Capítulo XXXVI A Família Medeiros · Capítulo 36 de 42
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Capítulo XXXVI

XXXVI —Bem boa cerveja! quer outro copo?dizia no estreito botequim do club, um velhote gordo e calvo, a Octavio Medeiros. — Não, obrigado. —Oh! o senhor não parece educado na Allemanha! — Joãosinho! continuava elle dirigindose a um amigo, homem magro, pallido, de longas barbas pretas e olhos vivíssimos, que distribuía amavelmente refrescos a um e a outro; eu acceito mai>... —Barão! olhe que é a décima vez que me diz isso! —Mas como não é a quinta que você me serve... vá botando; e o barão riu-se, piscando os olhos. Exgottado o copo, o velhote sahiu, convidando Octavio a ir fumar com elle na sala dos homens. —Ao mesmo tempo a gente vae proseando... eu dou o cavaco por uma boa prosa. No salão do baile dançavam nesse momento uma valsa, e como o dos fumantes era contíguo e o pavilhão da musica commum de ambos, nem o barão nem Octavio se comprehendiam bem. Os sons dos instrumentos abafavam-lhes os vozes. Comtudo, o barão ia faltando sempre e Octavio olhava para elle muito attento, mas com o pensamento completamente alheio ao que se passava; de vez em quando sor-

A FAMÍLIA MFDEIROS ria, movia a cabeça afirmativamente, quando lhe parecia ouvir uma pergunta, atirando uma palavra ao acaso,um sim...é verdade... talvez... tem razão! Com esforço apanhava de longe em longe o fio da narração, mas, máu grado seu, o espirito fugia-lhe depressa para outro logar. Era Eva que o preoccupava assim. Eva, que elle revia de joelhos, com os cotovellos nús pousados no marroquim do genuflexorio, toda de claro, numa singeleza ideal! Achara-a altiva, de uma frieza singular. Queria tel-a visto perturbada, tremula, nervosa, e ter percebido no seu olhar de veíludo a longa caricia do amor, que por mais concentrado e silencioso, brilha nos olhos num momento de alegria ou de angustia, aquecendo, illuminando, florindo, pondo risos e cânticos em tudo! Mas não! Eva era sempre a mesma, impassível! Tinha para elle a doce expressão de uma sympathia sem extremos, a manifestação da amisade a mais simples, a mais suave, a mais natural. Esse mesmo sentimento o impacientava; parecia-lhe filho da commiseração; era a seus olhos como que um laivo da piedade feminina, reflexo vago, subtil, da compaixão inspirada pelas suas dores! No entanto, o barão ia dizendo: —Pois era assim, meu caro senhor, Campinas, ha vinte annos! A' noite não se via uma janella com luz; as ruas eram tenebrosas, esburacadas e cheias de perigos. Quando havia espectaculo, era necessário levar de casa

para o seu camarote, cadeiras, tantas quantas fossem as pessoas; uma moringa d'agua, e copo, o indefectível cúscús, que se comia no intervallo, no corredor, e a lanterna para a volta! Ei eu achava então muito mais graça em tudo, do que acho hoje! O que é a mocidade! Faça idéa: para conduzir tanta cousa era forçoso irem mucamas e pagens, que ficavam de pé, ao fundo do camarote... o cheiro que se exhalava dtaquella gente não era positivamente de rosas... No palco, á luz fumosa do kerosene, desusavam choramingadamentc dramas como:— 0 cego e o corcunda, As mulheres de Mármore, etc. Mas não sei! homens e senhoras choravam, tanto na platéa como nos camarotes ou galerias. Hoje já não se vê tanto d'isso; estamos com o sentimento embotado e, por mais commovcnte que seja a peça, a maioria dos espectadores tem os olhos enxutos! E1 o que eu digo e sustento! o progresso vai-nos arruinando o coração! E o carnaval, então? Ah! pelo carnaval é que eu gosava á grande! Que quer? achava bonita e pittoresca aquella farçada toda. Constituiamonos, nós, os mascarados, num bando; levava cada um uma cesta de flores e plumas, mas cousa rica, bem acabada, que nos custava rios de dinheiro, e íamos de janella em janella faltando ás moças e trocando com ellas as rosas de panno, finas, que levávamos, por outras que ellas nos davam, e que, valha a verdade, eram sempre inferiores!

E o entrudo?! Oh! isso é que era bom! Punham-se tinas na rua, seu Octavio! tinas cheias de agüa fria! Ás senhoras vinham para a esquina, agarravam quem bem lhes aprouvesse e... fogo! fogo não, água! era mergulho certo, quizessem ou não quizessem. Tiroteio de laranginhas de cera, nem se falia! basta dizer que havia ahi famílias cujo emprego durante todo o anno era esse: fazer limões de cheiro! Dava-mos assaltos ás casas,de manhã, durante o dia, á noite, a qualquer hora!... Pintávamos! E aquillo é que era riso. e aquillo é que era mocidade! Acabada a brincadeira do entrudo começava a da Semana Santa. Outra folia. Morria a gente de calor nos apertos da egreja, mas não faltava á festa. Havia luxo: os vestidos eram de bôa seda, as mantilhas de optima renda, e viam-se alli brilhantes, que falseavam! Naquelle tempo as mulheres, quer fosse Semana Santa ou não, só iam de preto á egreja; a primeira familia que appareceu vestida de côr para assistir á missa foi censurada por toda a gente; mas, afinal, todas as pessoas que a criticavam foram-na imitando, e hoje ha nas egrejas, seja qual fôr a cerimonia, uma miscelanea de cores que tiram toda a solemnidade ao templo! Acredite! Fazem-me saudades d'csse tempo as raras baratas que encontro hoje nas manhãs de domingo pela cidade! Sãç». poucas as senhoras que se re-

catam agora em baixo do pu.çá ( i ) ou por detraz das rótulas! Se ha vinte annos uma familia sahia sem o acompanhamento da mucama predilecta, ou se as moças appareciam á gente que passava assim como hoje, numa janella, francamente! Qual! Espiavam pelos buraquinhos das rótulas, que se entreabriam numa pequeníssima fresta. E um homem qualquer casava sem medo, porque tinha a certeza de encontrar na esposa mulher modesta e trabalhadora. E' ou não é assim? Octavio teve um sorriso vago, moveu a cabeça numa affirmação indecisa. Estava num dos períodos de abstracção; o outro interpretou de modo differente aquelle gesto e replicou: — Ainda o senhor hesita! pois ha lá ponto de comparação entre a moça de hoje, que sabe francez, allemão, inglez, que toca em concertos e mostra toilettes, com as do outro tempo, que viviam cosidas ás saias da mãe e não se atreviam a fallar com extranhos, mormente se eram homens! Hoje, sim! botam as manguinhas de fora, têm o seu club, e tagarellam, e riem alto, e apostam nas corridas^ depois da quadrilha passeiam meta' hora conversando com o par. Esta geração offerecerá as garantias da outra? ^1) Piirri. ivnila de nó ijiu' yuarnoco aparte superior das antigas nwntiltwtt do panno e que desce ató o barra do vestido, cobrindo completamente o rosto.

E como Octavio não respondesse, continuou elle com mais vehemencia: — Não offerece! E1 uma geração estragada e macaca. Talvez me julgue, pelo que está ouvindo, inimigo do progresso. Não sou tal. Do que eu sou inimigo é da imitação. Campinas hoie não tem caracter próprio. A estrada de ferro trouxe-lhe extra ligeiros, oíficinas, gaz: espalhou a industria e enriqueceu o commercio; de acordo. Mas também veiu tirar-nos muitas das nossas illusões e, portanto, da nossa felicidade. Tornámo-nos exigentes e insaciáveis. As companhias dramáticas provincianas, que outriora nos arrancavam lagrimas de enthusiasmo e commoção, hoje nem se atrevem a pisar o nosso palco; que diabo viriam cá fazer, depois de Rossi, Tessero, Pezana, Gemma, Brazão, Rosas e outros que taes? E se viessem seriam pateadas, ou o publico não iria vêl-as, levantando com desprezo os hombros. E ora como os grandes artistas só apparecem de longe em longe, estamos por grandes intervallos sem divertimento nem gosodeespirito. Fazemos hoje o que todas as cidades civilisadas faze*n. Nos bailes já se não dança o alegre caraHgueijo: são valsas, quadrilhas e polkas, s §; é rara a fazenda que tem o alegre e pittoresco mumbava (i) que tanto nos fazia Mttmbara, sujeito que vive pelas fazendas o tem ordenado só para oonversir e fazer rir o fazendeiro.

rir antigamente. O nosso theatro é como todos, a mesma ordem, a mesma monotonia, o mesmo botequim, as mesmas golozeimas e bebidas; tudo o que era original, extravagante e absurdo, morreu, ou fugiu com espanto aos silvos do trem de ferro! Presentemente nem o medo de bexigas é como era! Não se teme a transfiguração ou a morte, tão disvirtuado está isto! Pois ha vinte annos, tempo de epidemia era tempo de fuga e de abandono! A porta das casas fluetuavam bandeirinhas brancas, se dentro o bexiguento era atacado de simples cataporas; negras—se era de pelle de lixa. Decididamente as coisas eram bem outras! O que eu, sobretudo, confesso, lamento mais, são as illusões! oh! naquella epocha nós tinhamos a doce persuasão de ter dinheiro. Julgavamo-nos ricos! —Sr. barão! disse,chegando-separa perto, uma menina de treze annos, clara e loura, que vinha puchando pelo braço de um rapazinho, quasi da sua cdade; mande Joãosinho dançar com Viça! porque ella não tem par, e eu não tenho vis-à-vis. O barão sorriu, convenceu o Joãosinho, seu neto. de que devia dançar, e, voltando-se depois para Octavio, continuou apontando o gracioso par que se afastava:—E1 iáto! sabe que mais, Sr. Medeiros? Eu vou-me embora! E afastou-se. —São assim todos os velhos; para elles não ha tempo melhor do que o que passou ha

muitos annos! disse zombeteiramente um rapaz que fumava encostado a um humbral e ouvira parte do discurso do titular. Octavio, poucos minutos depois, entrava no salão. Noemia dançava com Júlio Siqueira, risonha e córada, com os seus anneis louros coroando-lhe a fronte estreita, e o vestido todo azuldesenhando-lhe o corpo delicado. O Azevedo estava ao lado da. noiva; ella serena, elle muito pallido. Sentindo uma pancada de leque num hombro, Octavio voltou-se. Era a D. Clarinha. O seu collo emergia airoso e branco do velludo granada do corpinho! —Que inveja! hein? disse-lhe ella mostrando o Azevedo; quando assistirei ao seu casamento? Elle respondeu qualquer banalidade e foram ambos valsar.

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