu filho!... Acordara naquella madrugada ouvindo bulha, e pedira á sua companheira, velha também, a Joaquina, que fosse indagar de que era proveniente aquelle estrondo. A Joaquina sahiu, para voltar com a noticia da morte de Octavio e da prisão do Jacintho, único filho da pobre paralytica. Ella então, louca de dor, não quiz ouvir detalhes e supplicou á Joaquina que a levasse para júneto d:elles; a outra fez-lhe a vontade; não podia carregal-a nos braços com meiguice, puxava-a como quem pucha.um fardo, fazendo na terra uma esteira muito lisa, varrida e rasa. Pouco tinha andado assim, quando lhe veiu á lembrança o carro de mão com que o jardineiro trabalhava: foi buscal-o, sentou nelle com difficuldade a invalida e conseguiu impellil-o até a casa grande. No terreiro viram, logo ao chegar, o Jacintho amarrado a um companheiro. A mãe quiz approximar-se d'elle, mas não lh'0 permittiram; ella ficou então de longe a acenar-lhe, chorando, emquanto elle partia namiseravelturma para a fazenda do Antunes.
O tronco de Santa Genoveva não tinha espaço para tanta gente; o Antunes então deliberara recolher parte d'ella na sua fazenda, que por amizade a Medeiros, arvorava em prisão. A'Joaquina tinha tirado a invalida do carro, e subira, arfando de cançaço, com ella ao collo os seis degraus, quando recebeu ordem do feitor para descer immediatamente; vendose só, a paralytica não desanimou e conseguiu arrastar-se até o quarto do seu adorado Octavio, rasgando a saia sob os joelhos, quebrando as unhas nas taboas, maguando os ossos e ensangüentando as carnes. Aos gritos lamentosos da velha, acudiu compassiva a mulher do feitor; a preta suppliéou-lhe que a puzesse por um momento em cima,que ella ficaria aos pés do leito, encolhida, immovel e calada, comtanto que visse seu filho: queria vel-o a todo transe! Sentaram-na no cantinho, entre a parede e os pés de Octavio, pés que ella acariciou e beijou, chorando baixo; depois arrastou-se até pegar-lhe na mão muito branca e fina, sacudindo-a de manso, e repetindo baixinho, como para acordaí-osem sobresalto: «Meu filho. meu filho...>r Elle lão se moveu e ella arrastou-se mais; beijou lhe a testa, as palpebras fechadas, afagou-o muito e inclinou a cabeça, escutando-lhe o coração; esteve assim um minuto, com os olhos muito abertos e a respiração cortada; depois, um sorriso pousou-lhe nos
lábios engelhados, fulgurou-lhe o olhar e soltou um grito de júbilo, um grito cheio de vida, cheio de amor, todo alma, vibrante de sentimento, grito dç triumpho, grito de mãe apaixonada ao vêr tornar a si o filho idolatrado. —Meu filhovive! vive! Ouvindo estas palavras,.Antunes entrou no quarto e approxi noü-se de Octavio. Escutou-lhe também o coração, apalpou-o nervosa, anciosamente e, sem dizer nada, sahiu apressado, com o olhar fulgurante e incerto. O seu cavallo estava arreado, montou-o e seguiu a galope para a fazenda do Navarro, a um quarto de légua de Santa Genoveva. Sabia estar lá, havia tempo, um Dr. Castro, medico de Pernambuco, homem, segundo corrria, de reflexão e de estudo. Em poucos minutos batia á porta do quarto do medico, ainda fechado e tranquillo. O Antunes explicou mesmo do lado de fora o que havia, exigindo pressa, muita pressa! O medico prescindiu do.seu banho de chuva, vestiu-se sem apuro, respondendo ás instâncias do Antunes com um: «Já vou.. já vou» muito repetido; e aconselhava, lá de dentro, que mandasse arranjar a conducção. Emquanto o Antunes, muko afíiicto, via sellarem o cavallo do medico, procurando, agitadamente, ajudar os pagens, a mulher do Navarro, já de pé, sinceramente interessada pela sorte de Octavio, mandava ao quarto do
doutor, sem demora, o copo de leite e a chicara de café, numa solicitude hospitaleira de que as senhoras paulistas são pródigas. Dr. Castro enguliu, sem as saborear, as duas bebidas, guardou n.i algibeira o estojo indispensável, cumprimentou a dona da casa, alisando com as mãos morenas as guias do seu farto bigode negro e reluzente, e desceu para o terreiro a pensar, satisfeito, na proveitosa acquisição de tão bom cliente. Depois de o ver partir para Santa Genoveva, Antunes seguiu até a cidade, esporeando o animal já cançado. Chegou a casa do commendor, ás seis horas; achou-o só, no grande salão illuminadopela luz doce da manhã, ch.io de flores enlanguecidas e murchas, alguns doces pisados, velas quasi gastas, e cadeiras em desordem. Medeiros estava pallido e tinha nos olhos os vestígios dainsomnia. Vendo-o, o Antunes recuou indeciso e ficou entre portas. O fazendeiro, avançando para elle, perguntou-lhe, quasi suffocado pela angustia: — Que houve?! Antunes não pôde responder; pallido e tremulo encostou-se ao humbral. — Octavio? — Está.. —Morto?! —Ferido. vá para ao pé d'elle, compadre; vá quanto antes; tem aqui o seu troly e o pagem; não se demore, vá, vá depressa!
—E Eva? —Depois tratará d'isso; vá para juncto de Octavio! Esta insistência desnorteava o commendador. O Antunes levou-o comsigoao quintal, bateu á janella do quarto do pagem, apressou-o a arranjar a conducção. O mulato Saturnino, desembaraçado e obediente, apparelhava os animaes; no entanto, o commendador ralhava, chamando-o moroso. O Antunes não resistiu: suppondo ser mais expedito, afastou o rapaz e poz-seelle, muito nervoso, a arrear as bestas. Momentos depois o fazendeiro partia para Santa Genoveva, despedindo-se acabrunhado e grato do amigo. Quando, chegado á fazenda, entrou no quarto do filho, o medico tinha acabado de extrahir-lhe a bala de sob a clavicula direita, onde a procurara logo, em direcção ao ferimento das costas, e ondea achou, saliente como um pequeno tumor. —Ah! doutor! salve o meu filho! foram as suas primeiras palavras. —Esteja descançado; o Sr. Octavio viverá largos annos: por um triz estaria morto ha algumas horas.. agora serei assíduo e procurarei, por todos os meios ao meu alcance, pôl-o bom. E' preciso cuidado. Amaneirando o tom, continuava: —A bala deve ter atravessado o ápice do pulmão direito e d'ahi provirá naturalmente
uma peneumonia traumática; terá febre, c, para evitar as hemoptysas, convém guardar o mais absoluto silencio. Medeiros olhava-o sem -comprehender e rogava ao medico que se instalasse em Santa Genoveva e não deixasse o doente. —Virei todos os dias_mais de uma vez: estou a dois passos: além d'isso tenho mais doentes, e embora não lhes dediqu: o mesmo cuidado, não posso abandonal-os, bem vê. mas estaja certo, que hei de vir três ou quatro vezes por dia... Hoje fico, passo com elle a noite, apezar d'outros compromissos... Agora o que lhes peço é cuidado. Sua senhora? — Ignora tudo... —E' preciso prevenil-a; as mulheres" sabem lidar com os doentes, com mais delicadeza do que nós... Medeiros deu ordem para que Xossem buscar a família, disposto a aconselhara Eva que se retirasse nesse mesmo dia para o Mangueiral. Voltando para o lado de Octavio, este quiz fallar-lhe, mas o Dr. Castro prohibiu-o d'isso e apresentou-lhe a carteira abertae um lápis; o doente, tremulo, escreveu: «Proteja Eva, rogo-lhe por.» O lápis resvalou lhe de entre os dedos e elle ficou de olhos fechados e silencioso. O commendador leu, franziu as sobrancelhas e, avermelhando-se, ia responder zangado, quando o medico, notando a sua cólera, lhe disse baixo:
'— Não o desgoste! uma contrariedade pôde matal-o! O fazendeiro-disse então'para o filho, de um modo visisivedmente contrafeito: - Farei a vossa vontade! Ocicwào sorriu e agradeceu-lhe com um gesto quasi imperceptível. Deixando-o em companhia do medico,o fazendeiro indagoudo o feitor, fora, na sala, dossuccessosd-a noite. Honorato, confuso, -conto ú-Jhe, repetindo certos pontos, que ás duas horas da noite ouvira* Octavio chamal-o, batendo com força na porta.* Aconselhado pelo Antunes, elle, Honorato, não tinha sahido até ahi e estava'resolvido a não apparecer: os negros odiavam-no e erairi capazes de matal-o por isso. ' Medeiros, impaciente, ordenava que proseguisse. —A's duas horas em ponto, continuava elle, ouvira a voz de Octavio; e como estivesse perto e com o ouvido á escuta, acudiu logo ao chamado; ao tempo em que abria a porta, partia um tiro do.terreiro e o moço cahia para a frente. Conduzira n-no para o quarto mais próximo; ouviu-o gemer por algum tempo, depois, como tivesse emmudecido, tanto elle como a mulher suppuzeram-no morto... A's cinco horas chegava o compadre Antunes, e pouco depois Octavio dava signaes de vida. Quando o doutor chegou, elle já estava de olhos abertos, gemendo baixinho, afagado, pela Joanna paralytica.
Referiu-se sem commoção á velha, que mandara recolher á senzala por conselho do medico; a pobre mama, cançadada lucta, num exgotto nci-voso, como tinha dito o Dr. Castro,' ficara com os braços inertes, sem acção, completamente paralysados como as pernas, tanto que a levaram para baixo, ao collo, deitada, como se fosse uma criança! Medeiros deu tréguas a outras investigações; já não se ouviria de manhã o sino, chamando a gente ao trabalho; os campos e os cafesaes pareceriam abandonados; as senzalas fechadas desde a manhã até a noite eo> carreadouros desertos. Antes da tarde, chegava toda a família; Trigueirinhos e Nicota demoraram-se pouco. O commendador, desviando o olhar da sobrinha, explicou muito por alto a revolta d'essa noite. O genro deitava exclamações de rancor e de espanto; Nicota, com a cabeça pendida, enrolava machinalmente nas mãos as fitas da sua capa de viagem; Noemia chorava; Eva, muito pallida, e.cutava-o de pé, com as narinas palpitantes e os 'olhos fixos; e á cabeceira do doente a mãe, resignada, suspirava de vez em quando, em uma tristeza calma. Acabada a exposição de Medeiros, o medico pediu uma enfermeira, de entre as três senhoras. Eva offereceu-se, mas o fazendeiro replicou seccamente ser melhor incumbir d'esse cargo a mãe e a irmà do doente. Um gemido de Octavio interrompeu a discus;ão, e
Eva sahiu perturbada. Antes de entrar no seu quarto, passou pelo de Mme. Grüber, e, entrando, deixou-se cahir sobre a fauteuil azul. O coração pesava-lhe; presentia qualquer cousa de terrível que a ameaçava de perto e não podia comprehender e que fosse! Que significaria aquelle movimento do tio? Porque a repelliam, a ella, que não-lhes fizera mal e que se tinha sempre submettido tão placidamente aos seus costumes e vontades? Passou todo o resto do dia em cogitações dolorosas; á noite voltou de novo ao quarto da allemã, abriu a janella á solidão do campo e um bom ar fresco encheu o aposento; arranjou e accendeu o lampeão; trouxe para a mesa os preparos de escripta e começou, com a sua lettra firme, uma carta á mestra. Sentia mais do que nunca a falta d'essa boa senhora de espirito, com quem trocava idéas emdoce-intimidade e por quem se sabia comprehendida e amparada nas suas horas mais desanimadoras e cruéis. De vez em quand) Eva attentava o ouvido, a escutar os gemidos de Octavio e um murmúrio de voèes e passos abafados, e tornava depois a ranger a sua penna no papel assetinado, branco como a sua consciência, em que ia derramando toda a alma, assustada como um pássaro solto na amplidão dos mares, sem um rochedo onde se aninhe ou um mastro onde pouse!