Capítulo XXIV A Família Medeiros · Capítulo 24 de 42
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Capítulo XXIV

A FAMÍLIA MEDEIBOS 2éí XXIV Marcaram a partida para d'alli a dous dias, cmquanto a familia não tinha promptos os seus arranjos de viagem. Noemia alegrou-se com a idéa do passeio e de vêr a irman-; não lhe tinham tornado a fallar no projectado casamento com o filho do Cerqueira Franco, e ella suppunha estar tudo definitivamente acabado com a intervenção de Octavio. No emtanto, não era assim! Nessa mesma tarde, a mãe foi dizer-lhe, a mandada do marido, que os Francos, pae e filho, iriam ter a Casa Branca, convidados pelo Trigueirinhos, a pedido do commendador; Nicota daria um jantar aos noivos e marcariam ahi a data para as bodas. Fallou logo em encommendar roupas brancas, vestidos, jóias, todo um enxoval bonito e rico para não haver delongas nem aborrecimentos! Era a vontade do pae. Ouvindo taes palavras, a pobre menina chorou; a mãe demorou-se um pouco a seu lado, procurando talvez uma palavra de consolo que não lhe chegou, nem como um fraco murmúrio, aos lábios. Durante a noite Noemia sentiu-se febril e levantou-se na manhã seguinte abatida e pallida. O irmão procurou animal-a, promettendoihe auxilio.

Depois do almoço Octavio sahiu; sabia que se retirava o Dr. Castro para Pernambuco e quiz agradecer-lhe os seus cuidados; projectava ir também ao Mangueiral, julgando da sua lealdade confiar a Pauloosseus planos, explicando assim a sua ida a Casa Branca. Quando chegou á fazenda do visinho era meio dia. Mandaram-n'o entrar para a varanda. O Dr. Castro, entre a dona da casa c meia dúzia de crianças tagarellas, chupava laranjas, amontoadas numa bandeija sobre uma cadeira. Elle descascava-as com um canivete bem afiado; a casca amarella e fina da fructa desenrolava-se numa longa fita encaracolada e estreita, que ia caindo a seus pés. A laranja gyrava já nos seus dedos como um pequeno globo côr de leite, sem a mais pequena arranhadura na pellicula, elle partia-a em duas metades, á moda paulista, eofferecia-a á dona da casa ou ás crianças, que o cercavam de perto, com sentido na fructa. Vendo entrar Octavio Medeiros, puxaram uma cadeira para a roda fazendo-o sentar-se e felicitando-o pelo seu milagroso salvamento. A familia Carvalho era distincta e amável; Octavio sentia-se bem alli. Ouvindo de seu cliente o motivo d^quella visita, o Dr. Castro confirmou a noticia de partir em breve para Pernambuco, mas para voltar com toda a familia.

A hospitaleira provincia de S Paulo prendia-o, dizia elle, e resolvera mudar para ella a sua residência. E fallaram em viagens, progressos materiaes do paiz,.em diversas cousas, emfim, ligadas entre si. Ao cabo de uma hora, Octavio dispunha-se a sahir quando entrou o dono da casa, o Sr. Hippolyto Carvalho, typo de lavrador genuinamente- paulista e accentua.^ damente bondoso. O fazendeiro vinha impressionado com umas desgraças succedidas a um colono allemão da visinhança. O patrão tratava-o como escravo, não lhe poupando mesmo o tronco Isso indignara-o. Não o devendo recolher em casa, ruminava a melhor maneira de o proteger. Subitamente, voltando-se para Octavio, disse:. — O senhor c que poderá fazer alguma cousa pelo infeliz extrangeiro! — Da melhor vontade! mas de que maneira? — Arranjando-lhe um logar no Mangueiral. Sua prima estará por isso? — Talvez respondeu Octavio, de um modo indeciso. — Falleidhe no Mangueiral. continuou o fazendeiro, porque julgo preferível a todos os outros esse cantinho que já se parece mais com uma villa curopéa do que com uma fazenda das nossas!

Ajbi teria o pobre diabo compensações para o>que soffreu. E depois é mesmo provável que a D. Eva, agora que está para casar-se, não rejeite fazer um beneficio tfesta ordem; fallé-lhe, fneu amigo! Octavio ouviu immovel as ultimas palavras, sentindo uma angustia silenciosa e profunda. Entretanto, a esposa de Carvalho perguntava: —'- Que? A Eva Medeiros vae casar! Com quem?! •— Com o Dr. Azevedo, respondeu-lhe p.marido; pelo.menos é o que. elle próprio fez constar ainda hontem á "noite no club, em uma roda de amigos. — Ora quem tal diria! exclamou a fazendeira, olhando de frente para Octavio; e depois com um sorriso: — Vejam como são as Cousas! já se murmurou por ahi que o senhor ia-se casar com ella! '• •••*•' — Nunca pensámos nisso, respondeu Octavio airrda um «pouco tremulo; éstimamonos como irmãos Eva é muito bôa, mas nunca se lembrou nem da probabilidade defeu vir a ser seu marido! — Em todo o caso, o senhor deve estar bem informado. E'verdade o què diz o Azevedo? — Não sei, minha senhora; Eva esiá ha alguns, dias no Mangueiral e poderia ter deli-.berado qualquer cousa sem nosso conhecimento. Entreolharam-se todos um tanto surprehendidos. ' —Correm por ahicertos boatosexquísitos, tornou o Carvalho; dizem, isto é, disse-me o Antunes, que ella tem sMo ingrata paracoim seu pae, W exíicto? $'" — Não! ao contrario;; Eva é muito sè*fí* satã e incapaz de uma acção má. — -Parece um. pouco soberba.. aventurou-se a dizer á dona da casa; mas isto é tão»' commum por aqui, que a gente já não cxtranha! — Realmente ella é um pouco altiva, murmurou Octavio; e morto para fugir da questão, voltou a conversa para a historia docolono, prometténdo ir immediatamente fallar á prima. Acompánharam-no até a porta e em poucos mimitos elle desapparecia entre os cafeeiros escuros. „ O Azev.ed*o vai casar com Eva! repetia de instaryg a instante Octavio, num sentimentorde qoíorosa sorpreza. E1 pois verdade! amam-se! mas como eu fui cego! como elles são perversos.! amam-se! vão ser felizes.. e eu? Perguntava-se se deveria continuar *a trabalhar- para pôr em evidencia a pureza e isempção da prima no negocio de Santa Genoveva, ou se seria melhor afastar-se "-para

Utí sempre d^lla, deixando as cousas no pé em que estavam. Evitaria assim uma convivência, que muitas vezes o constrangeria amargamente. Não queria assistir a esse casamento: demorar-se-ia em Casa Branca. Ella que fosse feliz, comtanto que elle a não visse na sua felicidade! Convencia-se depois que tudo aquillo era falso! A sua Eva adorada não pertenceria nunca a outro homem; iria encontral-a triste, tranquilla e só; fallar-lhc-ia outra vez do seu amor, até vel-a persuadida da sua sinceridade; trabalharia por ella, veneral-a-ia como outriora e sempre, e havia de alcançar um dia a realisação dos seus sonhos! Chegando ao Mangueiral viu á porta da casa um troly desconhecido. Vão sahir, pensou; mas nisso chegou a uma janella o Azevedo, a olhar radiosamente atravéz dos vidros da luneta. Octavio sentiu como que uma grande pedrada que lhe tivessem arremessado ao peito; mas, disfarçando bem a sua contrariedade, fez um gesto amigável ao juiz de orphãos, que lhe correspondeu com um « bemvindo seja», em que pôz toda a hospitalidade de um amigo vendo chegar á sua" casa urn companheiro intimo. Que tolo! pensou Octavio de si para si; e entrou. Contra a sua espectativa, Azevedo

estava só com uma senhora cdosa, que fora morar no Mangeiral a pedido d; Paulo, pára acompanhar Eva. Foi ainda o Azevedo quem, com ares de quem está no que é seu, a apresentou, dizendo: — D. Miquelina, viuva do capitão Rodrigues1, senhora da'mais fina educação e hoje, póde-se dizer, mãe de Eva. Octavio sorriu com desdém ouvindo o Azevedo pronunciar tão familiarmente o. nome da prima. D. Miquelina franziu as sobrancelhas, evidentemente contrariada, e voltando-se para Octavio disse: — Eva foi visitar umas crianças doentes na colônia; e Paulo não deve tardar; foi ao cafezal com uni/engenheiro seu amigo. — Ah! o Custodio? perguntou sacudidamente Azevedo; sempre veio cá? coitado, é um pobre idiota, mas não tem maus sentimentos, afinal.. — Não foi elle, respondeu a governante; a pessoa que veio é muito distineta c de nossa amizade, é o Dr. Mort >n. — Ah! o velhote do collegio? —• Esse mesmo. — Um bello homem, observou Octavio. — Sim, não digo que não... effectivamente não faz mal a ninguém, replicou o T^zevedõ; mas é massante e antypathico como todo o yankee! Octavio ia responder azedamente, quando Paulo entrou.

O Dr. Morton seguira do cafczal para a cidade, indo encantado com a lavoura do Mangueiral. Paulo, surprehendido com a presença de Octavio, cumprimentou á pressa o Azevedo, que principiou a cantarolar, dissimulando o seu despeito Como todas as attenções de Paulo caniam sobre Octavio, o juiz, voltar do-se para D. Miquilina, convidou-a a ir com elle ter á colônia, onde, haviam-lhe dito, estava Eva exercendo a sua caridosa missão de visitar doentes. D. Miquelina vacillou titubeante, mas Paulo approvou essa resolução, aproveitando o ensejo para conversar a sós com Octavio. Este expòz-lhe então os seus projectos, justificando a partida e talvez mesmo a sua demora em Casa Branca. Entretanto D. Miquelina c o Azevedo seguiam pela extensa rua dos bambus, em direcção á colônia; alli havia sombra e frescor, cantavam as cigarras estridula e prolongadamente e perseguiam-se em vôos circulares umas borboletinhas amarellas. Iam assim a um longo espaço, silenciosos c pensativos, quando Eva assomou na extremidade da rua, com um galho de flores na mão e uma sombrinha de linho escarlate a protegel-a do sol. colorindo-a com os seus reflexos sanguinolentos e vividos. — Vamos... coragem'! disse a meia voz o Azevedo, sem reparar no espanto que essas

palavras produziram em D. Miquelina. Pouco depois reuniram-se os três. Eva informou a governante de que tinha achado em plena convalescença a filha do Salomão, e pediu-lhe que arranjasse numa cestinha uns doces para mandar á pequena; ella ainda tinha que fazer: ia d^alli á cisa do Jeronymo, que tinha levado uma chifrada de um boi bravo e estava a deitar sangue pela bocca. — Soub: agora mesmo que Paulo mandou chamar o medico; estou impaciente por vêl o chegar... pobre Jeronymo I Então vá, D. Miquelina, faça favor, arranje os docinhos para a menina! Eva estendeu a mão ao Azevedo, num gesto de despedida, quando este, curvandose, pediu permissão para acompanhal-a até a porta do doente. — Como quizer, respondeu a moça com um modo distrahido e frio. Seguiram, ora sombreados pelas ramas, ora batidos pelo sol que, por entre as tousseiras de bambus, punha arabescos e listrões dourados no chão O silencio não podia prolongar-se por muito tempo; num assomo de animo o juiz rompeu: — Nutro ha muito tempo um desejo doudo de lhe fallar.. Eva voltou para elle o rosto, serenamente: o Azevedo continuou:

A FAMÍLIA MEDFIROS — Não lhe deVe ter passado despercebido o sentimento que me inspira. D. Eva é que é de uma crueldade tamanha, que, não demonstrando por mim a minima sympathia, finge ignorar o grande, o extraordinário affecto que lhe consagro! Agora, porém, seja franca, supplico-lhe! e perdòe-me a ousadia de lhe ter confessado o meu amor! — Pede-me para ser franca, como se houvesse alguém que em semelhante posição o não fosse! O Dr. Azevedo poderia pouparme o desgosto de o desenganar, se tivesse querido percecerque eu, fingindo, como disse, ignorar o affecto que me consagrava, era porque não podia corresponder-lhe! Disse também que não lhe demonstrei nunca a minima sympathia! nesse ponto é injusto: creio ter-lhe dado sufficientes provas de confiança e amizade. Calaram-se; o Azevedo procurava, cabisbaixo, uma phrase qualquer com que puzesse fim ao dialogo. Deixaram a rua dos bambus e atravessaram um pequeno campo, estreitado pelas flôrinhas dos juazeiros; o sol batia de chapa, numa irradiação ardente e luminosíssima; viam-se já perto, enfileiradas em linha, as casas dos colonos com as suas paredes claras e telhados vermelhos. — Deixe-me na persuasão D. Eva, de que ao menos não se zangou commigo—não achando insolente a minha aspiração... balbuciou o Azevedo.

Eva parou, cstcndendolhe com lealdade a mão, e disse: — Creia que tem em mim uma amiga sincera, prompta a defendel-o de qualquer injuria, prompta a tratal-o com desvello se algum dia lhe faltar a solicitude de uma enfermeira. Esqueça tudo o que me disse e tudo o que me ouviu, excepto esta ultima promessa: a de ser para o senhor o mesmo que uma irman 1 O juiz apertou mollemente a mão que ella estendia, e, levantando o seu olhar côr de aço, demorou-se um pouco a contemplal-a. Nunca a orphã de Gabriel Medeiros lhe pareceu tão bonita. A sua sombrinha vermelha, penetrada de luz, tingia-a de uns tons quentes, rubros, pondo lhe reflexos de aurora nos cabellos negros, no rosto amorenado e no vestido claro, franzido na cinta e salpicado de Botões de rosa. Nos olhos avelludados de Eva, nadava uma doce humidade, um.sentimento de compaixão e de desgosto que os enlanguecia um põISco, tornando-os talvez mais formosos. Azevedo murmurou meia dúzia de palavras banaes num agradecimento murcho e chato e afastou-se, depois da moça entrar na casa do colono doente. Ia por todo o caminho a revel-a em pensamento, alta, esbclta, pisando a gramma e as florinhas rasteiras do campo, sob o guarda-sol que, como uma grande papoula aberta, deixava cahir sobre ella, di-

luida e molle, a sua brilhante e viva côr de purpura. Quando Eva voltou para casa, já lá não estavam nem Azevedo nem Octavio. D. Miquelina cosia junto á porta do jardim, e, pela janella aberta do escriptorio, ella viu Paulo de pé, ao lado da estante, a folhear um livro.

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