Capítulo XXIX A Família Medeiros · Capítulo 29 de 42
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Capítulo XXIX

XXIX — Posso entrar? perguntou o Trigueirinhos com a voz transtornada,batendo na porta do quarto de Octavio, onde havia ainda luz. — Pois não! respondeu o moço, attonito, indo ao encontro do cunhado. Eramais de uma hora da madrugada; pela janella aberta entrava o ar humido da noite, uma noite pesada,sem estreitas. Sobrea mesa, ao lado da vela e do tinteiro aberto,estava uma cartaacabadade subscriptarao doutorMorton. Trigueiriiíbos, muito amarello, entrou carribaleante, deixando-se cahir numa cadeira. — Que tem?! perguntou-lhe Octavio assustado. Trigueirinhos tentou responder, mas a palavra sumiu-se-lhe nos lábios, num som mal articulado e incomprehensivel. —Sente-se doente? tornou Octavio, curvando-se com interesse para elle. — Que não, respondeu-lhe o outro, com um gesto e um sorriso quasi doloroso. Decorreram alguns minutos no maior silencio. A luz da vela tremulava; uma ave nocturna passou rente á janella; o Trigueirinhos, extremecendo, chegou-se mais para o cunhado e disse num arrastar de lingua que tornava a palavra confusa: — Vou contar-lhe tudo., mas peço-lhe segredo. Vim bater á sua porta porque estou com medo...

— Medo? medo de que?! Trigueirinhos relanceou os olhos pelo quarto e, passando pelos cabellos a rnão, morena, pequena e secca, murmurou: — Escute.. Suspendeu de novo a palavra, como se alguém lhe estivesse a apertar o pescoço. Octavio procurou acalmal-o, assegurando-lhe que alli podia estar tranquillo. O cunhado reflectiu, e continuou depois num tom apenas perceptível: — Muitos fazendeiros aqui do município estavam indignados com o juiz, por causa dos escravos que elle protegia e açoitava. — Já ouvi isso... — Pois é!.. e, como elle não quiz nunca acceder nem a rogos nem a ameaças, deliberaram... Aqui o Trigueirinhos enguliu em secco e baixou a cabeça num movimento sombrio, de louco. — Deliberaram o que? indagou Octavio, curiosamente. — Matal-o! respondeu Trigueirinhos com a voz estrangulada e os cabellos hirtos. Octavio endireitou o busto,deixando cahir pesadamente a mão sobre ohombro do cunhado e dizendo-lhe num tom áspero e vibrante: — Mas você não entrou na combinação?! Diga-me! — Entrei... murmurou o outro quasi de joelhos.

í 294 A FAMÍLIA M7.DEIROS Octavio, num pasmo terrível, ficou silencioso; entretanto,Trigueirinhos ia murmurando na grande humildade de quem se confessa: — Ficámos de nos ajuntar todos hoje, e de irmos á casa do juiz tirar os escravos que elle tem lá e... mais eu não tive coragem. Cheguei lá em baixo ás onze horas, vi já muita gente reunida no pasto do Simões Rodrigues, onde combináramos deixar os animaes.. então, não sei o que foi que eu senti... mais puxei das rédeas c voltei depressa para casa... Todo o caminho parecia-me sentir vir atraz de mim aquella gente toda, a arrastar o juiz... Entrei pelo corredor como um bêbado, vi luz no seu quarto e bati. Trigueirinhos, muito amarello e nervoso, dava já livre curso ás suas palavras,que se precipitavam, compromettendo-o, revelando os nomes dos outros numa catadupa impetuosa. Querendo retroceder, elle avançava sempre, gesticulando como um naufrago a luetar com a onda. Accentuára-se a sua côr terrosa; as suas mãos magras e finas crispavam-se, salientando nuns cordões escuros o ramo das veias, e as sobrancelhas apertavam-se ou subiam e desciam, enrugando-lhe a testa acanhada. Parecia um doudo no momento de crise. De vez em quando parava, julgando ouvir um tiro, e punha-se na attitude de quem escuta. Octavio, á vista d^iquellá excitação, já lhe

não dava credito, julgando-o doente, e aconselhou-o a que repousasse. Para não assustar Nicota disse-lhe que ficasse ali mesmo, na sua cama, e ajudou-o a despir-se. Trigueirinhos cahira numa docilidade de criança e deixava-se mover sem repellir nem auxiliar. Tirando-lhe o casaco, Octavio viu-lhe na cinta um revólver e uma faca de matto ainda nova, além da outra do costume, na cava do collete. — Que é isso!? você estava realmente preparado para o ataque!... E, de repente, lembrando-se do que ouvira na loja de ferragens, percebeu que não tinha deante dos olhos um doudo perseguido por uma visão, mas sim um culpado atormentado pelo remorso; e então, sem dó, indignado e tremulo de raiva, atirou sobre o cunhado uma tempestade de censuras. Trigueirinhos esbugalhava os olhos e no seu terror não encontrava replica. — Precisamos avisar o homem e salval-o! disse Octavio. — Como?! articulou o outro com um raio de esperança a luzir-lhe no olhar. — Como. não sei, hei de pensar nisso em caminho! O cavallo em que viera o 'Trigueirinhos estava ainda sellado, com as rédeas presas a um argolão da porta. Octavio desamarrou os nós que a mão nervosa de Trigueirinhos fizera, e montando o animal partiu a galope.

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