Capítulo XVIII
XVIII Eva cosia no quarto, numas libitas, (i) para um negrinho seu afilhado, quando ouviu bater aporta; era Noemia; vinha muito pallida e com os olhos lacrimosos. —Que é isso? interrogou a prima assustada. —Ah! Eu sou muito infeliz, Eva I Noemia atirou-se de bruços na cama, abafando os soluços nas almofadas. —Que ha de novo? não seja criança! Noemia não respondia; chorava sempre. Eva sentou-se a seu lado, deu-lhe um calmante, fel-a sentar-se, e ageitando-lhe o cabello perguntou-lhe com meiguice? —Agora, diga-me, que lhe aconteceu? —Uma cousa muito triste! respondeu entrecortadamente a pobre menina. —Meu Deus.! que seria! —Pae quer casar-me! —Ah! e com quem? —Eu sei lá! com um bruto., com uxn estupilb qualquer! mas eu não quero c..i*e não quero! —Não ha de ser tanto assim! ora,um bruto: um estúpido! talvez seja um rapã2"'até bem educado. Como se chama? —Júlio Franco. —Não conheço... (!.' Camisolos de pala.
—Nem eu, mas imagino! sabe como e em que termos é feito o pedido? Como hei de eu saber? — Pois é assim,reparebem:Asmulheres escolhem-se como osporcos,pela raça, por isso peço para o meu Júlio a mão de uma de suas filhas! E apezar de chorosa, Noemia não pôde reprimir uma gargalhada; Eva sorria com tristeza. — E agora? —Agora não sei.. aconselhe-me, que hei de fazer? — Oh! filha... porque não é franca para com seu pae? —Pae zanga-se... e eu fico com medo... —Mas olhe, ha certas cousas que a gente diz com muito mais facilidade a uma mãe; conte á sua o que sente e ella hade protegel-a. —Mãe não se atreve a contrariar a vontade de pae. Não tenho ninguém por mim! —Irei eu fallar ao tio Medeiros, apezar de.não ser a pessoa mais competente; mas emfim àalvez que elle me attenda... espere aqui, eu )ú volto! •$..;.,,, —Não, Eva, não vá! disse rapidamente ífeemia, levantando-se e interpondo se entre cila c a porta. —Porque?! — Porque... porque... e Noemia embaraçada baixava os olhos, procurando uma resposta.
—O tio Medeiros disse-lhe alguma cousa a meu respeito? Noemia balbuciou: — Pae é seu amigo. —Então? tornou Eva com um ligeiro sorriso de incredulidade. — Sim... mas bem sabe... elle tem uma maneira de pensar tão differente da sua! é capaz de suppôr que... eu não sei... olhe: — não seria melhor pedir a Octavio que fallasse a elle? — Occulta-me qualquer cousa, eu bem percebo isso... O tio Medeiros fez alguma observação contra mim; ah! excusa negal-o, disse, interrompendo um gesto de Noemia; não me zango, cadaqual tem lá o seu rac
de Eva! indagara raivoso o fazendeiro, qual é?!—E1 que o casamento sem amor é uma immoralidade, uma grande desgraça! Foi então que o commendador se zangou, dizendo que se Eva interviesse nos seus negócios de familia, elle.. — Acabe! supplicou Eva á prima. Mas esta, de novo soffocada em pranto, cahiu-lhe nos braços,tremula,pedindo-lhe que não a abandonasse, que ella se sentia mal, muito mal! Eva soccorreu-a, dcsapertou-lhe os vestidos, deitou-a, cerrou a janella á claridade intensa do dia, e encostada ao leito viu-a passar das convulsões ao somno, nuns suspiros lentos, fatigados. A orphã de Gabriel deliberara arrostar com a cólera do tio, a favor d'essa pobre moça meiga e boa, por cujo futuro tanto se interessava. Provocaria assim uma explicação sincera da parte d'elle. Repugnavam-lhe as indirectas; gostava das situações francas. Comprehendia perfeitamente ser alli demais; aborreciam-n'a e ella tinha resolvido retirar-se quanto antes para a sua querida e silenciosa casado Mangueiral. Lembrava->e com amargura da ultima vontade expressa por seu pae, queria seguil-a e obedecer-lhe em tudo. Elle tinha sido um homem raro, bom, justo, caritativo, affectuoso e incapaz de um acto leviano; sempre reflectido, sempre sereno, sempre cheio de boa-fé
e aureolado de virtudes. Por isso tudo foi que elle a puzera em casa do irmão, cuidando abrigal-a das adversidades e das baixezas de uma sociedade ociosa e sem espirito! Entretanto, era exactamente ahi que Eva encontrava sorrisos contrafeitos, ditos mysteriosos, insinuações malignas, um cortejo de intrigas impalpaveis e cobardes. A.sua dignidade ordenava-lhe que sahisse, mas sentia-se presa alli, pelas palavras do seu grande amigo morto: apegar de toda a amí-ade e confiança. Eva não deve morar m com Paulo, porque elle não é seu irmão ' Para se retirar de Santa Genoveva, deveria, pois, casar-se. O marido seria o seu escudo; ella, intelligente, altiva, honesta, não tinha direito nem podia assumir a responsabilidade dos seus actos! Era necessário que um homem qualquer, embora de menos escrúpulos, ou de espirito inferior ao seu, a tutellasse, lhe desse um nome, talvez menos limpo, menos honrado e menos digno do que o dVlla! Sem o amar, sem he poder dar uma felicidade perfeita, ella teria de sujeitar-se á sua vontade, ao seu capricho, ao seu domínio, sacrificando a alma no exercício de mentirosos deveres. Tudo agora lhe parecia preferível a Ler de supportar com humilhação as desfeitas do tio, a quem o pae tão generosamente perdoara, offerecendo-lhe o que tinha d? mais amado e de maior ternura—a filha!
Onde acharia Eva esse esposo que a arrancasse de uma posição tão triste e falsa? Pensava sempre, obstinadamente, no mesmo homem! querendo desviar d'elle o espirito, para elle voltava, attrahida por uma grande força mysteriosa! Com elle construía os mais brilhantes sonhos de futuro; com elle parecia-lhe ávida muito mais formosa edoce; mas esse alguém não demonstrava amal-a; mas esse alguém fora sempre para. ella quasi indifferente e frio! D^lle escondia recatadamente as mais tênues manifestações de amor, num escrúpulo de requintado orgulho. Se elle não quebrasse o encanto, não seria ella quem se revelasse; viveriam toda a vida ao lado um do outro, a olharem-se sem se comprehenderem, sem se fazerem felizes! Amar outro homem? Impossível! casar com outro? Eva procurava esse outro entre o pequeno numero dos seus pretendentes. Errou-lhe o espirito muito tempo de uns para os outros, sem se poder fixar em qualquer d'elles! mas urgia tomar uma deliberação, e Eva, sendo altiva, era resoluta. Depois de uma hora de meditação, sentou-se á mesa e escreveu com mão, que debalde quiz tornar firme: «Meu bom Paulo.—Fez bem em revelar-me o segredo do Dr. Azevedo; resolvida a deixar quanto antes esta casa, offereço-lhe a minha mão. Escreva-lhe e proporcione um de-
senlace rapidoaeste meuprojecto.—Sua Eva.» Fechou a carta, sahiu cm bicos dos pés para não acordar Noemia e ordenou ao pagem que a levasse immediatamente ao Mangueiral. Quando voltou, Noemia tinha acordado e estava sentada na cama abotoando o vestido para levantar-se. —Como está? —Melhor. é muito tarde? —Não: são quasi três horas. —Ih! já chamaram para o jantar? — Ainda não. —Teremos tempo de fallar a Octavio? agora me lembro de que elle me pediu para chamal-a! —A mim! — Sim; mas fiquei tão atrapalhada, que me esqueci! Se eu pudesse livrar-me do tal noivo! —Não pense nisso agora; e espere, que se ha de arranjar tudo! — Qual! pae quando diz as cousas não volta atraz! —Veremos. Vamos fallar a seu irmão. Noemia levantou-se,beijando a prima com reconhecimento, e atravessaram junctas a sala de estudo, parte do corredor e da varanda. A dona da casa balançava-se ahi na rede, cosendo ao mesmo tempo; a seus pés dormia regaladamente uma negrinha de poucos mezes, muito envolta em trapos. A pequena distancia uma
mulata gorda engommava u.iusaía de alto folho bordado. O Saturnino, sentado á porta do terreiro, polia o metal de uns arreios; Noemia chamou-o, elle levantou-se logo, muito respeitoso, e ouviu a ordem de ir saber de Octavio se lhes poderia fallar. — Que sim, voltou elle dizendo com os seus gestos e phrases adocicadas e pedantes: Meu senhor moço Octavio manda participar ás minhas senhoras que está prompto para receber tão honrosa visita! e curvou-se muito, mostrando num sorriso a falta dos dentes.