Capítulo XXVIII
XXVIII JulioFranco sahiu doSertãosinho ás cinco horas da manhã, deixando o coronel incumbido de o desculpar para com a familia Medeiros e o Trigueirinhos. Passara parte da n ite a discutir com o pae, que ao ouvil-o dizer:—Já não me quero casar; resolvi ficar solteiro, poz as mãos na cabeça, perguntando: — O' diabo! porque? — Porque vejo perfeitamente que não agrado a Noemia Medeiros! — Ora, que tolice! mulher lá sabe o que lhe convém! o pae quer, acabou-se! — Eu não penso assim. — Deixae-vos de asneiras!... — Isto é até muito sério... — Qual muito sério! Sois um idiota. O dialogo foi longo. Júlio logrou acalmar o velho depois de muitas horas. O coronel não cessava de dizer: — Com que cara hei de eu ficar deante d'esta gente! O filho, porém, não se demoveu do seu intento c o velho teve de resignar-se ao desconsolador papel que lhe estava destinado. A' hora do almoço, chamou de parte o commendador, e, muito titubeante e nervoso, disse-lhe tudo. O commendador não respondeu; indignado e pallido, voltou-lhe as costas e foi en-
cerrar-se no seu quarto. Octavio redobrou de attenções para com o coronel, acompanhando-o ao meio-dia á estação. Voltando da gare, Octavio indagou numa loja de ferragens, armarinho, louça, etc, onde aquella hora se reunia meia dúzia de pessoas, que faziam alli o seu cenaculo discutindo política e tomando café, se o Sr. José Ribas estava presente, ou se lhe poderiam indicar onde o encontraria. O dono da loja, um sujeito gordo, moreno e risonho, veiu á potta, explicando não se achar o José Ribas na cidade; mas que, se o Sr. Octavio Medeiros quizesse, poder-lhe-ia transmittir algum recado, visto estar nesse momento empacotando machados, enchadas, facões e garruchas que elle lhe tinha mandado pedir. — Entre... entre, escreva á sua vontade, insistia o lojista. Octavio, aproveitando o convite, foi sentar-se á secreta.ia. A pequena distancia, um caixeiro em mangas de camisa ia encaixotando os objeetos, mencionando-os em voz alta. — Uma garrucha...três machados...cinco enchadas... dous revólvers... No balcão, um outro caixeiro, muito asseiado, ia escrevendo e repetindo: uma garrucha... três machados... etc. — Para que diabo quererá o Ribas tanta cousa? perguntou de um canto um sujeito
magro, de chapéu de palha, que estava alli na prosa. — Sei lá!... o que affirmo é que tenho feito muito negocio ultimamente. — Então sempre será certo? — O que? — A revolução dos negros... — Pelos modos... em todo o caso é bom estar prevenido. — E' sim; faz o José Ribas muito bem; que se os negros pilham os senhores sem força... — Deus nos acuda! — Nesse momento entrou ousadamente um caipira na loja e, dirigindo-se ao dono da casa, disse: — Eu venho empresta um facão prá mecê... — Eu não empresto; vendo. O caipira ficou um momento pensativo; depois, tomando uma resolução: — Pois entonces pôde ponha na conta de seu Zé Riba... — Pois sim. Como c o seu nome? — Meu nome? — Sim. — Ah! Eu me chamo Furctuoso da Cunha. Emquanto serviam o Fructuoso, Octavio agradeceu ao lojista o seu obequio e foi esperar fora o caipira, que um bom acaso lhe havia apresentado.
O capanga Fructuoso era magro, baixo, de olhos pequenos, penetrantes, lábios finos, narinas dilatadas. Arrojado, elle era o primeiro a atirar-se num perigo, desconhecia o temor, deleitavase com o cheiro do sangue, provocando as occasiões de o derramar para molhar nelle as mãos, voluptuosamente! Ágil e astucioso, escapava sempre ás garras da policia, e, emquanto os soldados o procuravam nas tavernas, estradas e povoações, elle ria-se deitado sobre o ventre num quintalsinho ignorado, onde improvisava uma vinha, vendo e incitando os gallos brigadores que se arrancavam aspennas e a pelle, sangrando-se e cegandose mutuamente. — Eta, carijó! ataca! gritava elle, apostando com outros caipiras que se agrupavam, acocorados, contando o dinheiro amarrado na ponta dos lenços, a darem guinchos de raiva ou de prazer! Era da bocea d'esse homem que Octavio esperava ouvir as palavras da verdade, a confissão sincera de um erro, a revelação de um nome execrável e a salvação de Eva! Mas Fructuoso era leal aos seus patrões, e o seu espirito, sempre aberto ao mal e á perversidade, numa avidez de tigre esfaimado, negava tudo o que fosse ou que concorresse para o bem. Os seus pensamentos voavam no mal como um morcego nas trevas: sem impecilios, deleitosamente.
— «. * • Vendo-o sahir da loja de ferragens, Octa* vio> chamou o. Fructuoso approximou-se, disse tel-o reconhecido e seguiu a seu lado, sem revelar a minima perturbação. Chegados a um ponto isolado da rua pararam. Estavam entre dous muros de quintaes. O sol Hrdentissimo batia de chapa nas pedras irregulares da calçada. Num dos muros debruçavam-se curiosamente para a rua as hastes intrincadas de uma trepadeira sem flores; no outro nem um vestígio de vegetação; viam-se unicamente em cima, espetados e ameaçadores, muitos cacos de vidro brilhando ao sol. — Vamos, começou Octavio; já sei que foi você quem tentou matar-me, e olhe que não me zango por isso; o que desejo saber é o nome da pessoa que o assalariou para tal fim. Quem foi? Fructuoso sorriu, e depois, passando vagarosamente a mão pela cara:—Não sei... prá quê serve dizê? — Isso é commigo. Diga-me quanto quer pelo seu segredo? — Nada. Eu não recebo dinheiro quando não trabalho. — Pois bem, trabalhará depois por minha conta. O caipira mirou o seu interlocutor da cabeça aos pés, c sorriu de novo. — Um... o senhor? quá!
— Eu, sim! olhe... e Octavio fallou largamente, tentando por todos os meios, dos mais brandos aos mais violentos, obrigar o capanga a dizer a verdade. Fructuoso porém, fechava-se na sua obstinação e nada o arrancava d'ella; até que por fim, ouvindo de Octavio como suspeito o nome do Antunes, deu uma gargalhada franca, dizendo logo depois: — Tá enganado! Seu Antunes é um tolo prá estas coisa... só digo que, quem arranjou e pagou a gente prá esse serviço foi muié, não foi home! — Mentira! exclamou Octavio, indignado, percebendo a que mulher se referia o caipira. — A'pois, respondeu o outro pachorrentamente; si quizé eu lhe amostro uma porva... — Que venha e já! respondeu Octavio estendendo-lhe a mão. — Não tá qui! aminhã de taldinha mi espere nesse logá memo. que eu venho e entrego ella prá mecê. — Não! Eu prefiro ir buscal-a hoje mesmo em casa do José Ribas, — Como é qui mecê sabe qui eu pouso lá?! — Sei. — Tá dereito; mais hoje eu não vou pro sitio. — Então amanhã... — A quê hora? — A's sete da manhã.
— Cuns diabo!... tá dito! eu espero mecê. E separaram-se. Octavio seguiu perplexo, pensando nas palavras do capanga, revendo-lhe a physionornia mobil e impenetrável, o piscar nervoso dos seus olhinhos malignos e os repetidos movimentos da sua bocca movediça, como a dos coelhos. Decidiu ir nessa mesma tarde á fazenda do Ribas. O Fructuoso poderia tel-o enganado... Num homem d'aquelles não se podia fiar. Desejava apoderar-se nessa mesma tarde do tal documento offerecido pelo caipira; a seu vêr elle seria uma chave da intriga até então tão intrincada e obscura! Antes do pôr do sol chegava á fazenda do José Ribas, e ahi foi informado pela mulher do feitor, de uma maneira terminante e secca, que não havia homem branco em casa; ficariam todos na cidade! — Mas o Fructuoso? — Qual Fructuoso! hoje não vem cá ninguém! E' meio o senho vortá amanhã... E voltou-lhe as costas. — Malcriada! resmungou entre dentes Octavio, descendo a pequena escada. Eram oito horas da noite quando tomou a estrada do Sertãosinho.