Capítulo XXXIII
XXXIII Octavio desceu a vêr a ama. A tia Joaquina, fazedeira de sabòo, estava sentada na soleira da porta da senzala, com os magros cotovellos fincados nas pernas, e o rosto escondido nus mãos. Sentindo passos, levantou os olhos, avermelhados e humidos. — Que é isso, Joaquina, você estava chorando?, — Nhô sim. respondeu com um suspiro a velha. — A mama está peior, já sei. — AhVnhô moço! Tia Joanna vai indo mal e má. )-eu tou chorando porque o Jacyntho foi também com os outro tudo na rodada, i agora cumo hade sê, quando tia Joanna preguntá^por zere? — Tudo se hade arranjar, descanse. E Octavio, commovido com a bondade da pobre Joaquina, entrou na senzala da ama. Ao fundo de um quarto amplo e escuro, reçumandohumidade das paredes e do chão, estava a pobre mama deitada em uma esteira sobre as taboas do catrc, entre trapos velhos de baeta e algodão grosso. Espalhava-se um cheiro de sujidade e de mofo. As moscas zumbiam, voejandq sobre a moribunda, que já não as sentia. Á carapinha branca aureolava-lhc a estreita fronte enrugada; a côr preta do seu rosto tornára-se numa côr de castanha amarellada; os lábios murchos, met-
tiam-se-lhe para dentro da bocca, salientando o queixo muito agudo; o nariz afilado tomara a fôrma correcta do nariz dos brancos, e tinha uma transparência de cera; os olhos, abertos e parados, iam-se cobrindo pouco a pouco por uma nevoa esbranquiçada que lhes empanava o brilho. — Vigie só! Tia Joanna ficou tão pequena, que inté chega dentro de uma xicáca(i) pequena! Tá mêmo quinem qui fosse criança! E a Joaquina chorava, arredando de sobre o corpo da companheira uns restos de cobertor cinzento. Realmente, o corpo da paralytica fôra-se mirrando a tal ponto que o seu volume estava consideravelmente reduzido! Os braços pendiam finíssimos sobre a esteira, as mãos semelhavam aranhas encarquilhadas e seccas. Pela abertura do casaco de chita viam-selheos seios engelhados,molles, pendentes como dous saquinhos vazios, esses mesmos dous peitos que ella puzera outriora tantas vezes, férteis e tumidos, na sequiosa bocca do pequeno Octavio! — Mama. murmurou elle, curvandose para afagal-a. Mama! sou eu, Octavio, quem está aqui. E pegou-lhe na mão carinhosamente. (1) Cesta quadrada
A velha não se pôde mover, mas desfranziu os lábios contrahidos; ouvira a voz do filho. Elle repetia: — Mama... mama! E a névoa dos olhos d'elta ia passando, ia-se dissolvendo como uma nuvem aos raios do sol; não podia faltar, mas o olhar apparecia agora claro, expressivo, doce, feliz; um olhar agradecido, um olhar saudoso e meigo, que o inundava de ternura e de amor. — Mama. pobre mama!... repetia Octavio, commovido e tremulo. E o olhar d'ella respondia-lhe: obrigada pela tua piedade! eu esperava por ti para morrer! Foi como se a sua alma, a sua vida, lhe tivesse sahido pelos olhos. Joanna expirou. O filho branco,quetantoorgulholhetinha dado sempre, adoçou-lhe o passamento. A falta do Jacintho, seu próprio filho, nascido das suas entranhas, foi bem compensada. Nem um relance de vista, á procura cTelle! esqueceu-o como se lhe tivesse adivinhado o abandono! Octavio era o seu deus, Octavio era o seu amor! Desde pequeno fora Jacintho o preterido; o filho preto que rolasse nú, esfomeadoe sujo, comtanto que o filho branco gosasse a fartura do bom leite, a maciez da cambraia e o aroma da limpeza! Entre as escravas era isso freqüente. Iam da roça callejadas da enxada, para a alcova da parturiente, recebendo nas mãos ma-
A /AMILIA MEDEIROS guadas pelo castigo e pelo trabalho o mimoso corpinho assetinado e roseo da criança que haviam de amamentar! Desde então a sua attenção, o seu desvello, o seu carinho convergiam para o menino branco; o preto que morresse., era um desgraçado de menos. E assim acontecia a maior parte das vezes I Por mais extraordinário e inverosimil que o caso pareça, o certo é que era assim. A doçura doamormaterno,amor tantomaischeio dé sacrifícios quanto riais intenso, não lhes vibrava na alma o sentimento, ou era abafado pelafyoz do orgulho! E1 de crer, porém, que o principal motivo d^-ssa anomalia fosse a miséria da sua condição! Era até bom*que os filhos morressem cm pequeninos, desconhecendo os amargores a que estavam destinados! A pobre Joanna fora dessas. Tivera muitos filhos, criara varias crianças brancas; de tempos a tempos ia emprestada pelo senhor para uma ou outra familia, como se fosse uma cousa ou um animal inferior; não se revoltava... se nascera captiva! e dava o seu sangue aos filhos alheios, emquanto os seus morriam á fome! Octavio fora o ultimo e era entre todos o único que até aos dez annos a beijava, pendurando-sc ao seu pescoço. Os mais olhavamna de cima, com a sobranceria do branco, e só muito raramente a procuravam. Além de tudo, comq se conservara em casa, o Jacintho não
teve o destino dos irmãos; uma ou outra parceira lá o fazia tomar de vez em quando um caldo ou lhe mudava a camisola, pondo-o consoladamente no enxuto. Como ia longe esse tempo! Ahi estava agora mirrada, fria, mumificada entre pannos rasgados, sobre uma esteira humida, a gorda mama de out'rora, a activa e enérgica Joanna! A Joaquina accendeu um cirio guardado por prevenção para esse momento, c collocou-oaos pés do cadáver. A chamma da vella, que nenhuma briza agitava, destacava-se amarella c fixa do fundo escuro da parede, pondo uma estreita réstea pallida no esfarrapado cobertor cinzento. — Eu não maginava que tia Joanna haverá de morre hoje I dizia chorosa a companheira da morta, cruzando-lhe com dificuldade as mãos no peito, — a povre ' Pelo quarto escuro e humido espalhavase triste o cheiro frio da morte... Octavio, com os olhos rasos de lagrimas, olhava silencioso para a pobre mama, enxotando-lhe as moscas.