Capítulo XIX A Família Medeiros · Capítulo 19 de 42
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Capítulo XIX

XIX O quarto de Octavio era pouco espaçoso, mas alegrado por duas janellas sobre um pateo lateral. Forrado de papel cinzento, com uma mobília solida e simples, a cama larga, o lavatorio todo de mármore, as cadeiras deespaldar alto, firmes, erectas como soldados em continência. Ao pé de uma pesada mesa quadrada, o convalesccnte, recostado em almofadas, lia uma revista de engenharia, recebida poucas horas antes. Barbeara-sc, puzera na sua ioüette de doente um apuro e egante. Transpareciam no seu rosto viril uns bons prenuncios de saúde e de energia. Tinha vestido pela primeira vez no^Brasil, uma robe-de chambre de seda indiana, escura, com arabescos e cornucopias brilhantes, forrada de verde malva; enrolara nos joelhos uma manta persa, trazida egualmente de Berlim,da passageira épocha de umas entrevistas amorosas com a mulher de um negociante rico da avenida das Tilias. Quantas vezes a loura cabecinha da amante se encostara perfumada e languida no seu hombro, emquanto os seus lábios, numa avidez de abelhas, lhe procuravam todo ornei dos^ beijos! Lembrara-se d'ella naquella manhã, quando o Saturnino lhe levara a robe-dechambre, segura cortezmente nas pontas dos dedos, e lhe entregara um objecto que tinha

encontrado no bolso, um lenço pequenino, de seda crua, com as iniciaes T. R., bordadas a côr de ouro e marron. Eram as suas iniciaes! Viera aquelle lencinho ignorado trazer-lhe uma lembrança que o não. visitava haviamuito. Como principiara aquillo? como acahára? Tinha começado num baile da legação brasileira; ella, vestida de. Tonkim braiaco, fôra-lhe apresentada pela mulher do ministro como uma das suas antigas condiscipulas'no convento. Como tinha acabado? numa noite de inverno; ella entrara no seu gabinete de rapaz: solteiro e, atirando paraochão a capa^develludo que a envolvia toda, lancou-lhe os braços ao pescoço, cobriu-o de cancias, num extravasamento de ternura indomita.! Subitamente, retrahindo-se, disse-lhe que se não tornariam a vêr, mandou buscar ao coupé o cofre das cartas, exigindo de Octavio as.d'ella. Atiraram todas para o fogão, contemplando silenciosos as chammas que tantas chammas consumiam, e sem outro adeus separaram-se! Elle vira-a depois, uma vez, na rua, num carro descoberto, ao lado do marido, que o cumprimentou tirandorasgadamente o chapéo; ella moveu ligeiramente a cabeça com orgulhosa indiffcrcnça. E, nem elle pensou mais nella, nem ella pensou mais nelle. Qctavio cheirou o lenço: tinha uns leves vestígios de white-rose. Sempre que de perto ou longe aspirava este aroma, sentia-se trans-

portado aquelle rápido período de amor luxuoso, comquanto iacj-1. Sobre muitas pessoas os cheiros exercem egual influencia. Toèas as terras, Ipdasas casas, e mesmo todagp as pessoas têm o..sci$ cheiro peculiar: d'ahi a lembrança que muitas vezes o olphato nos acorda, de uma cidafle, de uma rua, ou de uma habitação. * K Octavio volteou nos dedos o elegante lencinho, atirando-o depois numa gaveta aberta por acaso; foi polir as unhas, preoccupadó com outros pensamentos. Decidira fallar a Eva seriamente nesse mesmo dia, e rogar-lhe que lhe dissesse de quem» deveria desconfiar em todo aquelle drama. Ella,^que o ajudasse, que lhe esclarecesse o espirito em trevas! Não duvidava, nem consentia que duvidassem d'ella! amavaa! amava-a como um louco! Para elle, Eva era, apezar de todas as provas que accumulavam contra a sua reputação e boa indole, a personificação da pureza, da bondade,.da compaixão e do bom-senso. Revestia-a de todas as virtudes, endeusava-a amaldiçoando o momento em que chegara a duvidar d^lla também! Julgava-se agora indigno de lhe tocar na mão que tão bemfazeja se estendera sobre o seu leito, a dar-lhe, com os curativos delicadamente feitos, o balsamo para as suas atrozes dores!

A FAMÍLIA MEDEUtOS Qual seria o infame que trabalhava assim para a perder? Com que interesse? Qual o motivo para, tão inexplicável animosidade? Até on.de quereria tirar a desgostante siJtuação? Seria possível que Eva ignorasse tudojteso? -J Octavio reflectia • d'esse modo quando Noemia entrou, trazepdo, muito influída, um papagaio a que já ensinara a dizer a palavra— tolo! — Quer vêr, Octavio? O meu papagaio já sabe dizer mais uma palavra! Diga, meu louro: tolo! E o papagaio, inflando o pescoço, repetiu com voz guttural e embrulhada:—tolo!Ella riu-se muito e depois,-reparando no irmão, exclamou: — Bravo \ que luxo! mal empregada cousa num sitio tão triste! Que bonita seda! na Europa usam muito d'isto?! — Usam; e aqui também. — Aqui?! eu nunca vi. — Certamente; são trajes caseiros, em que só na intimidade da familia se pôde apparecer. — Quando eu me casar, hei de dizer a meu marido que compre uma cousa assim.. Bateram á porta, e uma mucama disse do lado de fora: — Nhá Noemia! Sinhô tá chamando mecê!

— * • • • • ' •... — ' ^ ~ — Ja vou! respátjjideu ella alto; e depois a meia voz: para qüe será?! Bem! até logo Octavio! E ia a sahir. — Escuta, vem cá! interrompeu-a o irmão; ella voltou-Se, elle proseguiu: Depois d: fallar- com pae, peça a Eva para virconversar umybouco çommigo! fp~ Ora essa! o senhor quer uma entrevista com a priminha! e fez um sorriso e um "olhaf maliciosos. — Que tem isso?! não é natural que me agrade a,conversação d'ella? • '

— Desculpe-me tel-aincommodado, disse Octavio á prima, tentando levantar-se. — Esteja a seu gosto, não se levante! e quanto ao incommodo que me deu mandando chamar-me, não foi nenhum, tanto mais que eu preciso mesmo fallar-lhe. — E' verdade, murmurou Noemia, Eva tem muito que dizer!.. a respeito de urna; cousa triste que aconteceu hoje... — Sim?! perguntou o moço voltando-se para a prima. — Realmente, tornou-lhe esta, o meu caso é com certeza mais urgente do que o seu, e é natural que também seja mais grave; por' isso tenha paciência, mas heide ser a primeira a fallar... • -r — Nem podia deixar de ser assim! Eva narrou então a Octavio,'pedindo a sua intervenção, a historia do pedido de casamento, as lagrimas de Noemia e o seu justíssimo pavor pelo futuro! O moço socegou-as; elle convenceria p pae de não dever contrariar a vontade da filha, despersuadindo-o de levar a efifeito planos de tal ordem. Houve uma pausa. Foi Eva quem cortou o silencio, dizendo ao primo: — Então, agora é a sua vez! — Sim... respondeu elle indeciso; depois voltando-se para a;.rmã: — Deixa-nos um momento, Noemia; tem paciência!

Decorreram alguns segundos sem que nem um nem outro articulasse uma única syllaba. E era já tarde, o relógio de parede lá fora vibrara uma pancada sonora: a da meia hora depois das três. Dahi a nada viriam interrompel-os, chamando para o jantar. Octavio refletiu nisso e na inconveniência de uma demorada prima, sósinha, alli; por isso começou logo, embora muito embaraçado: — Ouça-me com attenção, Eva; tenho a pedir-lhe um esclarecimento, fazendo-lhe ao mesmo tempo uma rcvellação dolorosa. Primeiro que tudo, diga-me: não acredita que eu seja muito seu amigo? e olhou-a com ternura, mergulhando nos olhos d'ella toda a vida dos seus. Eva, attonita, não respondeu logo. A sua cadeira, muito chegada á de Octavio, punha-a em contacto com as dobras mornas da manta que o envolvia. — Diga-me! tornou elle com insistência, não acredita na minha sinceridade? — Certamente! respondeu ella, prc&urando em mente o motivo para semelhante pergunta. — Então, se eu lhe fizer uma pergunta ou der um conselho, não o receberá com desconfiança^nem ficará zangada? — Não., nem sei que haja razão para desconfiarmos um do outro.

— Bem! agora outra cousa: Eva tem algum inimigo? — Eu? não. — Absolutamente nenhum?! — Que eu saiba, pelo menos, nenhum! — E' singular — Porque?! — Faça um esforço de memória! — Não é preciso; a minha vida tem sido tão simples, que eu de um relance vejo-a toda! — Nunca fez mal a ninguém, nem directa nem indirectamente? — Que lembrança, Octavio! nunca! ou se fiz foi inconscientemente! — Está, visto isso, perfeitamente tranquilla? Ainda bem. ou, talvez que ainda mal! — Porque diz isso? ha qualquer cousa contra mim? diga com franqueza! eu ando desconfiada e o melhor é. — Acclararmos a situação; de acordo. Eva não é uma criança futil; ao contrario, é ponderosa e forte. Mas primeiro que tudo ha de me fazer uma promessa! — Qual? — De guardar silencio do que dissermos aqui! — Julga-me leviana? — Não, mas nada mais natural do que desejar confiar. a seu irmão, por exemplo, tudo o que me ouvir!

— Na verdade não tenho segredos para elle, e, quanto mais importante me parece um facto, mais me apresso em communicar-lh'o e pedir-lhe conselho! — Estima-o muito? perguntou Octavio. curvando-se para ella, esquecendo momentaneamente, á dôr do ciúme, o objecto fundamental da entrevista. — Muito, respondeu Eva corando. — E elle corresponde-lhe? — De egual maneira! — Tal e qual, como se realmente fossem irmãos? — Mas, foi para me fazer taes perguntas que me mandou chamar?! — Vê! já está zangada! — Não estou! eu sei que, como convalescente gosa de muitos direitos: não o contrariarei... Octavio sorriu-se, pegou-lhe na mão e ia fallar, quando ouviu a voz do pae, que se vinha encaminhando pelo corredor. Octavio apontou á prima a porta da sala, murmurando rapidamente: — Saia, Eva, fallaremos depois; não convém que a vejam aqui neste momento. Obrigado pela sua condescendência. Conte que tem nesta casa um defensor, um servo dedicado e capaz de todos os crimes para salval-a, se acaso a vir em perigo algum dia!

Eva levantou-se e fixou com extranheza os olhos no primo; depois, respondeu com voz firme: — Eu não saio d'este quarto sem que me explique o sentido das suas palavras. Acceito e retribuo a amizade que me oíferece, acceito mesmo a protecção, mas não quero sacrifícios nem consentirei nunca em que se exponha por minha causa a situações perigosas... Não ha, nem haverá necessidade d'isso; não faço mal a ninguém, nem dou credito a intrigas; o que peço é a lealdade de me dizerem claramente se os incommodo aqui. — Jíva! perdôe-me, isto é um resto de febre!• Eu não sei fallar-lhe, vê, que quer? quem não a estimará? quem não a... Olhe que oflensa me atirou! como é má... e esforçavase por sorrir, segurando-lhe na mão, olhandoa com amor. Eva escutava-o, immovel, pallida, sorprehendida, emquanto a figura do tio se desenhava entre os humbraes da porta. O commendador estava nesse dia desesperado contra a sobrinha; a confissão dos escravos e a recusa de Noemia ao casamento com o Franco, por influencia da prima, acabaram de accentuar-lhe no espirito a resolução de a separar de Santa Genoveva, de a mandar embora,clara edefinitivamente.Venda o filho livre de perigo, já de pé, cessou de considerar como um dever a concentração do seu ódio e deixou-o explodir.

— Então, disse elle, approximando-se de Eva, com os braços cruzados e o olhar em fogo; não basta que a senhora vire a cabeça dosmeus negros; anda agora também virando a cabeça dos meus filhos? Que faz aqui? Ella fitou-o com altivez e assombro, e Octavio respondeu logo: — Eva veio a meu chamado. Acabei de pedir-lhe a sua mão. A estas palavras o commendador, estupefacto, arregalou os olhos e rugio com força: — Isso é o que ella queria! — E é o que eu mais ardentemente ambiciono. Diga-me, Eva, disse elle, voltando-se para a prima, consente em ser minha rrrulher? Medeiros mordeu os beiços com raiva; e Eva, levantando a voz e endireitando o busto, depois de fitar desdenhosamente o commendador e de lançar a Octavio um olhar de orgulhosa altivez, respondeu com firmeza esta única palavra decisiva e terminante: — Não. Ouvindo esta resposta secca e firme, pronunciada num tom de inappellavel resolução, em que transparecia o caracter recto e sereno da moça, Octavio tornou-se livido. O pae riuse com ironia, abanando a cabeça, e Eva sahiu.

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