Capítulo XL
A plMILÍA MEDEIROS XL — Decididamente é melhor esperar em casa a resposta... pensava Octavio comsigo. E nãosahiu durante todo o dia seguinte; as horas passavam lentas e elle perdia-se em conjecturas. Que teria succedido? Que faria Eva? Chegava de vez em quando á janella, observava a estrada que via ao longe serpeando entre a verdura do pasto, isolada e batida de sol; voltava para o interior, abria um livro, tentava escrever, estudar, distrahir-se; mas surgia-lhe obstinadamente a mesma idéa e erguia-se de novo, para contemplar, já sem esperança, a longa estrada, além. Por fim, ás cinco horas da tarde, entrou-lhe o Saturnino no quarto com uma carta do Mangueiral. Octavio abriu-a nervosamente. Em frente d^lle, o pagem que apezar de liberto pela grande lei, não quizera abandonar a casa onde tanta affeição o prendia, contemplava-o com curiosidade e tristeza, destacando, no fundo claro da janella aberta, a sua figura alta e esguia. Tal era a commoção de Octavio que não reparou na attitude do mulato; no entanto ia lendo, e, á proporção que avançava na leitura, empallidecia. Paulo escrevia constrangido; contava a sua historia com forçada serenidade; pedia quasi perdão a Octavio de ser preferido por Eva, revelando-se de uma subtileza de senti-
mentos quasi doentia; havia alguma cousa de doloroso e castigado no seu modo de dizer que era feliz! como se a sua ventura lhe causasse remorsos! De vez em quando, porém, resaltava luminosa e contente uma ou outra expressão que elle não pudera conter; mas abafava depressa, caridosamente, todas as manifestações de goso sob uma linguagem melancholica e fria. A carta era longa, torturada, soffrida,—carta escripta com a dòr, a extraordinária dôr de dizer a um desgraçado: «Eu sou feliz! O que te magoa e prostra éo que me encanta e rejubila!» Por maior que fosse o disfarce, Paulo não conseguia occultar a Octavio a sua ventura. Aquelle estylo delicado e pungente, lembrava um roseiral em flor, viçoso e fresco, a que tivessem, para que o não vissem, abafado com sebes espinhosas e seccas; as flores, de facto,ficavam escondidas, mas o seu aroma enebriante rompia a coberta piedosa e ia denunciando pelo espaço em fora a sua existência occulta! Acabando a leitura, Octavio levantou os olhos. O Saturnino continuava immovel, como uma estatua. Octavio então descarregou nelle a sua cólera, mandando-o sahir. O mulato obedeceu, sem revolta. Octavio ficou só. Amarrotou a carta, atirou-o ao chão. — Hypocrita!... hypocrita! repetia elle furioso, pisando o papel com raiva. Fechou-se por dentro, sentou-se perto da mesa, apoiu nella os cotovellos, escondendo o rosto
entre as mãos. Pelo seu espirito ia passando a prima, multiplicando-se, como uma procissão singular; era sempre Eva, ora radiante, ora altiva, ora concentrada, ora expansiva; via-a de costas, á porta do gallinheiro, atirando milho ás aves, singela no seu vestido de percale caseiro, como no dia da chegada; via-a de setim branco, decotado, sob a luz crua do gaz, de joelhos no genuflexorio da matriz de Campinas; via-a a entreteceras hastes do jasmineiro num cuidado de menagère delicada e simples; via a galopando ao lado de Paulo com a amazona e o véo fluctuantes; via-a debruçada no seu leito,tratando-lhe a ferida do hombro, doce c maternalmente; via-a repellindo a affronta do pae; via-a sempre, ora alegre, ora triste, ora desdenhosa e ora meiga, succedendo-se, repetindo-se, escarnecendo, chorando, mas sempre bclla e sempre amada! A visão continuava: agora fallava-lhe ao pé do moinho c ia levado piedosamente por ella a vêr a pobre mama paralytica; e lá no fundo do seu coração eChoava com tristeza o dito da velha: Como eu gostava qui mecê casasse cum ella! Depois guiava-a atravez do bosque, dava-lhe flores, ouvia-a encantado, sentava-se a seu lado embaixo da figueira brava, conversando ao som da água que corria soluçando a seus pés. Tinha passado tudo; a doce Eva de outriora deveria dissipar-se no seu pensa-
mento, como se fosse uma visão de mero sonho! A noite chegou, escura e calma. Octavio desceu ao terreiro; evitava a convivência da familia; mas ahi mesmo, na solidão e na cscuridade, perseguia-o uma recordação ainda de Eva; lembrava-se, sob a janella do quarto da allemã, da branda luz do lampeão de vidro fosco, á luz do qual a prima recitara, numa entoação grave e séria, uma poesia de Gcethe. Então tivera duvidas; despontava o ciúme de um outro, do Azevedo! Como ia tudo longe! e que saudades sentia dtaquellcestado dúbio e indeciso da alma! O vento frio de maio sibilava nos bambus do tanque e agitava as duas casuarinas do pasto, numa bulha triste como a do mar Octavio passeava de um lado para outro, envolto na negrura da noite e na do seu desgosto. Que havia de fazer? Como reagir contra aquella decepção? Pouco se importava com isso! Sentia como que uma amarga voluptuosidade em soffrer por dia, assim! — Tive ao menos a fortuna de amar, concluiu elle com tristeza.