Capítulo XXXV
XXXV O casamento de Sinhá devia realisar-se emCampinas, na Matriz Nova. A irman do Antunes tinha fixado nessa cidade a sua residência. Além do convite official, escreveu ella particularmente ao commendador, pedindo-lhe que não faltasse; mas o velho fazendeiro, prcoccupado com a perda dos escravos, encarregou o filho de represental-o e de acompanhar Noemia. Os dois irmãos partiram para Campinas no propriodiadacerimonia, de manhã. Noemia ia radiante; não asshtia, havia muito tempo, a um baile, e a sua mocidade reclamava alegrias e festas. A irman do Antunes esperava-os na estação e levou-os para o seu chalét no Guanabara. Pelo caminho, dentro do carro fechado que os conduzia, contava que a Sinhá amava apaixonadamente onoivo; queelle,o Azevedo, fazia-lhe, havia muito tempo, a corte, praticando por ella verdadeiras loucuras, dando-lhe, emfim, evidentissimas provas de amor!... Noemia abria muito os olhos, attonita pelo que ia ouvindo. Octavio esforçava-se para não sorrir, comprehendendo o sentimento oceulto que ditava aquellas palavras; sentia, á medida que os elogios ao Azevedo iam crescendo, desejos de perguntar se elle não indagara nada
acerca do dote... comtudo abstinha-se da mínima manifestação de ironia, respondendo ás expansões maternaes da viuva com phrases lisongeiras aos noivos. Atravessaram assim toda a cidade, descendo a coluna da estação para as ruas de maior actividade commcrcial e d'ellas para o bairro moderno, em que morariam durante dous dias. Após a cerimonia na egreja, ás oito horas da noite, seguiriam noivos e convidados para o Club Semanal, onde a mãe da Sinhá offereceria um baile. Era o costume da terra. Assim se fez. A's oito horas da noite, a porta principal do grande templo abria-se de par em par. Lá dentro, a luz forte do gaz espadanava os seus brilhos sobre as paredes brancas, de que se destacavam, imponentes e graciosos, os altares escuros, de obra de talha, delicados e artísticos. Entre os genuflexorios de chagrin verde-escuro, muitas pessoas curiosas esperavam o cortejo. A hora marcada a noiva entrou na egreja, deslumbrante de alvura e de belleza. Do coro derramaram sobre a sua cabeça velada uma chuva de flores. Ella seguiu, amparada ao braço do padrinho, e atravessou pausadamente o cruzeiro, arrastando a longa cauda do seu vestido branco.
Aos pés do altar-mór parou, c o Azevedo, muito pallido, collocou-se a seu lado; o sacerdote disse as primeiras palavras do ritual, e o órgão lá em cima rompeu numa suave melodia. A luz punha reflexos dourados e fugitivos na capa de asperges do vigário, penetrando por entre os festões de rosas de madeira dos altares. De cima, das tribunas, algumas famílias olhavam indifferentemente para aquelle espectaculo; a mãe da noiva sorria orgulhosa, com o seu largo rosto trigueiro illuminado por uma dulcissima alegria. Octavio observava curiosamente o interior do templo, quando deparou com a prima, que rezava de joelhos num genuflexorio. Atraz d'ella Paulo assistia, de pé, á solemnidade do casamento. Era a primeira vez que elle a via assim, na grande humildade das religiosas; era também a primeira vez que elle a via assim decotada, mostrando a carnação avelludada e leitosa do seu formoso collo roliço e dos seus braços bem feitos. A luz batia-lhe em cheio sobre as rendas e a seda côr de marfim do vestido, onde não brilhava a mais pequena jóia; os cabellos negros, presos no alto, sem flor, sem fita, sem plumas ou diadema, davam-lhe, na sua simplicidade, um aspecto de magestade e de graça. Eva rezava, num grande recolhimento. O padre deitava a bençam aos noivos e, dando-lhes as mãos ajudava-os a erguerem-
se, felicitando-os. O som do órgão expirou lentamente e o cortejo voltou, pisando sobre as folhas espalhad.is, que rangiam no chão. Octavio, puxando de vagar o braço da irman, mostrou-lhe Eva, que, já de pé, cumprimentava a noiva. Noemia deu um gritinho de prazer, e, afastando pressurosamente as pessoas que estavam adeante, foi abraçar a prima, exclamando ao mesmo tempo: — Que bom! que bom! Como eu estou contente! tinha tantas saudades suas! Sabe? eu tenho muito que lhe dizer... muito! não c verdade, Octavio? dizia, voltando-se para o irmão, que estendeu timidamente a mão á prima. Eva sorriu-se, e puxando Noemia beijou-a com ternura. — Então, faço-lhe falta? perguntou. — Muita! não imagina! Santa Genoveva está que parece um cemitério! E' verdade, morreu a mama de Octavio! — Pobre Joanna! —Coitada mesmo... eu tive muita pena! Agora temos criadas italianas... Que graça! nem a gente as entende, nem ellas nos entendem a nós! Fallamo-nos por mimica! escuso de dizer que a mais expressiva é a minha! —Acredito. Agora uma outra cousa: porque não me foi ainda vêr? —Desejos não me tem faltado, mas... Que bom dia aquelle que eu passei lá! assim é que vale a pena ter sitio! Nunca mais passeei a cavallo...
—E tem estudado? —Não... —Que faz, então? —Sequer que lhe falle com franqueza... nem eu sei! Na anciedade de vasar no coração da prima os sentimentos do seu, Noemia ia relatando tudo o que tinha occorrido no sitio, depois da sua separação, desde as mais importantes até ás minimas coisas. Entretanto, os noivos recebiam os últimos abraços, e todos sahiam da egreja. — Porque não vem no meu carro? perguntou Noemia á prima. — Porque estou com a familia do Siqueira... E' verdade! fui apresentada ao Júlio; elle fallou muito em você... — Ah! o Júlio Siqueira Franco?... —Sim. —Achou-o sympathico? — E' um rapaz distincto. — E' parente da familia Siqueira? —E' E agora adeus, Noemia; vá ver-me, se porventura o tio Medeiros consentir... —Quando volta para o Mangueiral? —Amanhã. — Não assiste ao baile.? — Não. D. Olympia Siqueira está doente e volto já para seu lado. —Adeus, Eva! disse Noemia num tom resentido, com os olhos humidos. Eva abraçou-a e estendeu depois a mão a Octavio, que
faltava a pequena distancia com Paulo. Elle córou, embaraçado; ella sorriu. Uma hora depois a egreja estava fechada e escura; o largo lá fora silencioso, e longe, na esquina de uma rua solitária, rompia atroadoramente, no salão do Club Semanal, a primeira quadrilha do baile.