Capítulo XIV
XIV A's oito horas, nas salas iluminadas e floridas movia-se a fina flor da sociedade da terra. A dona da casa, atrapalhada no seu vestido de gorgorão, com grande cauda e flores artificiaes no peito e no cabello, sentia-se vexada, tinha o andar molle, curvava-se para a frente, segurando nas mãos, calçadas em pellica branca, o seu leque de madreperola. Geralmente as senhoras paulistas apresentavam-se nos bailes num requinte de elegância e de luxo como se não vê facilmente no Rio de Janeiro. As suas toilcttes, importadas quasi sempre directamente de Paris, tinham, a par da riqueza, a graça e a originalidade. Educaram o gosto de vestir-se. Famílias, cujas casas não demonstravam o minimo vislumbre de gosto, tendo os interiores sem conforto e sem poesia, quasi vasios de moveis e completamente faltos de objectos artísticos, apresentavam-se nos bailes de uma maneira verdadeiramente seductora! As representantes da geração passada, senhoras edosas e ignorantes, não sabendo lêr, sabiam vestir-se com a seriedade e a distincção que a sua edade requeria. Um agente experto occupava-se, ainda ha bem poucos annos, em ir e vir de Paris com encommendas particulares, para uma cidade do' interior,
exclusivamente. Não tendo ainda a doce e bella idolatria do home, o espirito feminino occupava-se pertinazmente dos adornos pessoaes, não por coquetterie—de Índole honestíssima e recta e, de natureza, formosas, não necessitavam recorrer a isso—mas para satisfazerem uma caprichosa tendência do seu temperamento. Era nos bailes onde melhor se podia notar esta anomalia; nelles se reuniam as famílias mais importantes, com toda a pompa. Pena é que os cavalheiros não concorressem com egual requinte e esmero para o brilhantismo da sala! Os primeiros convidados a chegar á casa do commendador foram o Amaral e a senhora D. Clarinha, mulher formosa, com um par de olhos singulares, ora esmeraldas, ora turquezas, conforme o raio de luz que os ferisse, e as pestanas muito negras a sombrear-Ihe a alvura doce das faces; esbelta sem ser alta, graciosa, pondo na sua toilette violeta a gentileza de uma parisiense, e na noite negra dos seus cabellos, presos no alto, o luxo de um diadema de brilhantes. O marido, um rapaz trigueiro, de bigode farto e escuro e a cabeça pendida para o peito, por uma tensão dos músculos do pescoço, deixou-a no salão e foi para a saleta do jogo, onde o commendador conversava alto com. dois,amigos e co-religionarios políticos.
Os carros paravam á porta constantemente: entrou a viuva Camargo, a irman do Antunes, ainda fresca, no seu vestido de setim e rendas côr de saudade escura, os olhos muito brilhantes a inundar de alegria e luz as suas faces rubicundas e morenas; na frente, a filha, toda de claro, com a encantadora cabeça engrinaldada de flores e o pescoço branco, roliço e nú, a surgir altivo d'entre a espuma nitente das rendas finas. Octavio acompanhou-as até a porta da toilette, e D. Clârinha, já rodeada de amigas, apontou o grupo num riso malicioso. Entraram successivamente: a condessa da Fontenegra, baixa, gorda, segurando mal o vestido de velludo, com o cabello branco salpicado de pedras preciosas, rodeada de sobrinhas mais óu- menos bonitas; depois, as filhas do Edmundo Queiroz, a família do juiz de direito, as dos Drs. Lima Soares e Celestino Brandão, a do velho Torres, toda uma população alegre e festiva; em ultimo logar, numa delonga calculada para maior impressão, appareceu, arrastando magestosamente a sua traine de pellucia côr de ouro, a mulher do coronel Tavares, velho anguloso e esguio. Ella, entre o brilho loiro de um adereço de topazios, erguia o collo moreno, polvilhado de veloutine, e, formando phrases tão pretensiosas quanto erradas, dardejava lumes dos seus olhinhos castanhos e malignos; uns yelhos condecorados apressaram-se em ir
cumprimentar, n'umas grandes curvas de espinha, essa pobre flor já sem viço de mocidade, mas ainda vaidosa do seu falso brilho. A*s nove horas uma das portas, até ahi fechada, abriu-se de par em par e a noiva appareceu, dando o braço ao padrinho, o velho Ribeiro; atraz vinham Eva e Noemia, toucadas de flores. As roupagens alvas da noiva, como que trouxeram mais luz á sala; uma menina, approximando-se d^lla, offereceu-lhe um bouquet de rosas brancas. Trigueirinhos, ao lado do commendador, entiára ao mesmo tempo pela porta do fundo; parecia mais moreno, mirrado dentro da sua primeira casaca, com o cabello em pastinnas lustrosas sobre a testa, e um sorrisosinho amarello nos lábios finos. Levantaram-se todos e approximaram-se do altar; o padre Rocha já lá estava, paramentado e risonho; ao pé d'elle, imperturbável e sério, o armador João Coelho fazia de sacristão. A cerimonia começou e acabou sem laf rimas; ao ajoelharem-se os noivos para a ençam, rompeu a musica num cântico glorioso. Minutos depois recebia a noiva os cumprimentos do estylo; Octavio abraçou-a e sumiu-se por entre a turba-multa da sala, fechou-se no quarto, deu ordem ao pagem para que arreasse o cavallo, mudou á pressa de roupa, sahiu pela porta do quintal para não ser visto pelos convidados, e atravessava direito á cocheira, quando alguém lhe tocou
no braço. Era o pae. Na escuridão da noite o seu rosto punha uma nodoa branca, de uma pallidez marmórea; sentia-se-lhe a respiração offegante. Estendeu ao filho, com mão tremula e gelada, um revólver de seis tiros í Octavio guardou a arma silenciosamente. Estiveram um instante calados e indecisos; depois abraçaram-sc numa eífusão, única em toda a sua vida. Octavio então tentou tranquillisal-o, dizendo-lhe um—até amanhã — esperançoso; mas o velho não respondeu; apontou o cavallo, que vinha puxado pelo pagem, e ficou-se no mesmo sitio até Octavio partir, pondo na oscuridão da noite a mancha pallfda do seu rosto transtornado. Na sala, a noiva distribuía pelas amigas solteiras botões de flores de larangeira. Noemia, muito risonha, foi mqstrar a Eva o ramo que lhe dera a irman. — Veja, foi o do peito; d1aqui a um anno. dizia ella maliciosamente. —• Que é um anno, Noemia, para quem só tem dezeseis! — Mas com dezesete annos parece-me que se está em muito boa edade.. — Talvez nem tenha de esperar tanto; veja como o casamento de Nicota se decidiu depressa. — Mas eu não quero que o meu seja assim! Eu é que hei de escolher o noivo!
— E se seu pae resolver casal-a sem a consultar? — Digo-lhe que não e não! Olhe, Eva, eu sou da sua opinião; um dia disse: prefiro, morrer a casar sem amor.. — Estava a brincar... — Não estava, não! Escute.. Noemia parou confusa, apertando e' deslaçando a fita do leque. — O que? continue. — Não, é que. já me esqueci... ah! sim! E tornou de novo a parar, ageitando d'esta vez as flores do corpete. — Vamos, Noemia, acabe, que lá vem o seu par. — Tenho vergonha.. — Não diga tolices.. Vergonha de quem? Vá lá! — Pois sim... Sabe? é que., porque não viria o Sr. Paulo? Eva estremeceu; antes, porém, que respondesse, curvava-se deante de Noemia o par de valsa e a pobre, ainda confusa, levantou-se, deixando o seu ramo de flores de larangeira nas mãos da prima. Eva fixava sem vêr aquelle bouquet esquecido, com as faces tintas por uma onda de sangue que lhe subira do coração ao cérebro, impetuosamente. As palavras' entrecortadas de Noemia tinham-lhe desvendado um segredo que não pudera nunca suspeitar, e
repeti i mentalmente, em um doloroso assombro: « Ella ama-o! ella ama-o! » O Dr. Azevedo, encostado ao humbral de uma porta, seguia com a vista o movimento dos pares, prendendo de vez em quando os seus olhos azues no formoso busto de Eva. A irman do Antunes disfarçava mal a indignação que lhe causava a inexplicada falta de Octavio no salão; a filha dançava, elegante sem graciosidade, erecta, muda e séria; acclamaram-n'a a rainha da noite e cahiam sobre o seu vulto de estatua, como um enxame de abelhas em uma flor, um enxame de olhares ávidos e cubiçosos. O baile durou até as três horas. Nicota partiu com o noivo para a casa do major Trigueiros, onde já tinham preparados os seus aposentos; despediu-se da família sem lagrimas, serenamente. Quando, retirados todos os convidados, Eva entrou no seu quarto, encontrou nelle, de pé, Noemia, vendo através dos vidros fechados da janella a sombra do ultimo carro que se afastava; a meiga criança, sentindo-a, estendeu-lhe os braços, apertou-a com força no peito e desatou a chorar, a chorar sem motivo, as primeiras lagrimas do amor. Eva enxugou-lhe os olhos e aconselhou-a a que se fosse deitar, para descançar, dormindo da fadiga e commoçõcs da noite; levou-a docemente para a sua pequenina alcova, ajudou-a a despir-se, aconchegou-lhe
a roupa do leito, beijou a carinhosamente, e sahiu sem ter indagado a causa d'aquelle pranto; adivinhára-a, estava indubitavelmente ligada á pergunta que lhe ouvira horas antes: — « Porque não viria o Sr? Paulo? » Era já tard; quando Eva conseguiu, adormecer. Lá fora, na sala, o commendador' passeava agitado, fumando successivamente cigarros, indo de vez em quando á janella, prestando o ouvido ao mais insignificante rumor, estendendo a vista por toda a extensão da rua solitária, que se ia pouco a pouco tornando mais clara. Uma faixa de luz amarellada e frouxa batia em diagonal nas casas fronteiras, todas fechadas e silenciosas; e nas pedras cinzentas e deseguaes das calçadas, aqui e alli, estavam espalhados uns papeisinhos de côr, franjados nas extremidades, vestígios das balas servidas, em bandejas, no baile. Medeiros arrependia-se de ter deixado partir sósinho o filho. Confiava no Antunes, que tinha boa gente e dispunha de recursos; além de que, recommendára-lhe que levasse comsigo alguns soldados: as fardas intimidam os negros Pensando nisso dcscançava um pouco; mas voltava-lhe depressa o medo de que fossem d'ahi a nada apresentar-lhe o corpo do filho, coberto de sangue, num esphacelamento horrível!