Capítulo XI A Família Medeiros · Capítulo 11 de 42
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Capítulo XI

XI Esperando pelo velho amigo, que dormia regaladamente a sésta, elle sentou-se entre uma estante repleta de livros e uma mesa coberta de papeis. Na parede branca, sobre a secretária, balançava-s: agitadam nte, á viração da janella, a folha de um calendário, marcando o dia 10 de dezembro de 1887. Mais acima, numa oleographia, ostentavase, num fundo muito azul c envernizado, d: céu e de mar, a grande oidade americana de New-York—da pátria de Morton.Sobre a pelle de tigre, já velha, estendida ao pé do sofá, cahira um numero de New-York Herald, escorregado para alli, das mãos do leitor somnolento, uma hora antes. Octavio levantou-o e poz-se a lel-o machinalmente; estava assim havia uma boa meia hora, quando o doutor Morton, de chinellos e casaco de linho, appareceu risonho. — Pôde dispensar-me o seu dia, doutor, ou terá algum compromisso? — Nenhum Agora o meu uriico trabalho são as duas horas de classe alli no collegio Não tenho forças para mais; estou gasto. — Bem! nesse caso,podemos conversar?. — Perfeitamente. Alas deixe-me primeiro mandar vir cerveja; está um calor damnado!

A FAMÍLIA MKDKIHOS O doutor chamou uma criada branca c sardenta, de avental azul de riscado, que ia pelo corredor, e ordenou que lhe levasse cerveja e copos. Momentos depois, saboreando-a, para elle, melhor e mais.saudável das bebidas, fez ao seu ex-discipulo signal de principiar — Estou disposto a ouvir. — Desejo que se sinta ainda mais disposto a fallar, respondeu Octavio; e approximando-se do velho, continuou: — Por extranho que lhe pareça o que venho pedir, rogo-lhe que me acredite desinteressado e sincero. Como sabe, fui muito novo para a Europa, desconhecendo detalhes, mesmo os mais íntimos, de família. Sabia que meu pae tinha um irmão mais novo, Gabriel, com quem nunca o vi, c de quem raramente ouvi fallar. O que era, e onde morava esse i 'mão de meu pae, pouco me importava a mim, que tinha sempre outras cousas tm que pensar. Diz;am-n'o um homem ingrato, frivolo e desaífciçoado aos seus; prohibiam-me em pequeno que repetisse o seu nome, quando acaso o ouvia, e foi talvez cfahi que nasceu a minha ir.differença. Voltando, porém, da Europa, depois de dez annos, encontro em casa uma filha d'esse homem. Indaguei da maneira por que ahi fora admittida; como e porque se fizeram as pazes; e responderam-mc: « O doutor Morton foi quem se metteu nisso; eUe, melhor do que ninguém, poderá c\pl;cor

tudo.» Ora ahi está porque vim bater á sua porta, meu caro amigo! — E seu pae? — Meu pae?! — Sim, porque não se dirigiu de preferencia a elle? — Temi recordar-lhe scenas dolorosas... Respondeu Octavio, embaraçado. — Fez bem. E... emfim, eu, como mero espectador, sou mais imparcial. E o doutor Morton, enchendo de novo o copo, principiou, com o seu accentuado sotaque inglez, uma historia longa, cortada de vez. em quando por pequenas observações de Octavio. Uma tarde, havia muitos annos, recebera a visita de Gabriel Medeiros, que o ia procurar para mestre de sua única filha, Eva, e de um afilhado, o Paulo. Morton acceitára o encargo, e dois dias depois seguia num troly até o Mangueiral, nome da fazenda... — Sei, interrompia Octavio, já lá estive \ — Ah! já? E depois de meia dúzia de phrases relativas ao sitio, continuava o velho o fio da narrativa: Chegando ao Mangueiral, fora apresentado á dona da casa, uma fluminense muito distincta e amável, cheia de attenções e delicadeza. Eva viera-lhe offerecer o rostinho córado, enlaçando-o nos seus bracinhos redondos; Paulo, magrito e pallido. prestara grande attenção ás suas palavras, e assim correra.amavelmente a primeira lição. Desde esse dia não

deixara de ir ao Mangueiral três vezes por semana, tornando-se a pouco e pouco coíno uma pessoa da família. Gabriel Medeiros era um homem emprehendedor e arrojado; a mulher, uma santa; Eva, dócil, e se não tinha lá um grande talento, era estudiosa e activa;Paulo... — Já o conheço... tornava Octavio... — Um excellente rapaz! a Afirmava q extrangeiro, fazendo uma pausa para beber uns goles de cerveja; depfòis, sempre no mesmo tom, continuava dizendo que, ao cabo de dous annos de lição, elle, Morton, cahira gravemente doente com uma.febre perniciosa. Os médicos aconselharam-lhe mudança de ares, e o bom Gabriel Medeiros lá o levou para o Mangueiral. Passara ahi um mez delicioso, vendo-se cercado de carinhos, como se de facto pertencesse á familia! Fora então, que uma vez, emquanto as crianças brincavam no jardim e a dona da casa cosia noutra sala, que Gabriel Medeiros, no seu escriptorio, vendo de longe a íilha, lhe contara á janella, numa adorável despretensãò, a sua vida toda. Jamais recebera prova de amizade e de confiança tão captivante como essa. Octavio redobrou de attenção, fixando sem pestanejar os seus bellos olhos castanhos no rosto pallido e amollecido do velho. — Seu avô, dizia Morton, era um homem ambicioso e. vamos lá... — Ignorante, acudio Octavio.

— E' o termo. Esvasiado o ultimo golle de cerveja, a narração seguiu sem a menor paragem. Era o caso que o avô de Octavio casara as filhas e filhos sem lhes consultar absolutamente a vontade. Aos quinze annos as meninas tinham maridos escolhidos a dedo por elle, Aos rapazes poupava elle também o trabalho da escolha; calculava fortunas, combinava a historia, e zás! era só dizer ao filho: «Fulana convem-te; já fallei ao pae e está tudo decidido.» Gabriel Medeiros era o ultimo filho, e, emquanto crescia a herdeira do homem mais rico do município, mandou-o estudar a São Paulo. A pequena foi-se desenvolvendo, e, como não era feia... ou para melhor dizer: como tinha fortuna, choviam-lhe os pretendentes; mas o negocio, estava já tratado entre os pães, e, embora não soubessem d'isso nem o Gabriel nem a tal moça, o caso é que eram noivos! Vendo a futura nora de vestidos compridos, o velho Medeiros escreveu ao filho, ordenando-lhe que deixasse os estudos c viesse; mas Gabriel tinha tomado gosto pela historia e concluiu os exames do 2° anno. Rogou ao pae que o deixasse; fallou-lhe de futuras glorias c de elogios dos lentes. A nenhum pae deixa de sorrir a idéa de ter um filho doutor! Foi concedida a licença, depois de pedida a transferencia para a rcalisação do casamento á família da noiva, que a deu J.c má vontade.

A FAMÍLIA MEDEJHOS Por esse tempo o commendador Medeiros, pae de Octavio, já era casado e responsável por uma casa importante, e, tendo soffrido um grande abalo com geadas consecutivas, recorreu ao futuro sogro do irmão, que lhe abriu prompta e gentilmente a carteira... com os largos juros do estylo'!.. Correram muitos mezes, os pretendentes, desanimados, foram abandonando o campo, e o pae da moça instava para que se realizasse em breve prazo o casamento Contractado. O.velho Medeiros chamou seu filho Gabriel á fazenda e declarou-lhe que resolvera casal-o nesse mesmo mez, deixando-o depois em liberdade para continuar os estudos. Gabriel, attonito, disse serenamente que já tinha feito a sua escolha c promettido o seu coração. O pae, desapontado, quiz convencel-o de que se devia casar com a tal moça, e falloulhe no seu compromisso de ha tanto tempo. Em vão, todas as supplicas; Gabriel negou sempre, e o casamento desmanchou-se, com grande despeito do pae da noiva. O estudante voltou para S. Paulo cem o apoio da mãe, que lhe mandava a mezada, dizendo ser ás oceultas do marido. Esse, mezes depois, morria de um aneurisma. Attribuiram a doença e a morte ao desgosto soffrido com a recusa de Gabriel; puro engano: o velho soffria ha annos. Desesperado com tão tremendo golpe, o apertado pelo credor que o ameaçou

de penhorar-lhe os bens, o commendador Medeiros ficou allucinado contra o irmão e jurou vingar a morte do pae e a sua deshonra; seguiu para S. Paulo, onde descobriu com facilidade quem era a escolhida do coração de Gabriel. Era a filha única de um jornalista pobre, chegado do Rio três annos antes. E... Neste ponto o velho Morton parou, fez-se corado e limpava o suor que o inundava, passando repetidamente o lenço pela testa. — E?.. perguntou Octavio, quasi estrangulado de afflicção. — E o jornalista recebeu uma carta, dizendo que se não quizesse receber um tiro na noite immediata, partisse nesse mesmo dia com a filha para o Rio ou para mais longe ainda. O jornalista levantou os hombros, 'e, com a consciência tranquilla, deixou-se ficar. Na noite seguinte, ao voltar da redacção, dobrando uma esquinav recebeu um tiro, que o matou instantaneamente. Octavio estremeceu, e, pallido vacillou na cadeira. O doutor continuou: —- Attribuiram o crime á política; em S. Paulo eram essas cousas communs naquelle tempo. Gabriel, vendo a orphã sem amparo, casou-se com ella. Pouco tempo depois, pondo em ordem os papeis do sogro, deu com a maldicta carta em que reconheceu a lettra do irmão. Despejou lagrimas como uma criança, mas, sacudindo a grande prostração em que

mergulhara, procurou o irmão. O commendador confessou ser d'elle a carta, mas não ser cFelle o crime. Uma circumstancia fatal guiara o assassino nessa mesma noite, ou alguém o espiara e, para o perder, realizara o que não queria que passasse de uma ameaça. Gabriel, convencido da innocencia do irmão, voltou mais tranquillo e estendeu confiadamente á filha do morto a sua mão leal. Quem assassinou o jornalista? Ninguém soube nunca! Gabriel Medeiros retirou-se com a mulher para o Rio, voltando para São Paulo, quando por morte da mãe lhe coube em partilha o Mangueiral. Nessa occasião, por questões de terras, os irmãos moveram uma demanda contra elle; Gabriel venceu-os. Desde esse tempo não se tornaram a fallar nem a vèr. As irmans casadas seguiram diíferentes rumos; uma para o Ribeirão Preto, a D. Clara, outra para o Paraná, a D. Euphrosina; dois irmãos morreram e o único que lhe restava, o commendador, evitava-o. Desgostoso com todas essas occurrencias de família,entregou-se de corpo e almaá lavoura; começou libertando os escravos; contratou colonos, installou novo systcma, diminuiu em metade a fortuna, luctou, mas a pouco e pouco foi equilibrando os bens. Homem de coração, adorava a famlia e tinha um verdadeiro culto pelo lar. Foi mesmo elle quem riscou o jardim, gradeou as paredes para que a hera subisse 'á

UO vontade, c foi elle quem enfeitou o interior da casa e elle mesmo quem fez, nas suas horas vagas, os elegantes viveiros que lá estão no parque, caprichosos e sólidos. E o d uitor Morton, depois de descrever a morte da mãe de Eva, quando a pequena tinha dez annos, e de fallar do amor de Gabriel, então todo voltado para a filha, narrou a impressão que sentira, num dia de muita chuva, em que o mandaram chamar á pressa do Mangueiral. Gabriel Medeiros fora atacado de uma congestão pulmonar; encontrou-o na cama, rodeado de remédios, com o rosto emma^recido, os cabellos brancos empastados de suor,e um forte cheiro de febre e de sangue exhalando-se da sua larga bocea arroxada, d^nde não sahiam nunca senão palavras de doçura e de perdão. Morton quiz animal-o, esforçando-sé por tornar a voz firme; o enfermo sorriu com tristeza, e,estendendo-lhe a mão ardente e secca, disse: - Escute: eu não quero deixar a minha Eva só nesta casa com Paulo, que não lhe é nada; cila não tem noivo nem amigas... lembrei-me de meu irmão; é a única pessoa da família que me resta; quero reconciliarme. elle tem filhas; ha de ser misericordioso para a minha! — Fui immediatamentc procurar o commendador, coneuia Morton, que ás minhas palavras, honra lhe seja feita, apressou-se em

acompanhar-me. Seguimos para o Mangueiral a galope; quando chegámos, Eva soluçava. Gabriel Medeiros tinha morrido! Octavio, immobilisado, com toda a vida concentrada no olhar, ouvia a voz lenta d'aquelle homem terrível, que lhe despedaçava dolorosamente o coração. Mnrton seguia depois o curso da historia, dizendo que, lido o testamento, entre o corpo insensível e livido do morto e o busto arquejante da orphã, o commendador Medeiros quizera tomar posse dos papeis do irmão, ao que Eva se oppòz energicamente. No seu desespero, a infeliz menina queria conservar tudo como o pae tinha deixado. O tio, porém, interpretara mal esse movimento; suppòz querer a sobrinha guardar comsigo, para futura vingança, a carta ameaçadora, escripta por elle ao jornalista assassinado. DVsse crime não havia outra prova; comprehende-se o desejo do commendador em a fazer desapparecer. Quem lhe diria que, em qualquer oceasião, se não visse aceusado d'essa culpa? Se para Gabriel, seu irmão, haviam bastado as suas affirmaçÕes de innocencia, seriam ellas su ficientes perante a sociedade e a justiça? Não! Perante a sociedade e a justiça, o assassino do jornalista seria forçosamente o auetor da ameaça, o commendador Medeiros; quanto ao outro, ao assassino incógnito, esse não poderia ser tido senão como um phantasma, feito por um cobarde c ridiculissimo disfarce.

Octavio levantou-se, indignado contra aquelle velho extrangeiro, de olhar azul como o céu e cabello branco come a nuvem casta; teve ímpetos de o estrangular e de lhe dizer perto do rosto enrugado: mentes, mentes, mentes! mas o extrangeiro continuou no seu sotaque difficultoso, com palavras claras: — Tudo que lhe tenho dito é duro e doloroso de se dizer a um filho; sou um homem rude, conheço; mas ha certos casos em que, mesmo á força de um grande sacrifício, devemos dizer toda a verdade. Octavio, emocionado fortemente, não respondeu; tinha os olhos cravados no chão, os pensamentos a chocarem-se-lhe desordenadamente no. cérebro. Quem teria assassinado o avô de Eva? Quem teria trahido o segredo do pae? E como poderia elle descobrir o culpado, depois de tantos annos? Que épocha iria elle investigar, que recordações e mysterios revolver? Como prender o fio já quebrado d^ssa miserável trama? A vida é tão pequena e se as gerações se suecedem como as ondas, como fazer voltar as já passadas? Porque se conservara o pae inerte? Porque não luetou até apresentar aos olhos do irmão, seu único juiz, o verdadeiro criminoso? A sua dignidade, a sua honra, exigiam todos os sacrifícios para isso!

Acabrunhado, luctando para não ver no pae um assassino, Octavio escondeu o rosto entre as mãos. Deante d'elle, de pé, o doutor Morto* dizia: — Desculpe, se o maguei.. mas assim era preciso!

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