Capítulo VII
VII Octavio tinha trocado algumas palavras com a prima, quando Noemia atravessou o jardim, correndo em direcção a ambos. — Uma carta para Eva, do Mangueiral, disse. Eva avançou e, desdobrando sem precipitação o papel, leu alto: « Peço-lhe que venha immediatamente ao Mangueiral; a família do Raymundo quer-se ir embora por ter tido uma rixa com a do -Salomão. E' a mellfbr gente da colônia e faznos grande falta agora. Seu irmão dedicado, Paulo. P S.—O Dr. Azevedo appareceu hoje cá c segue á tarde para a fazenda do Leocadio. Venha sem falta, sim?» A leitura fora feita sem o menor constrangimento. Octavio afastou-se calado, voltando-se ao ouvir Eva dizer: — Sua mestra estará disposta a acompanhar-me? — Ainda não dei a lição... mas se eu pudesse ir também! Querendo desviar a idéa de convidarem a Grüber, Octavio offereceu com a da irmã a
sua companhia, olhando fixamente para Eva, que esperava ficasse contrariada. Mas não j ella sorriu se, acceitando alegremente a proposta. — Vamos a cavallo? Eu cá prefiro ir a cavallo, confessou Noemia. — Mas tio Medeiros consentirá?.. perguntou Eva. — Que nós vamos a cavallo? — Não! Que vão commigo ao Mangueiral... Sempre fui só com.. — Ora, interrompeu Noemia, Octavio já disse que eu ia também, e pae desde que vá um homem não põe duvida! Quando subiram, já Octavio tinha contado ao pae o oceorrido. Contra a sua espectativao fazendeiro approvou a ida dos filhos ao Mangueiral, o que era a seu ver uma espionagem. Unicamente lembrou que seria melhor ir Nicota em vez de Noemia; a filha mais velha era mais ajuizada e contava as cousas com mais propósito. — Como queira, respondeu-lhe Octavio. O fazendeiro fez saber a sua deliberação. Noemia, muito influída, chorou quando lhe disseram que, em vez de ir pclà primeira vez fazer um passeio grande a cavallo, tinha de ficar presa naquelle maldicto casarão. Valeulhe pouco depois saber que Nicota passara a noite em claro, com dôr de ouvidos, e que não sahiria da cama durante o dia. Irreflectidamente bateu as palmas, deu uns saltinhos
que provocaram cabriolas do Júpiter e do Vinagre e foi de olhos mal enxutos, mas radiante, preparar-se ao seu quarto. Eram nove horas quando sahiram. Ficava na mesa o almoço: o viradínho (') de feijão, o lombo de porco, as hervas, a passóca (2) e os ovos. Iriam almoçar ao Mangueiral, duas horas e meia mais tarde. Sentaram-se á mesa unicamente o commendador e a esposa A mestra sentia dores de cabeça e, ao despedir-se de Eva no —até á noite—, abraçou-a com ternura. Bello caminho, o de Santa Genoveva ao Mangueiral, aberto de pouco em mattas virgens, cheio de frescura e de sombra. De vez em quando um campo a atravessar, banhado de luz e de calor; depois, de novo a estrada, protegida pelas arvores das margens. Noemia ia na frente, espantando com gritos os pássaros, accelérando e diminuindo' a marcha do animal que montava com imprudente afoiteza. Advertiam-n'a, em vão, do perigo. Octavio, ao lado da prima, ouvia-a fallar com amizade da pessoa que na carta lhe dera o nome de irmã. — E' um filho adoptivo de meus pães, dizia ella, orphão desde pequenino. Criámonos junetos, tivemos os mesmos mestres e fo- (1) Feijão ou hervas, com farinha iJe milho e torresmos. (2) Carne moida, reduzida a farinha.
mos sempre muito, amigos. Paulo é intelligente e modesto. Meu pae, como o primo Octavio já naturalmente sabe, deixou-o encarregado de olhar pelo mangueiral. Ao tio Medeiros-é que ficou um legado impertinente, tendo de darrme os seus cuidados e a sua protecção. Octavio estremeceu ouvindo as ultimas palavras de Eva. A protecção e o cuidado de Medeiros para com a pupilla eram desgraçadamente irrisórios. Que terrível legado, tão cheio de responsabilidades! E que bella reconciliação a proEosta pelo moribundo! Como devia ter sido ora e crente aquelle homem, para, ao fechar para sempre os olhos, apontar com mão tremula, á única filha, a casa de um inimigo coma o único asylo para a sua orphandade e consolo para as suas lagrimas! Que alma generosa fora a d^sse trabalhador vencido, que, tendo lüctado, soffrido rivalidades, inyejas c injustiças talvez, ainda tinha, já velho e ao avisinhar-se o momento de vestir a mortalha, a ingênua boa fé de uma criança! Imaginara a sua orphã rodeada de aíFectos, entre umas creaturas da sua edade que a afagassem e que lhe dessem o doce nome de irman. tivera uma visão, um ultimo sonho de ouro, bonito, realisavel, mas irrealisado desgraçadamente!
Octavio trocou mais algumas phrases com a prima até chegarem ao Mangueiral. Eva, indicando o caminho,poz-seáfrente. Seguiram por uma rua larga de bambus e foram sahir num parque cheio de sombra, encantador de musgos, água e relva, sobre o qual as mangueiras estendiam os braços num espreguiçamento voluptuoso. Ao fundo, coberta de sylvina, a casa de moradia apresentava um aspecto risonho, bem diverso das habitações dó campo paulista. Não mostrava, como as outras, aos quatro ventos, a nudez crua das paredes brancas; aninhára-se cm flores, rodeára-se de arvoredos, fazendo mais restricto o seu horisonte, mais intima a sua posição. Cá fora não brincavam crianças sujas nem dormiam, cobertos de mosquitos, os cães ao sol; ouvia-se o murmúrio da folhagem e o correr vagaroso da água numa bacia de pedra. Pelas janellas, cerradas ao calor, evolava-se o som de um violoncello. Pareceu a Octavio vêr deante de si uma cottage ingleza, elegante e discreta. — Paulo está estudando; não me espera tão cedo! d''sse Eva. E foi bater com o chicotinho nos vidros da janella. Soltando uma exclamação de prazer, Paulo veiu á porta, acompanhado do Azevedo, muito risonho. Feitas as apresentações c os primeiros cumprimentos, dirigiram-se para a sala de musica.
Paulo fazia as honras da casa. Era um rapaz sympathico, sem ser bonito. Trigueiro, olhos pretos, alto, magro, bocca rasgada, emsombrada por um pequeno bigode preto, voz máscula, forte, e ao mesmo tempo suave. O Azevedo approximou-se de Noemia e de Eva, fazendo phrases madrigalescas. — Olha, Paulo, interrompeu rísonha a dona da casa, nós ainda não almoçámos! — Deveras?! e Paulo ia a erguer-se, quando Eva o reteve com um aceno e levantando-se caminhou para o interior. Noemia acompanhou-a, acanhada de ficar alli sem ella. A conversa entre os rapazes começou animada. Octavio ouvia com prazer as palavras fáceis e Sensatas de Paulo, que expunha idéas íerfeitamente de acordo com as suas, reve- '. ando acerto, energia e pleno conhecimento da avoura, de que era amigo extremoso. O Azevedo contestava que fosse a lavoura cousa digna deenthusiasmo.—Seria a mais rendosa, dizia elle, mas por isso mesmo não merecia a adoração de espíritos superiores. Paulo aífirmava o contrario: não havia proiissão mais bella que a do lavrador; é certo que mal comprehendida até então; mas um dia viria em que a rotina podre cahisse e em que a transformação do trabalho a elevasse á altura onde era de justiça ser levada. Octavio apoiava-o, e a discussão seguia animadamente. Depois o Azevedo principiou
uma conversa, cujo assumpto parecia interessar vivamente a Paulo, e Octavio Medeiros., observando tudo que o cercava, estabelecia a comparação entre a fazenda de Eva e a do commendador. Alli tudo era differente, tinha tudo um cunho original e alegre. A mobília, de palha com espaldares claros,disposta artisticamente; o divan de linho de ramagens vivas, a um canto, perto de uma jardineira de cortiça, tapada nos três taboleiros por graciosas hastes de avenca e fetos rendilhados; o piano alto, coberto de casimira cinzenta com applicaçÕes de seda; o violoncello ao lado do piano, jurictode uma estante de mosaico ede um jarrão cheio de rosas frescas; a mesa redonda, sólida, sobre a qual se viam revistas musicaes e retratos de maestros celebres; as cortinas transparentes barradas a matiz; todos os objectos, emfim, revelavam que a mão que os dispuzéra tinha o tacto artístico, tão raro na província. Octavio admirava, ora a frescura de uma aquarella, onde, sobre o verde tenro de um pasto novo, bab".va em fio uma vacca malhada; ora os tapetes, bordados num desenho chinez e extravagante, esquecendo-se dás apprehensões do pae e a reflectir na felicidade de quem gosasse naquella casa as doçuras da vida de família... Voltou depressa a prestar attenção á conversa.
Referindo-se aos escravocratas, exclamava o Azevedo: — Que diabo! elles põem-me ás vezes a caheça a juros; se não, vejam: Um dia d'estes appareceu-me lá em casa, cortado de bacalhau e com ferros ao pescoço, um negro, ainda forte, do Antunes. Paulo dá-se com elle? — Com o Antunes? — Sim. — Conheço-o apenas de vista; nunca lidei com elle. — Ora, ainda bem! Pois, como ia dizendo, appareceu-me o negro queixando-se de máos tratos e expondo á minha compaixão o corpo emmagrecido e retalhado. Mandei tirar-lhe os ferros, cural-o; dei-lhe cama, jantar, e, como do legado do Sr. Gabriel restassem ainda setecentos mil réis, escrevi ao Antunes propondo por esse preço a liberdade do escravo. Respondeu-me com uma tremenda descompostura, exigindo-me a entrega do negro. Nem por um conto o vendo, dizia elle na carta, eu cá o ensinarei! —Interroguei o preto: era africano; exultei de júbilo: a lei favorecia-me. Sem mais barulho dei liberdade ao desgraçado, pondo-lhe na mão a cópia da lei de i83i que pronibiu o trafico dos africanos. Os setecentos mil réis ficam á espera de qualquer outro escravo que tiver o infortúnio de ter nascido no Brasil.
— E o Antunes? perguntou Paulo com um modo distrahido, mandou-lhe novas ameaças, já se vê. — Ora! com isso contava eu. O diaba do homem quiz e chegou mesmo a fallar em processar-me! Trabalho inútil. O advogado aconselhou-o a que mettesse a viola no sacco, ao que, segundo me consta, elle não se resigna. Procura por todos os meios fazer-me mal, e, como tem amigos influentes, talvez o consiga. Nunca fiz alarde de abolicionista; tenho alforriado, é certo, meia dúzia de escravos, de acordo sempre com os senhores e na qualidade de testamenteiro. Evito, tanto quanto posso, manifestar as minhas idéas em semelhante assumpto. E' este o primeiro desgosto que tenho tido aqui... — E Eva, perguntou Paulo, sabe d'isso? — Certamente, indo lá jantar um dia a Santa Genoveva, disse-lhe o que havia e, por ser filha do legatario, perguntei-lhe a sua opinião. Approvou a minha idéa, promettendo escrever-me no dia seguinte e enviar uma certa quantia para a libertação de outro qualquer escravo que reclamasse o meu auxilio. Felizmente não tornou a apparecer nenhum... Sua irman, continuou o Azevedo constrangidamente, dirigindo-se a Paulo, manifestou a intenção de ceder todos os annos uma quantia para o mesmo fim. — Já me fallou nisso. — E não quiz despersuadil-a?
— Não. Está no direito de o fazer; cede o que lhe é supérfluo. Eva é simples e gasta pouco comsigo. Do que eu a despersuadi foi de o incumbir d'essa tarefa; ella não reflectiu que no meio em que vivemos isso poderia ser prejudicial ao amigo. O Azevedo não pôde encobrir um movimento de allivio; Paulo continuou: — D'aqui em deante tomo á minha conta o desempenho d^ssa missão. Contaram depois a Octavio que o finado Gabriel Medeiros, seu tio, era homem de coração e de fortuna, intelligente e activo, estudara com amor a agricultura, dedicando-se exclusivamente a ella. — Se tivesse seguido a rotina, dizia o administrador do Mangueiral, teria deixado maior riqueza; infelizmente os primeiros a revolucionar um systema inveterado ha annos não tiram grandes benefícios: os mais avançados na thcoria são sempre os que menos resultados alcançam na pratica. Emfim, fosse como fosse, o caso é que deixou üm bello testamento. — Que eu não li, acudiu Octavio. — Deveras? Tenho ahi a cópia e hei de dar-lh'a a lêr. Entre algumas esmolas particulares, deixou dez contos para alforrias, e foi a esse legado que se referiu ha pouco a doutor Azevedo. — Não tinha escravos? perguntou Octavio.
— Não. Adoptára o systema dos colonos. Teve ao principio grandes prejuízos, chegou a estar empenhado; mas., como era persistente, não desanimou e ^readquiriu em poucos annos o perdido.