Capítulo XXVII
XXVII Eram seis horas da manhã quando Octavio, acordando, ouviu dois caipiras dialogarem sob a janella do seu quarto. Dizia um: — Seu Romão já disse qui o mais fólte di nois tudo é o Braz.. — Sché! ná terra! o mais fólte di nois tudo sou eu! — Seu Zé Riba mandou chama um capanga di fora, um tá Furctuoso! — Eh! sai cinza! — Os coitado.. — Quê coitado? — Da gente do Doto. — Foi nhô Trigueiro qui mandou chama mecê? — Não foi não; eu vim trazê um recado de nhô Jucá, por móde elle í lá combina as coisa; o diabo é que fica talde e eu pérciso i mi embora. — Mecê foi convidado prá festa? — Fui. — Quem foi que convidou mecê? — Nhô Carro de Lima, mais não vou não! — Uê! Isso é o mesmo que pinchá dinhêro fora! — E '... mais não vou. Eu quando vejo sangue fico tão patife (') que até chego a sê vil! (1) Palif;—desanimado, covarde,
Ouvindo o nome do Fructuoso ligado áquellas palavras mysteriosas, Octavio ergueu-se e abriu a janella, mas ja os dous caipiras se tinham afastado; um d'elles conversava com o Trigueirinhos, que o ouvia de rosto carregado; o outro desapparecia na porta do pateo com um feixe de palmitos ao hombro. Meditando nas palavras que acabara de ouvir, Octavio julgou perceber a intenção occulta de um crime. Essa suspeita desvaneceu-se depressa. Que diabo! pensou elle comsigo, se houvesse realmente tal propósito, os capangas não teriam tanta facilidade em fallar nisso tão alto e junto a uma janella! O que é preciso é ir ter com o Fructuoso, segural-o bem e arrancar-lhe da guella toda a verdade! Octavio resolveu procural-o nesse mesmo dia. Quando entrou na varanda deparou com a irmun, que fazia um requeijão, sentada entre dous barris, um de leite coalhado, outro de leite fresco. Octavio poz-se a ler os jornaes, pensando ao mesmo tempo na entrevista com o Fructuoso. Que verdade negra lhe iria revelar esse homem infâ"me, que si vendia para o crime, como uma prostituta para o amor? A pouco e pouco foi-se reunindo toda a faoiilía. Estabeleceu-se aprosa: entrou o Trigueirinhos preoccupado, com os beiços esbranquiçados e as faces terrosas. Entretanto Nicota,
rubicunda e serena, expremia num guardanapo a coalhada de leite com ligeireza e força, e tirava-a depois d'ahi, já bem enxuta, para o leite fresco de um tacho. — E1 a mais feliz da familia, pensava Octavio, observando-a na sua occupação de menagére distrahida e calma. Estavam assim, quando ouviram o rodar de um troly; chegavam os Francos. Noemia estremeceu e approximou-se instinctivamente da mãe, como a pedir-lhe misericórdia e apoio. Momentos depois, entravam na sala o coronel Cerqueira Franco e o filho. O coronel era um velho robusto, alto, corpolento, de barba farta a encobrir-lhe todo o peito, andar pesado e grandes mãos cabelludas. O filho, egualmente alto e forte, tinha o aspecto agradável, o olhar sereno, um sorriso bondoso e feliz de criança posto nos grossos lábios de um homem. O commendador apresentou-o a Noemia, dizendo-lhe: — Esta é que é vossa noiva! Elle corou; ella, sem levantar os olhos, estendeu-lhe a mão, gelada e tremula. Houve um instante de silencio, que o coronel Cerqueira Franco se apressou em cortar, fallando num tom alto, com certa intimidade e alegri?.. Voltando-se para o filho exclamou: — Você tem uma noiva muito bonita; carece agora de tratal-a bem, ouviu? bonita e...
27 A FAMÍLIA MEDEIROS commoda! porque é tão delicada que ha de ser por força muito leviana! (i) cabe num canto do bolso de Júlio! Poaco depois, uma mucama chamou para o almoço. Enchendo o seu prato de quiréra (2) e lombo de po co, o coronel Franco proseguia: — D. Nicota? a senhora descurpe a franqueza! mas eu quando passei na cachoeira de Pirassununga, hontem de talde, tavam caçando (3) peixe, e então apeguei de trazê um dourado pra sua ceia... E dirigindo-se immediatamente ao Trigueirinhos: — Seu sitio é bem bom. eu já pouzei aqui na visinhança uma noite, em casa do. de um chimbéva (4) moreno.. O Prates? — Isso!.. não me alembrava o nome, era casado com uma moça da Limeira.. oh! que mulher fugueta! Os outros riram-se; elle continuou: — Estou ficando com os pés fria! (5) acho que é porque a varanda é de tijolo! Trigueirinhos? vocês não aquentam fogo, não? — Que sim, responderam. De vez emquando, no inverno, faziam fogo na sala de (1) Leviana—leve. (2; Quiréra —milho pisado. (3) Kmpreram o verbo caçar por pescar, (í) Cliiiiihévii—designam por este nome na província as pessoas •!»> nariz chato. (5) Pés fria, é assim que geralmente dizem na província.
jantar, entre as redes; agora porém, em fevereiro, nem se lembravam d^sso! O coronel Franco proseguiu fallando sempre, ora das suas propriedades em diversos locaes da província, ora do casamento do filho, etc. A' sobremesa disse ter ouvido de dous passageiros, no trem, grandes injurias ás auctoridades de Casa Branca, e também que haveria nessa cidade uma revolução de escravos! isso é que era o diabo! Deveria dar credito a semelhante boato? indagava elle, mastigando com a completa dentadura postiça, o doce de abóbora moranga, servido em talhadas' — Que não desse credito, respondeu o Trigueirinhos; tudo aquillo eram historias de gente castelleira! (i) — Homem... será? — E', sim! — Bom! Durante todo o dia reinou alegria entre os escravos do Sertãosinho. Octavio não se pôde ausentar da familia e desejou mesmo consagrar o seu tempo em favor de Noemia, por quem até então nada pudera fazer. Para isso conduziu o noivo da irman para a sala dos homens, vasia nesse instante. Júlio sentou-se num canto do sofá. Octavio, arrastando uma cadeira, sentou-se em frente d^lle, e começou: (1) Exagerada, mentirosa.
— Vamos tratar de um assumpto muito delicado! Principio pedindo-lhe permissão para lhe fazer uma pergunta... — Pois não.. — Reparou bem nos olhos da sua noiva? Júlio Franco olhou attonito para o futuro cunhado e respondeu depois, muito candidamente, sem atinar com o motivo de semelhante pergunta: — Não.. — Se tivesse reparado, poupar-me-ia talvez o dissabor de lhe dizer estas palavras: Noemia tem os olhos vermelhos e inchados por passar horas inteiras a chorar! O casamento amedronta-a; ainda muito moça e de caracter um tanto volúvel, receia não fazer feliz o homem que lhe impõem para marido. E' natural; o casamento sem amor parecelhe uma cousa barbara, uma cousa assim como um patibulo moral, onde tenha de sacrificar toda a sua vida! Nunca o tinha visto; o senhor ainda é para ella um extranho! Algum tempo de convivência bastaria, estou certo, para fazel-a acceitar com immenso júbilo tal resolução. Se meu pae consultasse a sua vontade, não suecederia nada do que se está passando. Responderia á honrosa defferencia docoronel Cerqueira com duas palavras de recusa perfeitamente explicável. Creio que as antigas relações entre ambos, homens sensatos e experi-
entes, ficariamcomo d'antes. O contrario seria pueril; não lhe parece? Júlio Franco limitou-se a acenar que sim, com a cabeça. No seu olhar havia alguma cousa de indeciso e de errante, como a buscar um ponto em que se fixasse. Octavio concluiu: — Talvez lhe pareçam tardias estas minhas observações; mas, não o conhecendo pessoalmente, não me atrevi a escrever-lhe; trabalhei comtudo para o mesmo fim em familia, sem conseguir abalar a resolução de meu pae! Agora nada mais tenho a dizer-lhe; se fui comprehendido ou não, não sei; o senhor o dirá. — Perfeitamente, respondeu Júlio, levantando-se; parto amanhã cedo para S. Carlos c de lá escreverei ao commendador. E estendeu lealmente a mão a Octavio, que, apertando-a, sentiu com júbilo que tinha entre as suas a mão de um homem de bem. Já se ouvia lá fora uma grande algazarra; as crianças davam vivas, e a familia do Trigueirinhos, pães, irmãos, tios, primos, uma infinidade de pessoas, acabava de chegar para assistir á inauguração da machina. Nicota e Noemia foram ao encontro das senhoras, que abaixavam os olhos, acanhadas; nãò tinham nunca sahido do interior, e torciam caTadas os lenços, olhando para o chão. Não houve conversa, idéa, vontade que se lhes communicasse. Noemia ia e vinha trefegamente de umas para
as outras: debalde todas as tentativas de distração! Mpstrou álbuns de photographias, de gravuras; foi buscar flores, fructas, trabalhos de agulha, perdendo commentarios c seccando inutilmente a língua; por fim, não tendo mais que dizer de alegre nem que mostrar, sentouse, queixando-se num bocejo de que os mosquitos lhe davam cabo da pelle, e estendeu para uma das visitas a mãosinha muito alva, assignalada por uns pontinhos rubros. Ia a fechar os olhos, somnolenta, teve de os arregalar de espanto: a senhora a quem indolentemente mostrara a mão, desenroscou-se, dizendo com timidez: — Decerto é peririca. Quebrou-se o encanto; dahi em deante uma ou outra phrase semelhante vinha boiar á tona d'aquellapasmaceira, até que desceram todas para a casada machina. Nella estavam reunidos alegremente os brancos e os escravos. Muitos galhos de cafeeiro adornavam as paredes, c ao rumor da machina unia-se o rumor das vozes. Um estudante de S. Paulo, parente de Trigueirinhos, fez um discurso; ouvindo-o, Octavio lembrava-se do Azevedo, que, se alli estivesse, não perderia oceasião de botar rhetorica: mas, infelizmente, estava longe, ao lado de Eva, afallar-Ihe talvez na doce intimidade dos noivos! Finda a cerimonia da inauguração, voltaram para a casa da residência, onde Nicota,
ajudada pela mãe, Lz servir um jantar opiparo. A' noite, no terreiro, rebentou o samba. Um negro reforçado e coxo vibrava no tambor grandes pancadas resoantes; um velhote repenicava o caracaxú, revirando alegremente os olhos, e no meio do barulho do batuque, uma grande roda de negros e negras cantava, cantava num rythmo monótono, em que a melodia parecia nublar-se c esconder sede vez em quando, para surgir depois mais doce, mais sentida, mas egualmente fugitiva. As palavras repetiam-se sempre, sem significação, como mero pretexto para as modulações musicaes. Os pagens puxavam fieiras e as mucamas sahiam para a dança, de braços cahidos, saracoteando os quadris. Alguns escravos antigos, e já inválidos, assistiam de lado, contando entre si os deslumbramentos das Coligadas, dança complicada em que figurava um rei de manto roçagante, feito de panninho, doze ministros de bluza côr de rosa e azul, e os doze conguinhos de saiote e corpinho, todos com capacetes de papelão, enfeitados de fitas e plumas velhas, ou gorros de metim. — E o generá.'! lembrava um. — Ah! o generá! suspirava outro. O general entrava fardado na dança, cheio de galões, numa casaca extravagantissima! Da Congada, passavam a relembrar o vigor da famosa dança dos cayapós! Nessa sim!
os negros trazem por cabelleira madeixas de crina de cavallo, e, por sobre camisas de meia esfrangalhadas, muitas pennas e adornos vistosos! Os velhotes, coitados, relembravam essas cousas, emquanto as moças, num passo miúdo, iam e vinham, ora para traz, ora para deante, com meneios vagarosos e arredondados, rep tindo sempre num tom cheio de melancholia o Petinga-a-á, petinga-a-á, petinga-a-á, meu bem! Octavio passeava no pretorio, observando ás vezes a dança dos negros, indo outras vezes encostar-se á janella da sala do jogo, ficando ahi a olhar para dentro, vendo joga1"Numa dessas occasiões ouviu uma grande discussão; tratava-se d'alguma cousa grave: aceusavam um juiz do logar, em termos injuriosos. — O cachorro, exclamava um fazendeiro da visinhança, muito cheio de estupidez e de dinheiro, não só não pega os negro fugido, mas ainda por cima é acoutadô dos escravo! Elle tà tão socegado e é de tanta corage, que deixa elles anda de dia na rua! — Está mesmo desafiando a gente! dizia um outro.
-— Assim o quer., assim o tenha, sentenciava um velho magro, de olhar maligno. • „,,. — Olhe; a demissão do seu cargo já está pedida., — Isso é que já se deveria ter feito ha muito tempo! — Bem discutida tem sidoatal demissão! Insinuava maldosamente, num sotaque extrangeiro, o mesmo velho magro de olhar maligno. — Elle acouta negros para ter quem o sirva, dizia o Dr. Azeredo, pondo na mesa um trumpho. — Isso é que é! você deu no vinte! respondeu o parceiro, recolhendo o trumpho com outro maior. — Agora mesmo lá tem elle dous; um alli do Moscoso, e mostrava com o beiço um sujeito gordo, sem barba, que enrolava um cigarro, descançando no ventre arredondado os braços muito curtos. — Com o meu é que elle não fica! rosnou o Moscoso balançando a papeira.. — Ora! é o que você diz! mas queira elle! incitava o coronel Trigueiros, batendolhe no hombro, e então que remédio terá? — Que remédio terei? Ora essa! O dito, dito! Que foi que se combinou? — Na verdade, respondeu com um sorriso o coronel, dizem que você tem uns planos...
— Eu?!... ora! isso é lá com os Pereira! (i) e olhou de soslaio, maliciosamente, para o Dr. Azeredo; este acudiu: — Bem... bem! será mais prudente variar de assumpto! — Deixem socegar o juiz! dizia ironicamente o velho extrangeiro, com as faces enrubecidas pelo enthusiasmo e a cerveja. — Mas se o diabo está pedindo forca! exclamava um mais exaltado. — Que tempo de abusos! — Não! que comnosco elle não pinta! ha de ser ensinado! — Com a demissão, concluía o velho. — E com... O Moscoso acabaria a phrase se os outros não a abafassem, fallando e tossindo alto. Evidentemente, pensava Octavio, esta gente está douda! e sahiu da janella indo deitar-se na rede, a um canto do pretório, onde começou a fumar um havana, olhando para o céu estreitado, a ouvir a cantiga dos negros, cheia de graça e de melancholia. (1) Loeução popular (pie significa: não tenho nada com isso.