Capítulo IV
IV Na manhã seguinte Octavio acordou de madrugada. Adormecera tarde, apesar do cançaço da viagem e das grandes commoções da véspera. Extranhára a cama, sentira-se febril; mas quando, de manhã, abriu a janella e-olhou para os vastos campos illuminados pela luz violacea e doce do alvorecer, sentiu-se reanimado e alegre. Lembrou-se do seu tempo de infância, quando áquella hora fugia para o terreiro, com um copo na mão prompto para o leite espumante e ainda morno da vacca. Vestiu-se, desejoso de caminhar pelo mattot por aquelles bosques, cujas arvores via d^lli. Sahindo do quarto deparou com a mãe, que ia com uma mucama escolher verduras na horta. — Tão cedo, mãe, já de pé! Ella explicou-lhe que se levantava sempre de madrugada, para os arranjos da casa, e aconselhou-o a tomar qualquer cousa. — Vou ao leite e depois irei ter com vossemecê á horta. Octavio atravessou o terreiro em direcção ao curral, onde um negro alto mugia uma vacca, gritando rudemente: — Eh! Ladina! Sinhô moço qué leite*? perguntou o escravo a Octavio, revirando para elle os olhos, cujo branco amarellado sobresahia do fundo escuro do seu rosto.. Octavio esvaziou um copo acabado de encher. — Eh! sinhô moço já não se lembra de mim! — Como se chama você? — Eu? eu me chamo Theodoro, sim sinhô... — Theodoro. — Theodoro pequeno... o Theodoro grande já morreu, sim sinhô. — Ah! o filho deNarcisa!. — Sim sinhô. — Perfeitamente, pois então não me havia de lembrar! O negro ria, esfregando as mãos, e depois com um modo embaraçado: — A gente já maginava que mecê não havéra de vortá. — De que morreu o Theodoro grande? — Foi obra de feitiçaria, sim sinhô.. — E sua mãe? — Essa tá com aiva (') da cegueira. já não véve aqui não sinhô Sinhô grande vendeu ella, pVa seu Antune — Ah. — Berganhou ella com uma pareia de besta Octavio trocou mais algumas palavras como Theodoro e seguiu para a horta, cercada de muros, com uma porta estreita pin— (l) Alva, moléstia incurável.
tada de verde, entre-aberta. Logo á entrada, seguindo em linha recta por toda a grande extensão da rua, havia uma parreira coberta de folhas, e aos lados, de vez em quando, uns pés de rosas de todo-o-anno, com as suas flores aromaticas, onde esvoaçavam singelas borboletinhas brancas ou côr de palha. Ao centro do terreno, uns canteiros estreitos e um ou outro arbusto. Tomando por uma rua de marmeleiros, Octavio foi ter com a mãe, que estava longe, arrancando com as duas mãos pela rama escura uma formidável beterraba. Aqui e além, os grandes bouquets azues das hortencias, punham alegria nos canteiros. Nas fazendas, a horta confunde-se, geralmente, um pouco com o jardim,; plantam-se. rosas perto de nabos, e desabrocham lirios junto de repolhos. A horta de Santa Genoveva era pomar, horta e jardim, tudo encerrado entre muros e afastado da habitação. O hortelão era um negro velho e calvo, o Torquato, que já não podendo trabalhar com desembaraço no café, era aproveitado alli. Octavio reconhecia tudo: nem mesmo as plantas pareciam ter variado, somente o hortelão era outro; o velho Thòmé de outr'ora tinha morrido, naturalmente, pois já não estava em edade de ser vendido ou barganhado por um animal qualquer... Octavio approximou-se da mãe, ajudando-a muito risonho a colher a verdura.
Sentia-se leve, contende; respirava a plenos pulmões o ar fresco da manhã, tinha as mãos molhadas do orvalhp das plantas em que tocava, via o rosto sereno da mãe banhado^lg suavidade como a physionomia das santas dos altares. Despediram-se á porta; ella ia ainda vêr a criação, elle caminhar sem destino. Octavio, ladeando o muro da horta, foi até á porteira, abriu-a e desceu por uma rampa escalavrada, onde um ou outro pede herva, meio mastigada pelos animaes, punha manchas de um verde sujo. Na terra avermelhada e muito secca rolavam crioulinhos nús, de ventres enormes e umbigos salientes; em baixo, no sopé da coluna, estendia-se o tanque, muito sereno e espelhado; parou ahi um pouco, fez com que entrassem na água uns marrecos que passeavam pachorrentamente na margem; seguiu d'ahi, por um caminho estreito e embrenhou-se na selva. A pouco e pouco foi-se vendo cercado anais de perto por folhagens espessas de um verde denso. Sobre a sua cabeça havia uma abóbada cerrada, por onde mal se descortinava o céo. Tudo verde! um verde brilhante, um verde uniforme, que lhe dava a impressão de se achar dentro de uma esmeralda immensa! A própria luz do sol, coada pelas ramagens -cahia esmeraldina por aquelle recinto, onde cada arvore tinha mais arrogância e mages-
tade do que as mais imponentes columnas dos templos sumptuosos. Sobre a terra pegajosa e humida, estendiam-se aqui e alli tapetes de musgo velludoso, de um verde tenro, e o aroma da baunilha suave e dulcissimo voava pela floresta. Ao canto das aves, canto que parecfás gemer uma prece, acompanhava cá em baixo num ritornello grave, o riachinho estreito, que ia em gorgolhões sobre seixos e troncos quebrados, atravessando a matta. Nos recantos mais sombrios, a atmosph.ra abafada tinha um cheiro forte de folhas apodrecidas, que em camadas sobrepostas se agglomeravam no chão. Subitamente Octavio parou encantado: deante d^lle ia e vinha, ora num vôo alto,, ora num vôo baixo, uma borboleta grande, de azas azues com arabescos de ouro. E logo atraz veiu outra, egualmente formosa. Eram? borboletas assim que na Allemanha ornamentavam os museus, como- preciosidades raras, espalmadas, immoveis e tristemente frias, sob os vidros das montres, na fixidez e taciturnidadedas cousas mortas; ahi estavam agora deante dos seus olhos, palpitantes, ligeiras, caprichosas, tremulas, ora aqui, ora alli, ora acolá, já na sombra, já feridas por um raia de sol cahido através da ramagem opulenta do arvoredo. A' borboleta seguia-se o beija-flor iriado, ave feita de luz e de aroma, todo delicadeza
e ternura,-que parava um momento s igando o roxo manacá,com o corpo no ar e o fino bico enterrado no cálice da flor. Mais adeante, transposto um regato, Octavio viu aninhada na folha concava de um tinhorão uma família de insectos multicòres, redondos, luminosos, como um monte de pedrarias deitadas num porta-joias de esmeralda. E por toda a parte verdura, verdura nas palmas grossas dos coqueiros e nas rendas moles dos fetos; verdura nas folhas dos cipós intrincados, nas copas das arvores, no musgo e no limo do chão e na água espelhenta e parada das poças. Octavio lembrou-se do seu amigo, o estudante allemão, que tantas vezes lhe fizera perguntas sobre as cousas do seu paiz, e lhe abrira a curiosidade por tudo que lhe tinha sido out^ora quasi indifferente, c o ensinava assim a adorar a natureza como a pródiga mãe de tantos benefícios! Fora ao bafejo der espirito d^quelle intclligente repaz que o seu se desenvolvera e aprendera a amaraevotamente a terra! Depois de ter andado muitov Octavio foi sahir num terreno espaçoso, acima de uma collina que se via aos fundos da casa. Dera uma grande volta sem sentir cançaço; desceu até o valle para de novo subir outra ladeira que o levasse á escada paterna. Embaixo desusava o rio que movia o rnoinho, e ao
4€ pé da ponte estava a casa de banho edificada de novo. Octavio recordou-se de que havia alli por perto umas pedras, onde elle, em pequeno, costumava sentar-se a pescar uns mesquinhos lambarys para o cuscus da ceia. Vinte passos adeante deparou com ellas, meio limosas, sobrepostas umas nas outras, sombreadas pelos braços de uma figueira braA ar num pequeno espaço muito menos pittorescodo que se lhe pintava na imaginação. Decididamente as saudades mudam o aspecto ás cousas, pensou o moço, e voltou olhando machinalmente para uma folha que arrancara da figueira e que levava entre as mãos. Ao approximar-se da ponte ouviu ranger a porta dobanheiro e, levantando os olhos, viu a prima que sahia com os cabellos ainda humidos, desatados, cahindo como um manto pesado e negro até a orla do vestido branco. As águas e as arvores romurejavam como a segredarem-se amores. As aves cantavam com alegria e naquelle concerto de harmonias, entre sombras, perfumes e luz, Octavio estremeceu de surpresa^ como o primeiro homem estremeceria no paraizo vendo deslumbrado surgir deante de si, brilhante e bella, a primeira mulher. — Eva! disse elle quasi com timidez. A prima sorriu-se e estendeu-lhe a mão. Seguiam ambos, ao lado um do outro, em direcção á casa, quando de repente Eva parou e disse:
— E' verdade! o primo ainda não viu a sua maman ('); olhe, coitadinha, ella mora bem perto, vamos lá? — Obrigado por me lembrar esse dever... Octavio corou por se ter esquecido da pobre mulher; depois, desculpando-se: — Ella devia ter-me procurado hontem mesmo... — Não lhe faltariam desejos; mas a infeliz está paralytica. — Sim?! —- E' verdade. Deu-lhe um ataque e desde então não se tornou a levantar. — Pobre maman! Continuaram em silencio até perto de uma casa de barro, sem janellas, onde a ama, sentada no chão ao pé da porta, escolhia arroz numa peneira, cantando, com um fio tremuloe finíssimo de voz. A doença envelhecera-a muito; estava mirrada, com a carapinha branca e as faces engelhadas que nem herva secca! Assim mesmo trabalhava e cantava, occupàndo sempre as mãos emmagrecidas e avozinha débil como a de uma criança! Não que lhe dessem tarefa: pedia-a ella ás outras companheiras para alhvial-as do trabalho. — Maman! disse Octavio com os olhos rasos d'agua, chegando-se para ella. A velha estremeceu, fixou no moço os seus olhos fulgurantes, onde toda a sua vida (1) Maman é o nome que os paulistas dão ás pretas que os amamentaram.
parecia concentrada, a peneira cahiu-lhe das mãos e ella agitou os braços, suffocada de choro, a chamal-o para bem perto de si. Octavio approximou-se, ella abraçou-lhe os joelhos. Era d^quella velhinha paralytica das pernas, imprestável, atirada como um caco velho para um canto immundo, que sahiá ã maior manifestação de júbilo pelo regresso de Octavio. Todos os outros o haviam recebido com um sorriso apenas; ella acolhia-o com lagrimas! Eva deixou-os a conversar, livremente, e foi sósinha para casa. Octavio sentou-se na soleira, perto da paralytica que lhe beijava as mãos com respeito, que o fictava com ternura, num êxtase, num embevecimento! A ama fallava-lhe em cousas da i ífancia, perguntava se não lhe mandavam nas cartas as saudades que ella pedia e queixava-se de lhe não darem as d'elle! Depois elogiou muito Eva, concluindo: — Ah! como eu gostava que mecê casasse cwwella! Quando Octavio voltou para casa, encontrou o pae impaciente pela sua demora. Devia-se almoçar ás nove e eram quasi onze horas. Além d'isso o commendador tinha promettido na véspera, ao Antànes, ir com o filho no dia seguinte jantar a cidade, em cdsa. da viuva Teixeira.
Mesmo á mesa o informou de que a viuva •era irman do Antunes, possuidora de uma fortuna invejável e mãe de uma menina que era mesmo um peixão!, E aífirmou: — E' a mulherrnais bonita de todo o município! — Eu não acho! contestou Noemia. — Noemia é mais bonita, disse com ironia Nicota. — Eu não! mas sempre tenho mais graça; Sinhá é uma pamonha., no collegio nunca sabia as lições! O commendador declarou que a Sinhá tinha muito bonitos modos, sendo muito:séria e muito concentrada. Findo o almoço demoraram-se com os preparativos. Octavio ia enfadado. Não tivera.airida tempo de repousar em família, nem de vêr á vontade todos os recantos de Santa Genoveva, de que tanto se lembrava na Europa. Quando deixaram a fazenda, era uma hora: o sol estava quente, havia pó, e Octavio sentiu somno. Entretanto,o pae ia-lhe a traçar a biographia da família Antunes. — Era bôa gente e fina. — Mas então porque foi elle feitor? — Ora! isso aconteceu; são épochas; naquelle tempo não tinha recursos., hoje está bem. — Alguma herança? — Sim, um filho deixou-lhe uma fazenda, muito mal tratada, mas que elle poz logo a
direito e o caso é que tem enriquecido! Depois a irman também o ajudou, elle é que trata dós negócios d^lla... — A h... e Octavio bocejou. Era viuvo o Antunes? — Não. — Então o filho? — Era natural. — Ah! novo bocejo, até que já sem for^ça Octavio deixou-se adormecer, rc'costando:se no fundo do troly coberto. Acordou á entrada da cidade, abalado pelas pedras das calçadas, endireitou-se, sacudiu o pó e ás três horas pararam á porta da viuva Teixeira. Entraram, e, recebidos pelo Antunes, foram para uma sala da frente, á direita, onde já estavam vários homens a tomar cerveja. Alli ficaram, estupidamente, até que os foram chamar para o jantar. Foram então ter com as senhoras, reunidas perto da mesa. Entre varias amigas, a irman do Antunes parecia radiante, rindo a uns segredos das companheiras, máu grado a seriedade do seu ainda rigoroso lucto de viuva. O Antunes apresentou Octavio aos convidados e família. A Sinhá mal respondeu aos cumprimentos, conservando-se numa attitude impassível. Era realmente bonita, alta, bem feita, com olhos escuros, grandes e ramalhudos; clara, córada, correcta de feições, mas de uma ímmobilidade tal de physionomia, que Octavio desviou o olhar como se tivesse fixado
uma morta. Obsequiaram-n'o; a dona da casa olhava para elle com ares maternaes; o Antunes* fadlou-lhe da riqueza da irman e do dote da sobrinha; um anjo, a Sinhá! elle recebia e Ouvia tudo sem ligar sentido a algum plano Ocçulto. Voltaram tarde para Santa Genoveva; quando chegaram era meia-noite. Todos dormiam em casa, excepto a mãe, que os esperava, a embalar-se na rede.