Capítulo XXXI A Família Medeiros · Capítulo 31 de 42
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Capítulo XXXI

XXXI Quando Octavio chegou á cidade, amanhecia. Pelas janellas entreabertas appareciam cabeças curiosas. Aqui e acolá, um mais affoito, atrevia se a atravessar a rua ou seguir mesmo até o logar em que se passara uma medonha scena de sangue. Poucos minutos depois, Octavio parava em frente á casa do juiz. Na calçada fronteira algumas pessoas commentavam o tristíssimo caso, olhando para as janellas sem vidros, as paredes esburacadas pelas balas e pelas pedras dos assaltantes; a porta arrombada, cahida para traz, mostrando o corredor escuro por onde duas horas antes se precipitara, sedenta e barbara, a multidão dos assassinos. Entre os espectadores da rua, achava-se o dono da loja de ferragens, que, vendo Octavio apear-se do animal, atravessou pressurosamente a rua, indo dizer-lhe: — Que desgraça, meu amigo, e que verf onha! Que hão de dizer lá fora, quando souerem d'isto! E lembrar-me que fui eu, eu! quem forneceu a toda esta gente os instrumentos para o crime! — Está então tudo acabado, não é verdade? — Tudo! Octavio estremeceu; o ferragista continuou:

— O caso foi assim: Acordei ás quatro horas, ouvindo um barulho de tiros e gritaria. Chamei o moleque e mandei-o saber o que era. o moleque viu tudo. foi-me dizer, eu vim e encontrei uns amigos que já estavam cá e me disseram o mesmo. uma desgraça! que hão de dizer de nós lá fora! Quer entrar? Vamos.. eu já lá estive, entre, olhe, venha commigo! — Mas... poderemos entrar assim? e a auetoridade? — Ora! se é a própria auetoridade que está morta 1 — Pois sim, entremos. Atravessaram juntos toda a casa, por entre trastes quebrados, espalhados, cahidos, nodoas de sangue e estilhaços de vidro. Estendido no quintal, sob uma das janellas, estava o cadáver do juiz, hirto, mutilado, medonho! Grupos de curiosos conversavam no quintal, em frente ao assassinado; alguns de condição inferior espreitavam do muro. O ferragista explicava: — Veja o senhor! quanta pancada levou este infeliz! e algumas vibradas pelos próprios parentes! A um gesto de incredulidade de Octavio: — Pois então? Na turma estavam muitos lavradores da familia... E ennumerou uns poucos.

— Olhe, quem presenciou tudo foi alli aquelle moço. O'seu Jucá? faça favor? venha cá 1 Seu Jucá approximou-se. Era um rapaz ainda novo, intelligente, de olhar experto, filho de um fazendeiro de Mogy das Cruzes, e que andava á escolha de sitio por alli. Um instante depois ouvia Octavio a narração succinta dos factos. A seus pés, hediondo, coberto de nodoas e sangue coagulado, estava o corpo do juiz numa tira de sombra projectada pelo telhado. O grupo dos commentadores engrossou: já não era só um a contar a historia, eram dous, quatro, cinco, dez! Affirmavam todos o mesmo: A's quatro horas da manhã subiram, reunidas e armadas, do pasto do Simões Rodrigues, cerca de cento e tantas, a duzentas pessoas. E assim, arrebanhados ainda alguns amigos pelo caminho, chegaram á casa do juiz; cercaram-n'a, entrando muita da gente á força, pelos fundos, dando tiros, arrombando portas c gritando: «Deita capara fora os nossos escravos! Appareçam os abolicionistas /» Vendo-se ameaçado, o juiz tentou fugir e aconselhou á mulher que se salvasse com os filhos. A pobre senhora atirou-se por uma janella, o marido seguiu-lhe o exemplo, mas desgraçadamente, esperavam-n'o já em baixo, no quintal, os seus assassinos. Principiou então com toda a ferocidade a negra acção do crime! Espancaram, mutilaram, estrangula-

ram a victima, sem attenderem aos rogos da infeliz esposa, que se arrastava de joelhos, implorando misericórdia 1 A' sua voz dolorida, transtornada pelo pavor e petas lagrimas, unia-se a voz chorosa e doce de uma filhinha innocente; mas os sicarios respondiam-lhes com termos injuriosos, redobrando os golpes, na sanguinolenta fúria. Só quando viram tudo em destroços-, ruinas, sangue, vergonha e dor irreparável, foi que elles sahiram, felizes, satisfeitos da sua obra. Raiava serenamente a madrugada. Octavio ouvira tudo isto commovido, com os oljjos fixos no morto. — O que é extraordinário, dizia um, é que a policia não appareceu! — Pudera! exclamou ironicamente um outro, se o primeiro supplente do delegado, logo aos primeiros tiros, íoi á cadeia prohibir a guarda que sahisse! — Oh! — Como? — Dizendo ao sargento commandante do destacamento que o grupo era muito grande, a cadeia tinha muitos presos, e que dizia aquillo por ter sido elle, o supplente, nomeado delegado! — Oh! diabo! — Que me diz, homem! — A verdade.

Soltaram exclamações de indignação e a biographia do supplente foi exposta é commentada por varias pessoas do logar. A claridade do sol approximava-se, lambendo já os pés do cadáver. Octavio estendeu machinalmente a mão ao lojista e ia retirarse quando ouviu a um dizer: — Aquella pancada na cabeça foi dada pelo capanga do José Ribas. um tal Fructuoso... — E1 exacto! confirmou o outro; e que demônio de força, hein! — Elle não se contentou de matar; roubou também; que eu vi elle saltar a janella... — Eu também vi... com uns papeis... — Que vergonha! murmurava o lojista, abanando melancholicamente a cabeça; que hão de dizer de nós lá fora! Aquella preoccupação acabou de impacientar Octavio. O nome do Fructuoso abalara-o. Lançando um derradeiro olhar de compaixão ao morto, sahiu. Ia terrivelmente impressionado; tudo lhe parecia alli ignóbil,—homens e cousas; enojava-o aquella terra; olhava para as casas, como se todas fossem antros de assassinos, e em qualquer recanto de paizagem, por mais sereno e commovedor, parecia-lhe distinguir um negro vestígio de conspiração e de intriga! Montando a cavallo, seguiu a galope pela estrada do Sertãosinho; mas, logo no começo

teve de parar: vinha o pagem do cunhado, que lhe disse ir chamar um medico. — Nhonhô tá qui nem morto! tá mesmo sem talento (i) nenhum! — Meu pae está em casa? — Tá, sim sinhô. — E o coronel Ribeiro? — Também tá lá! — Bem. Em vez de seguir para casa, Octavio tomou o caminho do sitio do José Ribas. A sua presença aggravaria talvez o estado do marido da irman; além dMsso urgia arrancar do maldicto Fructuoso a promettida prova. Repugnava-lhe ter de pedir aquelle homem uma palavra, em que repousaria toda a sua felicidade futura. E que confiança poderia elle depositar nessa palavra? Deixnr que aquellcs lábios mentirosos e impuros pronunciassem o querido nome de Eva, era já uma profanação! Mas era preciso. E se acaso o Fructuoso a apontasse como auctora d'aquella baixeza, dar-lhe-ia elle credito? tapar-lhe-ia a bocca, e havia de chamal-o infame? Desceria á violência e por mais que ouvisse repetir—foi Eva, Eva! elle diria—não, não e não! Pensava em tudo isso e continuava a galopar para a fazenda do José Ribas. (1) Talento—-iynonimo do Um-ü

Ha na vida de toda a gente, mesmo na dos mais sensatos, uns momentos de loucura, em que fatalmente se cae nas mais absurdas contradições! A razão diz-nos: « E' inútil! não faças isso! » Mas lá desponta no intimo uma duvida mysteriosa, um quem sabe? a impellir a acção, mesmo contra a vontade! Era o que succedia a Octavio. Chegando á casa do José Ribas viu a uma janella a mulher com quem fallára na véspera, caseira do sitio. — Poderei hoje vêr o Fructuoso? perguntou-lhe o moço. — Ué! que speranca! mecê é desinfeliz. (i) — Porque? — Porque tá campeando (2) elle atoa! — Já se foi embora?! — E1 á! gente! desde já hoje de menhãsinha. — E quando voltará? — Não vorta mais; aquelle só qui qué é anda vira-virando! — Mas elle disse que não voltava? tem certeza d'isso? — Não disse, mais nois viu; arranjou os trem d'elle mal e má, fallou com nhô Zé e sahiu! (1) Infeliz. ('A Procurando.

Octavio, perplexo, maldisse a sua ingenuidade. O Fructuoso enganára-o duas vezes' affirmando ter uma prova que não possuía e emprasando-o a procural-o numa hora em que já tencionava estar longe! Para onde teria ido o caipira? E para que procural-o? Tornaria a ser enganado, duas, dez, vinte vezes, c escarnecido outras tantas! Era uma lição. Pobre Eva! por que mundo de baixezas arrastavam o seu nome! Quando Octavio entrou em casa, perguntou á irman pelo doente. — Elle está muito desinsoffrido (i); o medico disse que é um ataque de cabeça; venha vêr. O Trigueirinhos cocava as pernas queimadas dos synapismos, fazendo tregeitos com a bocca e revolvendo-se todo. Ao deparar com o cunhado pôz-se a dizer embrulhadamente: — Eu não sou cúmplice! Eu não matei ninguém! Juro! Juro! sou incapaz de semelhante infâmia! O medico á cabeceira procurava acalmal-o. Ouvia-se pelo corredor o rumor das saias das senhoras que iam e vinham em bicos de pés. A' tarde Trigueirinhos cahiu num somno reparador. (1) Insoffiido.

Dias depois o medico aconselhava a que tirassem o doente dtalli, que o transportassem para outra terra, ao_menos temporariamente. A familia Medeiros deliberou então voltar f iara Santa Genoveva, com a Nicota e o enermo. Elle, como um idiota, não se oppunha; deixava que o movessem, sem protestos. O terror espalhara-se por toda a cidade. Só se fallava no crime; via-se sangue em todas as mãos, mentira em todas as caras. As famílias fugiam medrosas e horrorisadas; o logar ficava deserto Emquanto os pães e irmans seguiam directamente para a estação, Octavio foi despedir-se do lojista quo o tinha sempre distinguido. Achou-o cercado por meia dúzia de sujeitos, que lhe iam bebendo o café e perguntando cousas. — Em todo o caso foi uma lição, dizia um. — Não acha que era muito perciso um exemplo d'estes? interrogava outro, voltandose para o dono da casa; e elle, com energia: — Certamente! De agora em deante, os taes pescadores de águas turvas, hão de ter mais cautela.... Octavio sahiu ennojado; o lojista comprehendéu-o e foi alcançal-o na primeira esquina; ahi, depois de olhar precatadamente para um e outro lado. disse, numa voz baixa e assoprada: • — O senhor comprehende.. se eu contrariar a opinião d'esta gente terei de fechar a

casa! Os lavradores são os que nos sustentam! Octavio respondeu-lhe evasivamente e continuou o seu caminho, repetindo mentalmente a phrase, que tantas vezes ouvira aquelle mesmo homem, em tom indignado e emphatico: — « Vergonha! Que hão de di\er de nós lá fora /»

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