Capítulo XXXVIII A Família Medeiros · Capítulo 38 de 42
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Capítulo XXXVIII

XXXVIII A viração fria de maio enrugava a superfície do grande lago do Mangueiral, desfolhando as innumeras camélias do parque contíguo á habitação. O bellissimo sol de inverno, dourado e morno, tingia de cores prismáticas a areia luzidia das ruas e as rélvas dos canteiros. Voavam borboletas, e o aroma do resedá penetrava docemente em tudo. Juncto á janella da saleta de musica, numa cadeira de espaldar alto e esguio, Eva entretinha-se fazendo uns casaquinhos de tricot para as crianças da colônia. Sobre a lan cinzenta do seu vestido de xadrezinho caiam-lhe baralhadamente os novellos encarnados, pretos e brancos, emquanto as suas mãos ágeis e pallidas moviam com rapidez as longas agulhas de marfim. Estava só na sala quando Paulo entrou; ella não levantou a cabeça; com o queixo unido á golla alta do vestido, guarnecido por um estreito friso branco, continuou attenta no seu trabalho de caridade; elle é que, encostando-se ao peitoril da janella, disse com a voz ligeiramente tremula: — Acabei de lêr uma carta de seu primo; está radiante! o pae reconhece, finalmente, que foi injusto comsigo e está disposto a abraçal-a! Para a grande felicidade d'essa reconciliação é justo que se faça algum sacrifício, desde que circumstancias como as ac-

A FAMÍLIA MKDEIKOS tuaes o exijam! Ora, a minha boa Eva não se negará por certo a ceder a ess.i necessidade! visto ser a mais neva e ter o espirito superior ás mesquinharias vulgares... — Não o entendo bem; o tio Medeiros manifestou desejos de vêr-me? — Sim... está arrependido do que lhe fez, e é natural que, para repouso de consciência, o homem queira saber-se perdoado... — Qual é então o sacrifício que me pedem? — Ir lá. — A Santa Genoveva? — Sim; e que ha de extraordinário nisso? — Tudo! Eu não tornarei a entrar naquella casa! — Isso é um capricho que pôde comprometter a sua felicidade! Trate melhor o seu coração! E1 tempo de pensar no futuro. — Está hoje enigmático! — Diz isso com sinceridade? — Certamente. Bem sabe que não dei nunca para decifrar charadas. — Deixe-se de ironias e escute-me: Octavio Medeiros ama-a; não lhe digo uma novidade; da sua própria bocca ouvi isto mesmo, na noite em que sahiu da casa de seu tio; não foi assim? — Foi... — Bem; nessa oceasião elle solicitou cavalheirosamente a sua mão, c Eva, para satisfazer o seu amor próprio, unicamente

por isso, respondeu-lhe que não! Hoje, porém, o caso é outro; o obstáculo que se antepunha á realisação d'esse enlace, cahiu; não ha já motivo para occultar sentimentos nem assumir attitudes de mal entendido orgulho. A verdade apparece em toda a sua pureza; não lhe ficará mal, portanto, mostrar ao pobre Octavio, que tantissimas provas de amor lhe tem dado, quantas o seu coração lhe reserva também! Vamos, minha boa Eva! não hesite em confessar-se; os momentos de ser feliz são tão raros na vida! Estas ultimas palavras foram pronunciadas com mal disfarçada tristeza e amargura. Houve depois um momento de pausa, em que se ouvia unicamente o attricto secco das duas longas agulhas de marfim. — Então? tornou Paulo com insistência, curvando-se um pouco; Octavio pede-me que lhe dê um conselho e uma esperança; uma e outra cousa devem ser dictadas por Eva! — Acha que Octavio me fará feliz? perguntou Eva com a voz quasi sumida, como se alguma dôr a estrangulasse. — Acho: é um rapaz muito digno, intelligente, bondoso, e, sobretudo, muito apaixonado. Não será fácil encontrar outro nas mesmas condições! Os nossos rapazes visam, hoje em dia, unicamente uma cousa: o dote! Os Azevedosconstituem, porassimdizer, toda a caterva dos pretendentes provincianos!

Uma desgraça! Senão, vejam-se os exemplos: as filhas do Bittencourt, instruídas, bonitas, como são pobres. estão solteiras!..As do Lemos egualmente; e outras! Com meia dúzia de contos estariam todas casadas, por que bem sabe que até por causa dos bons partidos vêm rapazes de fora para cá. — Quer dizer com isso que eu não devo vacillar em dar a minha mão a Octavio? Paulo não respondeu; passou os dedos pelo cabello, c voltando-se para fora respirou com força, como se se quizesse retemperar; depois, retomando o seu tom plácido e usual: — Sim: não deve vacillar, visto que o ama. — Quem lhe disse isso?! —• A sua commoção, Eva; ah! eu estudo-a ha muito. Na noite em que a vi chegar de Santa Genoveva, pallida, transtornada, doente, pude melhor do que nunca observal-a e adquirir a certeza do seu afifecto por elle. Meu Deus! não ha nada mais natural e que menos sorpreza me causasse! Deixe-me ate dizer-lhe que esperava isso mesmo. Eva cessara de trabalhar. As agulhas e a lan cahiram-lhe das mãos: com a cabeça inclinada, os olhos baixos, ella ouvia Paulo, num recolhimento mysterioso e profundo. Elle continuou: — Octavio foi mais francopara commigo; confirmando o que Eva já me tinha dito acerca do pedido de casamento, elle declarou-

34!) me simples e lealmente que a adorava, supplicando-me uma protecção que, não sei porque, julgava que eu lhe pudesse dispensar! Nessas cousas eu fugi sempre de intervir, como bem sabe; comtudo, tratando-se de pessoas a quem tanto preso e por quem me interesso tão vivamente, o caso mudou. Ha muito tempo que eu desejava antecipar esta hora, para obrigal-a a ser feliz! Eva sorriu com ironia; Paulo proseguiu: — O seu orgulho venceu muito, mas não venceu tudo; teve força para sahir da casa de seu tio com altivez e sósinha; pois bem, tenha agora a coragem de enfrentar com a difficuldade do momento e ir offerecer-lhe, para o. beijo reconciliador, a sua fronte; por mais embotado que aquelle homem tenha o sentimento, eu vou jurar que elle ha de chorar e chamal-a minha filha! Vamos! um sacrifício, Eva! rogo-lhe cm nome de Octavio e do seu próprio coração! — Do meu coração?.. balbuciou ella a meia voz. — Sim, do seu coração, que teima em tratar tão mal. — Meu Deus!.. Eva ia continuar, mas conteve-se e baixou inda mais a cabeça, para que não fossem vistas duas lagrimas que iam rolando pesadamente nas suas faces pallidas! Paulo, encostado ao peitoril da janella, olhava para o jardim, onde as pétalas das ca-

3Õ0 melias tombavam como borboletas mortas, tapetando o chão. Sem desfitar os olhos d'aquillo, perguntou: — Que me responde?! — Que hei de eu dizer? que o julgava mais meu amigo. — D'esta vez Eva levantou os olhos, e Paulo, enternecido e sorprezo, viuas lagrimas, a expressão dolorosamente resentida, a dor profunda, indescriptivel, que boiavam nessas pupillas escuras, velludosas, até então impenetráveis, crystallinamente t r a n s p a r e n t e s agora! Elle estremeceu, sentindo a vertigem dos que se debruçam num abysmo; foi Eva que, com a voz mal segura, principiou. — Acostumei-me a obedecer-lhe, e a seguir de olhos fechados todos os seus conselhos. Quer que eu me case com Octavio? Pois faça-se a sua vontade; serei mulher d'elle, visto que a sociedade exige que eu tenha um marido, censurando-me por viver á minha vontade com um irmão... ah! eu já sei o que vae dizer! que eu, de facto, não sou sua irman. Não sou sua irman! se precisam lembrar-me isso os extranhos! Recorda-se, Paulo, do dia em que chegou? Eu estava acolá, embaixo dtaquella mangueira; minha mãe foi lá ter, levando-o pela mão, e disse-me: « Eva! aqui tens um irmão! abraça-o e ama-o! » Abraçamo-nos; e desde então...

Eva parou, mas os seus bellissimos olhos faltaram; faltaram, não—gritaram alto tudo o que lhe estava no coração. Paulo curvou-se, embebido naquelle olhar, esquecido de tudo o mais, silencioso, recebendo na alma aquella rajada benéfica, inesperada e consoladora! E assim estiveram, mudos os lábios, mas a trocar nos olhares um mundo de promessas e de paixão que se revelava enorme, enraizada, sincera, amadurecida pela reflexão e peta convivência, que os tomara a ambos no decorrer do tempo, desde a meninice, sem que elles o percebessem talvez! Transportado de júbilo, Paulo tomou a cabeça de Eva entre as mãos, e beijou-a nas palpebras, repetidas vezes. E, assim, sem pronunciar uma palavra, elles declararam-se apaixonadamente o seu amor.

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