Capítulo IX
IX Era já noite quando Eva, entrando na quarto da mestra, a encontrou a arrumar em uma grande mala cinzenta os seus muitos livros e o seu pouco fato. — Que resolução é essa?—perguntoulhe a discípula sem suspeitar a verdade. — Parto amanhã. — Para onde? — Para a Europa. A um gesto de admiração de Eva, a allemã arrastou para perto da mesa uma poltrona azul e fêl-a sentar-se nella; depois, apoiando na mesa as suas mãos esguias e nervosas,, fixou demorada e silenciosamente o rosto da orphã. — Sim, proseguiu; o dever obriga-me a partir amanhã... Se fosse possível sahiriá hoje mesmo. — O dever! mas qual é o dever que a faz deixar-nos assim, tão repentinamente? — E' justo que eu vá para o lado de minha mãe, balbuciou a pobre senhora, como se fallasse sósinha. — Recebeu carta d^lla, chamando-a? Madame Grüber respondeu com certoembaraço: — Sim... _— Faz então muito bem em ir já. Eu pedirei a Deus por ella e pela senhora...
A allemã voltou ao seu trabalho, e os olhos de Eva encheram-se de lagrimas. Como passaria agora as noites? A mestra era o seu refugio; na sua companhia corriam rapidamente as horas, aprendia deleitosamcnte nesses serões íntimos a entreter conversações úteis e despretenciosas; os seus bordados, os seus livros, os seus desenhos parecer-lhe-hiam monótonos e dificultosos desde que lhe faltassem o conselho, a influencia da amiga e o apoio de uma intelligencia superior. Respeitava-a, e nas horas de desalento, enfadada d'aquella casa sombria, onde estava condemnada a viver, naquella convivência da família que em vão procurava achar agradável, fora sempre o braço salvador da extrangeira que a impellira para o trabalho, como'o único consolo verdadeiro e a única distracção profícua. No meio d'essas reflexões, Eva ajudava a dobrar os vestidos, a guardar os objectos esparsos sobre a cama, sobre as cadeiras e sobre acommoda. Findo o trabalho, encostaram-se á janella, olhando sem fallar, para a escuridão da noite. — A que horas sae? disse por fim Eva. — A s nove. Venha ás oito horas ao meu quarto para nos despedirmos. Não esteja mais tempo aqui; vá descançar. Ao retirar-se para o seu quarto, EvaT atravessando o corredor, ouviu que na sala do fundo o tio discutia alto com o filho; pensan-
do na preceptora de Noemia, não prestou attenção ao que diziam. Octavio luctava, procurando convencer o pae da innocencia da prima e da pureza das suas intenções; descrevia o que vira, com enthusiasmo; exaltava o systema seguido no Mangueiral, punha em evidencia o critério administrativo de Paulo; applaudia de todo o coração aquella família generosa e verdadeiramente moderna. O fazendeiro impacientava-se. Não havia nada como a lavoura' de escravos. « Se o Gabriel fazia num anno vinte contos, eu fazia quarenta, ora ahi está! E não me importo com isso! cada qual quebra a cabeça á sua vontade! » Octavio referia-se ao pfoximo advento da abolição. Ria-se o fazendeiro, afürmando vir ainda longe a esperada redempção dos captivos. Deixem gritar os jornaes! concluía. Voltaram a fallar de Eva. Octavio procurou em vão demonstrar a sua bondade e isenção da culpa que se lhe attribuia. Perguntou depois pela extrangeira. O commendador contou-lhe seccamente o que se passara. Desgostoso com o filho, que via revoltar-se contra as suas idéas e resoluções, decidira não lhe fazer d'ahi em deante a minima confidencia relativa á lavoura nem mesmo á família; comtudo, deixou ainda transparecer o desejo de casar Eva quanto antes,
ou com o Azevedo ou com o Paulo, ou com o diabo! Octavio replicou que ella não era mulher que consentisse em casar á escolha de terceiro; era, porém, provável que amasse uma das duas pessoas citadas, e, nesse caso, applaudia a intervenção do pae. Apartando-se do commendador, elle foi pensando com tristeza nas suas ultimas palavras. Eva casar-se com o Azevedo! Que insensatez! Mas não reflectira elle já nisso, resolvido a protegel-os? E' que, nessa occasião, suppunha que elles se amavam; mas agora, que o juiz lhe tinha aclarado o espirito com a narração da carta, isso parecia-lhe absurdo. Eva merecia um homem superior e elle julgava o Azevedo medíocre!.. Eva casar-se com Paulo! que supposição extravagante! Mas afinal de contas, era uma cousa perfeitamente realisavel! Eram elles, porventura, filhos dos mesmos pães? Criados •junctos quasi desde o berço, amando os mesmos logares e as mesmas pessoas; ligados pela mesma educação, pelos mesmos factos, pelo mesmo passado, era natura-lissimo amarem-se e quererem continuar a vida em commum. Era um desfecho lógico... esperado talvez pelos pães de Eva, quando orientavam Paulo na administração da sua casa, elevando-lhe o espirito a um nivel superior, e formando-lhe tão bem o coração! Nisso viu luz no quarto da extrangeira; a porta estava en-
tre-aberta e ella escrevia em frente; vendo-ar Octavio dirigiu-lhe um cumprimento, pedindo-lhe a honra de fallar-lhe. Grüber levantou-se e foi ter com elle á porta. Octavio começou: — Deploro a sua partida, minha senhora, e rogo-lhe que disponha de mim como de um irmão ou de um filho. — Obrigada; estou habituada a luctar sósinha com todas as dificuldades, e, mesmo que o não estivesse, não desejaria incommodal-o, tanto mais que o senhor seu pae levaria isso a mal. — Meu pae é victima de um anonymoperverso, que teve a astucia suficiente para o desnortear; se elle não é um cavalheiro no trato social, é um homem honesto e prompto a retractar-se, desde que reconheça o seu erro. Se hoje foi impetuoso e rude, deixando-se levar irreflectidamente por uma intriga qualquer, amanhã será cordato, bondoso e humilde; tudo depende de saber a verdade inteira; a senhora não procurou talvez esclarecel-o... — Nenv procurarei jamais. A minha situação é melindrosa, e já agora incompatível com a d'elle. Abreviemos: agradeço-lhe o offerecimento, mas não devo, nem quero acceital-o; parto de madrugada para Santos. E' provável que não nos tornemos a vêr; fique, porém, certo de que, seja para onde fôr que a sorte me atire, ahi terá uma amiga.
Octavio curvou-se respeitosamente; a allemã estendeu-lhe a mão, que elle beijou e separaram-se; elle foi para o seu quarto, ella voltou para a secretária, onde continuou a escrever. No dia seguinte, quando Eva abriu os olhos, o sol entrava pela janella numa abundância alegre de calor e de lüz. Eram quasi sete horas; arranjou-se á pressa e dirigiu-se ao quarto da mestra. Bateu na porta, não lhe responderam; entrou. Mme. Grüber não estava lá. Tinha tambem desapparecido a grande mala cinzenta. Correu á janella: já nenhum carro! só os dois sulcos parallelos e fundos das rodas de um troly, em direcção á estrada. Afastou o cortinado; a cama estava ainda feita, com a colxa um tanto amarrotada e uma pequena cova, da pressão da cabeça, na almofada. Porque não se teria deitado Helena Grüber entre a frescura dos lençóes? Perto da janella aberta tinha ficado a poltrona azul de ramagens. Passaria a extrangeira parte da noite a olhar para as luminosas estrellas do céo airiericano? No balde de metal havia cinza de papeis queimados, a manchal-o de preto; no lavatorio estava ainda a bacia cheia de água e um copo com resto de elixir para os dentes. As gavetas abertas e vazias mostravam o fundo claro, de pinho; no chão, a um canto, fitas velhas, caixas de papelão rasgadas, e uma
golla servida, misturavam-se com uns malmequeres de panno; sobre a mesa redonda destacavam-se o tinteiro de porcellana branca e uma caneta de osso, negligentemente cahida no panno de flanella preto e azul. Em cima da commoda, ao fundo, estavam um busto em bronze de Goethe e uma carta em que a letrinha fina de Grüber traçara estas palavras: «Para Eva.» Eva abriu o sobrescripto, e, sentando-se na beira do leito, leu: « Minha querida.—Aproveito o silencio e a tranquillidade da" noite para lhe dizer adeus. Menti-lhe, Eva, menti-lhe pela primeira vez, dizendo-lhe que a veria ás oita horas, quando eu já tencionava partir de madrugada! E1 que me falta a coragem, a mim, que tenho sido tão animosa sempre, para este ultimo abraço! Geralmente, attnbuem ás mulheres da minha profissão a mais profunda indifferença pelas pessoas em cujas casas temporariamente vivem, cujos segredos muitas vezes surprehendem e cujas virtudes ou defeitos não desconhecem. A mestra acompanha e dirige a discípula, vendo só nisso o lucro material. O dinheiro é o que a liga á família.extrangeira, a quem, por calculo, desde o principio, pouco se une, para evitar probabilidades de futuros desgostos... Tudo o que ha de cari-
nhoso e terno na sua alma transforma-se com o exilio, com o abandono da familia, com a dura condição mercenária a que se tem de sujeitar, na consumidora e febril sede do ouro, com que se deseja libertar depressa. E então não vê, não pensa, não sonha senão com o seu futuro na pátria, deixando rolar a seu lado»as lamentações ou as alegrias, sem parecer dar por ellas! Eva não me fará a injustiça de acreditar-me-assim. Não parto porque tenha a minha independência feita; parto porque devo partir. Minha mãe está velha, é justo que me estenda os braços, a mim que sou de direito o seu único apoio. Comtudo, deixe-me dizer-lhe que não me julgo superior ao geral das mestras extrangeiras; vim resolvida a praticar o mesmo e sahiria de olhos enxutos se a não deixasse, minha filha (permitta-me dar-lhe este nome, que é o que expontaneamente sintorebentar-med'alma),se não tivesse encontrado em si um conjuncto de bondade, de intelligencia e de applicação, uma bella alma, emfim. Não é só a mestra quem faz a discípula, bem vê; é muitas vezes a doçura da discípula que vence todas as resoluções, por mais firmes, por mais ásperas qiie sejam. Creia que, de todas as recordações, será sempre a mais grata para mim a das horas em que, em sua casa, eu a ouvia e via, sempre attenciosa e distincta. Seja assim toda a vida, boa e calma', e ha de triumphar de
qualquer mal que lhe intentarem fazer, apesar de que na perversidade do muudo nem sempre os crédulos e os bons são os mais felizes! Eva não me comprehende agora: comprehende:-me-á mais tarde, quando tiver com a edade a pratica d'este tão bem denominado—valle de lagrimas! Continue a estudar
ella é o melhor dos livros e o mais puro dos mestres! Faça musica e desenhe. Segrede á arte as suas alegrias ou as suas tristezas, que ella será a mais doce das amigas, pelo menos a mais consoladora. Natureza e Arte são os dois formosos templos, onde em qualquer occasião encontramos um asylo seguro para o nosso espirito. Não se esqueça d'isto. Repito, minha querida,—procure ler bons livros. -•-Não lhe recommendo esta ou aquella escola. Todas cilas são boas, quando tratadas por um escriptor de talento e de convicção; todafifcellas são úteis, quando lidas por uma pess* que tenha o seu critério. Cosa, lide, passeie, dispense ás aves o carinho material que tão" bem revela, e escreva de vez em quando á^iíra velha amiga. ** Deixo-lhe, como lembrança das nossas palestras e serões*,' o busto' do poeta cujas obras traduzimos tantas vezes junctas. Sua dedicada—Helena Cirübev. »