Capítulo V A Família Medeiros · Capítulo 5 de 42
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Capítulo V

Passaram-se muitos dias na maior serenidade. Octavio passeava, punha em ordem os seus livros, interessava-se pela lavoura, influindo o pae para algumas modificações; planejava montar uma fabrica nuns terrenos que lhe pertenciam e calculava estabelecer a sua vida agradavelmente ao lado da família. Quiz tirar a planta da fazenda e nessa tarefa occupava-se durante algumas horas; á tarde acompanhava as irmans, a mestra e a prima numa volta pelo jardim ou pelo tanque, tendo então ensejo de apreciar a educação de Eva e o espirito de Mme. Grüber. O commendador ligou-se depressa ao rancho, e não permittiu ao filho outra conversa que não fosse a sua; havia alguma cousa de constrangimento no seu modo, que foi contagioso para todos os outros. Poucos dias depois desmanchou-se o grupo, dando cada qual um pretexto para não ir. Eva resolvera estudar piano a essa hora; a allemã lia; Noemia confessava francamente que a aborreciam aquelles passeios, a ouvir fallar em política ou negócios; e Nicota punha-se a fazer o seu interminável crochet, sentada ao pé da janella. Corriam assim as cousas, quando uma manhã o fazendeiro, de volta de uma viagem, á cidade, foi bater á porta do filho, que se ne-

tretinha a riscar e aperfeiçoar a planta de Santa Genoveva, ouvindo com prazer a prima cantar na sala, a distancia. O commendador vinha satisfeito e explicou-se em poucas palavras. Estivera com o Antunes. O seu amigo dissera-lhe que a sobrinha estava apaixonada pelo Octavio, e que toda a família serejubilava com isso. Entre os muitos pretendentes fora elle o escolhido, e nisso mesmo dava ella prova de sensatez e bom gosto: — A moça é bonita, é boa e é rica; a melhor fortuna do município! concluía radiante o Medeiros. Octavio ouvia attonito aquella declaração imprevista. Depois riu-se. Tinha graça, o Antunes! Com que então a sobrinha desprezava os pretendentes e escolhia-o a elle, que não se importava com ella! — Elles são doidos, meu pae? perguntou por fim, zombeteiramente. Medeiros, muito sério, respondeu que, ao contrario d'isso, não havia ninguém de mais juízo. — Não parece... Emfim! qual foi a sua resposta? O commendador confessou que não espe^ rava uma recusa do filho, e que alimentava a esperança de o vêr mudar de tenção. Octavioaííirmou que não se casaria nunca com a Sinhá; achava-a monótona, sem espirito, mesmo nada attrahente;além d'isso não

comprehendia o amor da rapariga: ella virá-o uma única vez e nem lhe fallára sequer! — Porque tem bom senso; não é leviana como... como a maior parte. — Então.por ser sensata revela umapaixão assim de repente, e escolhe para marido um homem completamente desconhecido?! O fazendeiro explicou: — Octavio não era tal um desconhecido, Ha muito que a família Antunes acariciava a idéa de o ver ligado a ella. O compadre conheceu-o em pequeno e sabia quaes os seus bons instinctos; além d'isso voltava da Europa formado, tendo feito uma boa carreira e usando um dos mais bellos nomes da provin-r cia. As cartas de Octavio eram lidas pêlo Antunes, que o elogiava muito a toda a gente. Ora, ahi estava por que já o consideravam noivo da formosa e requestada Sinhá, mesmo antes da sua chegada ao Brasil. Depois de um grande discurso, em que exalçava as boas qualidades da sobrinha 4 amigo, Medeiros affirmòu ao filho que não daria uma resposta decisiva, esperando ainda rel-o arrependido solicitar a mão d'aquellapor quem se empenhava tão afincadamente. Octavio empregou em vão todos-os rríeios os mais persuasivos para o desviar de tão arraigado,.|L|sejo. Impossível! aquillo era uma idéa fixa^um plano amadurecido durante annos! c que se encravara brutalmente no ce-

rebro d'aquelle homem tenaz. Não havia força nem perícia que o deslocasse do seu espirito. O fazendeiro sahiu do quarto do filho num grande accesso de máu humor, desabafando a sua cólera sob o mais insignificante pretexto: bateu num cão, expulsou do corredor os molequinhos, atirou com força as portas da sala onde se recolheu, e que estrondaram como impellidas por uma ventania forte. Octavio pensOu dous minutos na singularidade do caso, accendeu e fumou um cigarro, abstractamente, e continuou depois muito sereno a planta interrompida. Nessa tarde o commendador Medeiros não lhe deu a honra da sua companhia; montou a cavallo e seguiu estrada fora, sem dizer para onde ia. Octavio não attribuia o mal estar do pae á conversa que tivera pouco antes com elle, julgando-o preoecupado por qualquer interesse da lavoura; por isso, muito satisfeito, convidou as irmans, a mestra e a prima para um passeio no campo. Accederam todas, menos Nicota, que se esforçava por acabar antes da noite a colcha de crochet. §eguiram os quatro por um dos raros passeios d^aquella grande fazenda, onde todo o espaço parecia pouco para pastagens e cafezaes. Lembraram-se do bosque; Octavio indagou se as senhoras não teriam dimculdade em atravessar o matto, quasi cerrado nalguns

pontos. Riram-se, affirmando terem andadoalli muitas vezes. E continuaram mais alegres, fallando alto, numa adorável despreoccupação de espirito. Mme. Grüber deitava exclamações gutturaes, corria a grandes passadas atraz das borboletas, mostrando os pés chatos e os tornozelos finos. Eva escolhia e colleccionava plantas; Noemia fazia bulha, gosava com a alegria dos outros, saltava para os lugares mais diíficeis, e enfeitava-se de flores. Octavio desembaraçava o caminho dos cipós e galhos descahidos, e offerecia-lhes a mão para transporem com mais facilidade os obstáculos que encontravam. E assim, alegremente deram volta ao bosque, até sahirem na esplanada da collina e descerem ao valle, onde corria docemente o estreito rio; ahi, como ainda fosse cedo, lembraram-se de ir estar um bocado debaixo da figueira brava, no mesmo sitio onde, em pequeno, Octavio ia pescar os lambarys para o cuscus da ceia. Sentaram-se, uns na grama, outros nas raizes da arvore; Noemia mergulhava as mãos na água e sacudia-as depois sobre a relva, gostando de ver as gottinhas que ahi ficavam luzindo aos últimos raios do sol; não prestava attenção a mais nada, deliciava-se naquella brincadeira infantil.

Octavio fallava da Allemanha, descrevia paizagens, costumes, typos, instigado pelas palavras amáveis da lisonjeada Grüber, e pela curiosidade de Eva. A prima, muito despretenciosa, com a sua toilette clara e simples, o olhar avelludado fixo nelle, nunca lhe parecera tão bonita, tão attrahente, tão doee; quiz ouvil-a e perguntou-lhe se não tinha vontade de ver as mesmas cousas, de apreciar de perto as bellezas européas. Que sim, respondeu-lhe ella; embora o seu desejo fosse viver no logar em que nascera e que os pães a ensinaram a amar. Minha mãi dizia sempre, concluía Eva, que eu devia considerar como irmans até as arvores e as flores que me rodeavam, dispensando-lhes todos os meus carinhos; por isso habituei-me a ter-lhes uma amizade de família, ficando com muitas saudades quando me apartava d'ellas, mesmo que fosse por alguns dias! Mais adeante, levada a conversa para o culto das flores, Eva contou: — Uma vez, era eu ainda pequena, ia ararrancar desastradamente umas maravilhas amarellas, quando ouvi um ai! muito triste; afastei depressa as mãos, e minha mãe, que me observava de perto, disse: « Vês? foi um gemido da terra, da terra em que nasceste, minha filha, e de onde querias arrancar uma das tuas irmans!» Desde então tive uma verdadeira idolatria pelas plantas, e chegava ás vezes a beijar as flores! Não soube nunca

d'onde havia partido aquelle gemido, chegado tão a propósito a meus ouvidos. é provável que fosse um suspiro de minha mãe. Mme. Grüber não approvava nada que tivesse, mesmo de leve, uns traços românticos. Meneou a cabeça sorrindo. Octavio, reparando nisso, affirmou que essas imagens poéticas imprimem, na sua candidez, muito mais interesse e crença nas crianças do que as praticas positivas com que muita gente pensa preparal-as melhor. — Tirar illusões aos Únicos entes capazes de as terem em toda a plenitude, que barbaridade, meu Deus! Fazer amar a natureza como uma mãe, beijar as flores como irmans, que bello exemplo para a maldade do homem! A mestra replicou-lhe expondo os methodos modernos de educação. Octavio escutava-a, pensando em fazer Eva repetir vários episódios da sua meninice, morto por indagar de toda a sua vida passada, aguilhoado pelo desejo de saber qual a sua impressão ao entrar sósinha e orphã em casa do tio, e como se pudera afastar do lar paterno, pelo qual mostrava tão entranhado amor! Abstinha-se, á espera de umaoccasião em que, sem ser indiscreto, pudesse saber tudo. A noite ia cahindo. No fundo esmaecido do céo destacavam-se as arvores da collina fronteira, em fôrmas bizarras. Uma coruja passou num vôo baixo e fofo, indo pousar no telhado de sapé de uma senzala, sobre a qual

abriu as suas grandes azas algodoadas. Ficava bem alli, naquelle tecto triste, onde as avesinhas alegres não poderiam cantar sem remorsos, porque o canto da ave nocturna não c como o d'ellas, um hymno de liberdade, mas sim um grito de condemnação que vae casar-se á voz dos escravos, unindo-se ás suas imprécações. Houve uns momentos de silencio. Noemia foi a primeira a cortal-o, lembrando a partida,: levantaram-se e seguiram caminho de casa. Atravessaram a ponte, tomaram o carreiro estreito do laranjal, subindo em zig-zags. Mme. Grüber respirava com força, deliciando-se com o aroma das plantas. Noemia cantava, Eva ia silenciosa, parecia immersa nas saudades suscitadas pela lembrança da mãe. Octavio seguia atraz d'ella, a vêl-a sempre, sentindo um ineffavel e indefinivel prazer cm pisar sohre os seus passos, sem refiectir verdadeiramente em nada. Ao passarem pela casa da paralytica, que talvez já dormisse lá dentro o somno leve dos velhos e dos enfermos,lembrou-se da phrase da sua maman. referindo-se a Eva. * — Como era bom que mecê casasse cum ella! Essa phrase soara-lhe ao ouvido como uma musica e surgia de vez em quando no seu espirito entre as reflexões de todo o gênero;

a propósito, ou fora de propósito, ella vibrava sempre soando demoradamente, livre e isolada. Acontecera-lhe muitas vezes não poder dormir, por ter um trecho qualquer de opcreta a repetir-se contra sua vontade na memória; já lhe succedera o mesmo com um verso, a bordo, o que o deixara impaciente; com uma phrase, porém, era a primeira vez, e parecia-lhe extranho que essa não o enfadasse; ao contrario—suggeria-lhe uma multidão de idéas que se atropellavam. Quando entraram em casa já o commendador Medeiros tinha voltado do passeio. Mantinha o seu máu modo, um pensamentonegro annuviava-lhe o rosto. Manifestara contrariedade ao saber que o filho acompanhava as senhoras, e que se demorava tanto. Ralhou com a mulher, que se submettia paciente á descarga da sua cólera, prohibiu que Noemia tornasse a sahir em companhia da prima, e quando viu chegar o rancho á sala, voltou-lhe as costas sem corresponder ás « boas noites » e foi-se para o quarto, de onde não tornou a sahir naquella noite. O serão correu insipido, a ceia foi servida uma hora antes da do costume. Fallava-se baixo, cemo se houvesse em casa um doente.

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