Capítulo XXII A Família Medeiros · Capítulo 22 de 42
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Capítulo XXII

XXII Eram duas horas da tarde quando Paulo chegou a Santa Genoveva; apeando-se do troly fechado em que fizera a viagem, entrou no corredor da casa de Medeiros. Uns moleques de camisolas de algodão grosso, barrigudos e ranhosos, correram ao vêl-o, para o interior, e de uma sala próxima sahiu Noemia desprevenida; ao deparar com Paulo recuou admirada, fazendo-se vermelha; mas, esquecendo depressa a sua própria commoção, approximou-se e perguntou-lhe com os olhos rasos de lagrimas: — Como está Eva? Porque não volta?! Tenho sentido tanta falta,.nem imagina! Ralhou com ella, não ralhou? — Eu não tenho o direito de ralhar com Eva, minha senhora.. — Mas se tivesse, ralharia, não é assim? — Não... — Não?! — Eva fez o seu dever! — Meu Deus do céo! eu não comprehendo nada! disse Noemia, erguendo para o moço os seus ingênuos olhos castanhos. — Nem eu. — Nem o senhor?! então — Foi para me esclarecerem que eu aqui vim. — Ah! quer fallar com pae?

— Exactamente! — Que pena! elle não está aqui! foi ao sitio do compadre Antunes. — Posso esperar.. — No quarto de Octavio? — Onde determinar! — E' mesmo melhor ir para lá! coitado, elle está só. Olhe, faça o favor de entrar.. por aqui. Paulo obedeceu, seguindo o vulto airoso e ligeiro da moça e ia a comparal-a com uma avesinha pura e branca entre corujas tenebrosas, com uma rosa perfumada e fresca entre sarças seccas e sem odor. Depois de introduzir Paulo no quarto do irmão, Noemia fugiu para a antiga sa'leta de estudo, fechou-se por dentro e, toda contente e tremula, sentou-se num canto, apertando o coração com as mãos; fazia aquillo inconscientemente; desejava estar ao pé de Paulo, ouvir-lhe a voz, vêl-o, sorrir-lhe, e no entanto afastava-se d'elle, d'elle, que vinha pela primeira vez a Santa Genoveva, e com quem desejava estar todos os dias! Tinha Ímpetos de voltar para o seu lado, mas abstinha-se medrosa e pensava: « Elle deve achar-me tola e insipida, ha de dizer que eü não sei fallar que sou uma criança!» E repassava na memória as cousas que dissera c que ouvira, analysando-as atrapalhadamente, num delicioso embaraço.

Entretanto, Paulo e Octavio conferenciavam acerca do occorrido entre Eva e o commendador. O primeiro instava por uma satisfação peremptória, exigindo muito correctamente a exposição límpida do caso. O segundo, deixando transparecer o desgosto que a recusa da prima lhe causara, relatava, com minudencias de auto, tudo o que ouvira na noite da revolta e o inabalável propósito em que estava de descobrir o forjador da intriga. Demonstrava uma tênue esperança de que, trabalhando por Eva, se ella ficasse vencedora, viesse um dia a SantaGenoveva e lhe perdoasse a ousadia do pedido de casamento. Essí meia confissão fez com que Paulo recuasse do seu propósito; elle empenhava-se pela felicidade da moça e só o meio apresentado por Octavio lhe parecia exeqüível para a sua realisação. Julgando-a apaixonada pelo primo, não a poderia approximar d'elle sem que d'elle partisse a diligencia e o mais forte empenho. Eva era orgulhosa; morreria de desgosto, mas não cederia jamais a uma quebra da sua palavra, sem que houvesse para isso uma razão superior. Elle, Paulo, deveria transigir com o seu desejo, com a sua felicidade, com a sua honra mesmo, comtanto que Eva fosse um dia venturosa. Para ser venturosa deveria desposar Octavio, e para desposar Octavio era forçoso que elle agisse heroicamente,quedemonstrasse nãosó porpalavras,

mas por actos, não ser filho de um movimento de occasião o pedido que lhe fizera, mas sim de uma paixão de raízes fundas e vigorosas. Este plano desenhava-se dolorosamente no espirito de Paulo, emquanto Octavio ia com animação expondo os seus projectos: — Tudo isto, concluía elle, parece-nos de um romanesco falso e completamente fora do nosso tempo; entretanto, a verdadeira culpa é exactamentedaépocha queatravessamoslÓs escravocratas estão sempre prevenidos contra os abolicionistas e promptos para accusal-os de qualquer falta! Vêem elles na sua phrase mais simples e sincera, um trama oceulto ou uma insinuação maligna. Os proprietários de escravos têm geralmente uma comprehensão muito errada, do seu tempo; não tratam de averiguar de onde parte a razão nem em que se baseia a moral. Não achando argumentos seguros para a defesa das suas idéas, não procuram batalhar, mas esmagar os que lhes são contrários. D'esta maneira atiram sobre os abolicionistas os mais vexatórios insultos. Não é já preciso trabalhar pela causa da liberdade, basta manifestar Qualquer pessoa um sentimento piedoso por algum escravo para ser immediatamente tido como suspeito! A mulher brasileira, bem sabe, não tem mostrado coração neste sentido. E' triste, mas é assim.

Eva, apezar de não estender alem da familia a sua propaganda a bem dos escravos, é para mim um assombro! Todas as outras que fazem? Onde escondem a lagrima da compaixão, que ninguém a vê? Decididamente, á vista d'isto tudo eu vou descrendo da tão apregoada bondade da mulher. Foi exactamente essa piedade para com os captivos que prejudicou Eva. Fosse ella uma indifferente, como todas as outras senhoras, e absolutamente ninguém se lembraria de envolver nisso o seu nome! Influenciados pelo meio cm que vivem, estremecidos na sua fortuna e dominados pelos hábitos antigos, os escravocratas não medem o mal que fazem á sua causa com os grandes alaridos. Em vez de transigirem, ao menos num ou noutro ponto, redobram de severidade, querendo pôr freios á liberdade que principia a agitar-se, sem perceberem que, quanto mais apertado fôr o freio mais indomito é o desejo de correr! Parece que á proporção que vae entrando a luz no espirito do preto, se vão condensando as trevas no espirito do branco, porque o medo é negro e a aspiração da liberdade é immaculadamente alva! Meu pae, terminava Octavio, nasceu entre escravos; foi educado a ouvir c a vêr, desde os mais tenros annos, scenas d.a escravidão; affez-se a isso. Foi como senhor de escravos que adquiriu fortuna, sem cogitar

nunca se a lei que lhe garantia essa propriedade era injusta ou não. Agora, ha poucos annos, levantou-se uma voz a protestar contra uma cousa, para elle natural á força do habito: atraz d'essa voz veiu outra, e logo outras mais queo desvairaram completamente! Os lamentos eas supplicasde Eva acabaram de irrital-o. Sem comprehender a imprudência em que incorria, levada unicamente pelos impulsos do coração, ella intervinha com freqüência em favor dos captivos, de quem captou sympathias. Essa intervenção foi desastrosa. Contando com o seu apadrinhamento, os negros amiudavam faltas a tal ponto, que meu pae viu-se obrigado a negar-lhe as graças pedidas. Nasceu talvez d^hi um pouco de resentimento, e d'esse resentimento a mutua desconfiança. Foi isso que, em parte, concorreu para o receio pueril que meu pae nutre acerca do mal que Eva lhe queira causar. Deve-se-lhe, porém, fazer a justiça de não ter partido d'elle semelhante suspeita; acceitou-a de outra pessoa que, sabendo naturalmente qual o estado do seu espirito, lançou-a nelle. Com que fim? E' o que não posso adivinhar! O que afirmo é que ha quinze annos não teria com certeza, succedido assim. Certas cousas futeis tornam-se ás vezes graves, conforme a maneira de serem tratadas ou a occasião em que acontecem. Ora todo o mal do nosso caso está na épocha que atravessamos, repito; pelo menos é a minha convi-

cção. A província vive da lavoura e entende que esta depende exclusivamente do escravo; faltando o escravo, arruina-se o paiz! D'ahi o terror e, por conseguinte, o medo que em geral os lavradores têm a tudo que lhes pareça reforma, e a todos que apregoem alto a necessidade d^lla! Na perseguição do abolicionismo vêem, não a indignação nem a piedade por uma raça submettida e infeliz, mas a inveja dos seus bens e o desejo feroz de os arruinar! Hoje não se raciocina; acceitam-se todas as idéas, por mais absurdas, desde que sejam contrarias ás dos inimigos. Os lavradores têm o espirito obcecado e doente, e nessas condições não é difficil germinar depressa um sentimento errôneo. Paulo discutiu com Octavio longamente; por fim, resolvido a ceder-lhe toda a parte sympathica na defesa de Eva, levantou-se, instando com elle para que abreviasse a reconciliação da familia e definisse a situação em que se achavam. Por sua vez prometteu auxilial-os dispendendo toda a sua influencia com Eva; mas, como o caso não comportava adiações, urgia delberar e agir; e mostrava a inconveniência dos commentarios prováveis, quando na cidade soubessem ou desconfiassem do facto! — Ninguém lá fora saberá do motivo por que Eva sahiu d'aqui, afirmava Octavio, c, nem é para extranhar que ella passe algum

tempo em uma propriedade sua! Sejam discretos, que eu me encarrego de uma explicação que os ha de satisfazer. — E até lá? — E' preciso paciência.. — Impossível, meu amigo! a posição de Eva é falsissima; não é justo que cruzemos os braços á espera de uma satisfação que pôde chegar tarde... — Que não! afirmava Octavio; tudo seria Resolvido em pfàffBc&dias; elle já se sentia com forças e sahiria Iressa mesma tarde, em um pequeno exercício, para no dia seguinte poder ir á cidade... e pedia instantemente a Paulo que não fallasse com o commendador, aconselhando-lhe e a Eva, uma attitude altiva e independente. Quando se separaram eram quatro horas. Paulo atravessou sósinho a sala e o corredor, subindo para o troly, sem reparar em uma janella cerrada, de onde o espreitavam os olhos de Noemia. Não ia satisfeito. Desagradara-lhe a rhetorica doentia de Octavio e a sua perturbação de namorado piegas; ou fosse a voz do ciúme que fallasse nelle,ou indignação por não achar mais energia em Octavio para a defesa de Eva, o caso é que ia desconsolado, ponderando as palavras que ouvira. Era evidente que Octavio e Eva se amavam! Para abreviar um desenlance feliz aquelle affecto reciproco, elle, Paulo, devia

exactamente fazer o que promettera: deixar toda a acção a Octavio e encolher-se inútil e estupidamente no seu desgosto. Reflectiu durante muito tempo nisso; depois convenceu-se de que houvera precipitação de parte a parte, e que talvez o caso não tivesse a gravidade que lhe queria dar. Distrahiu-se, logo que atravessou as terras do Mangueiral. Agora, á esquerda, via os telhados vermelhos das casas da colônia, com os terrenos em frente bem cultivados; d'ahi a nada, os cafezaes muito extensos, a perderemse de vista, de um e outro lado, em longas ruas symetricas; depois, um rancho de trabalhadores, homens e mulheres, rijos, alegres, com os pés enterrados na lama, e a vibrarem a enxada com dextreza e coragem; umas crianças risonhas deram-lhe vivas ao passar; deixando os cafezaes, ladeou o pasto de um verde de setim, onde o gado punha manchas brancas, pretas e pardas; depois, o grande muro baixo do pomar, os caramanchões do jardim, a rua das magnolias, os canteiros de jurujubas variadas e a parede lateral da casa, toda coberta pela folhagem grossa, espessa e miúda da silvina. Que differcnça entre o Mangueiral e as outras fazendas dos arredores! Comparava-a com a de Medeiros I Santa Genoveva era o que são geralments todos os sitios paulistas: grande casarão cercado de terrenos sem cultura, nem flores nas janellas, nem uma arvore a sombrear-lhe a porta! Iso-

lada como uma sentinella medrosa, a olhar com desconfiança para todos os lados! A horta, o jardim e o pomar, accumulados numa só área, separada da habitação por um longo terreiro, nú, cheio de calor. No interior da casa, o mesmo desconforto; raros moveis, nenhuma elegância. No corredor, negrinhos em camisa; na sala de jantar, comprida e sombria, algumas redes, uma mesa e uns bancos toscos. Em frente, o terreiro de café, atijolado; muito sol batendo na terra secca, a reflectir uma côr amarellada nas paredes das senzalas; quartos sem luz, deitando para um corredor onde as janellas têm grades como as prisões! No eito os captivos, nús da cintura para cima, luzidios de suor, levantando penosamente a enxada a olharem de revéz para o feitor, até virem numa gamella o feijão e o angu do jantar. Era então a hora do repouso; sentavam-se no chão e devoravam aquelle alimento, enchendo muito as colhéres de ferro ou de estanho. Como se destacava de todas ellas o Mangueiral, onde os trabalhadores eram livres, a cultura feita sem a rega das lagrimas, as habitações dos colonos claras, arejadasc limpas, a casa da proprietária atufada em verduras, coberta de perfumes e de sombras doces 1 Seria menos rendosa, talvez, mas era com certeza muito mais agradável. Era a fazenda futura, salientando-se entre todas as outras, rotineiras e estúpidas. Tinha, como poucas,

abundância de fructas, de hortaliça e de água, e, sobretudo, muita paz e muito contentamento! Era discutida pelos visinhos, uns carrancas, que a lamentavam censurando-lhe a administração; afirmavam que daria o triplo se a soubessem dirigir; faltava-lhe o elemento principal: o escravo, que trabalha indubitavelmente mais do que o branco, quando debaixo do respeito de um feitor severo; faltavalhe economia, rotina, e sobejavam-lhe os seus ramosde rosas modernas, as suas arvores fructiferas e ornamentaes, o conforto do lar bem adornado, á moda da cidade, a hortaliça e o leite que distribuía á farta pelos trabalhadores; todas as regalias, emfim,que permittem forçosamente propriedades d'essaordem.No emtanto o Mangueiral continuava a enfeitar-se e a prodigalisar vantagens aos seus empregados. Os visinhos riam-se a cada novo melhoramento posto em pratica, e levantavam desdenhosamente os hombros; não sentiam, infelizmente, inveja, porque se a experimentassem procurariam talvez seguir o mesmo systema, fazendo assim um grande beneficio á sua educação. Paulo tinha pena de se vêr isolado em meio de tantas terras fertilissimas e bellas, escravas ainda de uma direcção pervertida, produzindo espantosamente, mas sacrificando milhares de homens á sua producção. As grandes propriedades comparadas com o Mangueiral faziam-n'o sorrir; nellas, for-

tunas accumuladas, safras enormes, mas extrema miséria nos degradantes quadros da escravidão; no Mangueiral a mediania farta, o bem estar espalhado desde a habitação principal até a infima; em tudo o direito, a razão, a justiça! Para o lavrador de coração, que se prende com amor á terra que cultiva, não será essa felicidade, porventura, a mais consolado r a? Paulo pensava assim, quando o troly parou á porta de casa. Eva vciu-lhe ao encontro. — Vem de Santa Genoveva? — Sim, venho de lá.. — Octavio está melhor? — Está quasi bom... — Fallaram, já se vè, a respeito do que hontem aconteceu? — Certamente. — E então? —Em breve estarão as pazes feitas e Eva tornará para lá... —Prefiro viver sempre aqui. —Ou isso; mas não d'esta maneira... — De qual?! — Casada. — Nunca! Paulo sorriu, acerescentando: Deixe-se d'isso! os resentimentos passam. Ainda havemos de vêr o commendador muito seu amigo... Octavio é um rapaz de coração e ama-a profundamente!

Eva levantou para Paulo um olhar cheio de espanto; este, mudando de tom e procurando fugir do assumpto, perguntou: —A senhora dona da casa mandou fazer, para estréa, um bom jantar, não é verdade? Assim espero; olhe, trago uma fome!... Eva não respondeu e caminhou adeante para a varanda.

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