Capítulo XVI
XVI No dia-seguinte o Dr Castro fez o primeiro curativo ao ferido, chamando para seu lado as duas enfermeiras apontadas pelo commendador; mas logo ao desligar das ataduras, ao primeiro ai do doente, a mãe, quasi desfallecida, confessou a sua incompeteneia e retirou-se com as mãos nos olhos; Noemia era nervosa, estremecia sem atinar com as cousas. O medico então, voltando-se para o fazendeiro, pediu-lhe que mandasse chamar outra pessoa. Medeiros levantou-se e foi buscar a mulher do feitor, Nhá Colaca; mas a infeliz era desageitada e o medico, impaciente, mandou-a embora, «lembrando o nome de Eva. O fazendeiro quiz oppôr-se; mas recebendo em resposta que de uma boa enfermeira depende muitas vezes a cura de um doente, resignou-se. Quando Eva entrou no quarto, Qctavio, com o hombro descoberto, o rosto afogueado pela febre, os cabellos collados em grandes anneis na fronte, olhava para os que o cercavam sem os conhecer. Ella approximando-se contemplou-o magoada e com geitoso carinho auxiliou o Dr. Castro a applicar-lhe sobre a ferida aberta nas costas pela bala, até a feita na clavicula para a extracção, uma fina pasta de algodão phenicado, passando depois uma longa atadura encruzada do peito para as costas.
Era aquella a única missão que lhe permittiam agora! Durante o dia e a noite zelariam outras pessoas o doente, vedando-lhea ella a porta p braço cruel do tio. Desgostava-se com isso: quereria estar sempre ao lado do primo, animando o e vendo-o. A' compaixão junetava-se o medodeque morresse aquelleem quem presentira a sinceridade de um amigo; elle tinha no gênio pontos de contacto com o seu, e muita analogia com o do pae da pobre Eva; era a única pessoa da familia que a comprehendia, o único que se fazia entender por ella, manifestando as mesmas tendências e os mesmos gostos. Dr. Castro declarara ser muito grave o estado de Octavio, que, expectorando amiudadamente sangue, fallava, no
Medeiros fixou com ódio o rosto da sobrinha. Ella, entristecida, pensava no mysterioso rancor do tio e na enfermidade de Octavio. O Dr. Castro lá ficava junto do enfermo a dar-lhe calmantes, exigindo silencio, consultando o thermometro, curvando-se.solíicito sobre o seu leito, de onde se emanava o cheiro e o calor da febre. A1 noite Octavio adormeceu, um suor copioso inundou-lhe o corpo, a febre diminuiu. A's onze horas acordou, c viu a' seu lado, dormitando, a mãe e uma creoula em pé, com os braços cruzados e os olhos muito abertos; pediu água; tinha umá secura horrível, bebeu-a soffregamente e adorrneceu de novo. Passava do somno á vigília* continuamente, molhando todas as vezes os lábios queimados e a f;arganta secca; de madrugada sentiu-se mehor, e passoupela memória enfraquecida todo o oceorrido. Anhelava por saber de Eva; têl-a-ia despedido o pae? quiz perguntar por ella, mas a mãe dormia na cadeira, numa posição contrafeita,e a creoula coxilava. A's sete horas da manhã o pae e N°e mi a entravam no quarto, mas Octavio, exhausto, adormecera de novo, profundamente. A's nove horas tornou a acordar, deparando com o Dr. Castro e Eva, que o fitava condoída e triste; sorriu ao vêl-a; depois, ouvindo um rumor de vozes desconhecidas na sala próxima, perguntou com a voz sumida pela fraqueza em que o puzera a grande perda de sangue:.— Quem é? — A policia, respondeu o doutor. — Para fazer corpo de delicto, não é assim? — E', Mas não falle. Esteja socegado; precisa de silencio, não diga senão o que fôr indispensável; peço-lhe com todo o empenho! Eva offereceu um caldo ao doente, que pela primeira vez se sentou, amparado pelo medico. Lá fora ò commendador respondia ao delegado de policia, que viera bater-lhe á porta nessa manhã, com o seu escrivão, o Fonseca, moço magrinho e loiro. Tinha-se espalhado por. toda a cidade a noticia do ferimento de Octavio; e sabendo dò facto*, a policia não deixou de se apresentar, sem ter, comtudo, tido para isso aviso especial. O delegado, homem experiente e edoso, não extranhou essa falta; conhecia de sobejo o systema preferido dos antigos fazendeiros para a punição de escravos assassinos... Durante toda a viagem no troly fora elle explicando ao escrivão, ainda novo no officio, como se fazia geralmente essa historia: _ — Ha um assassinato numa fazenda, dizia; bem! que se faz do assassino? entregam-n'o á prisão para que siga os processos legaes da justiça? qual! querem vingança mais completa. Apoderam-se da presa, escondemn'a no quarto lugubre do tronco,e, conforme a categoria da victima, castigam-n'a severa-
mente, procurando aproveitar-lhe o trabalho, mas carregando-a de ferros. Assim,matam-n'a a fogo lento. Dal-a á decisão de um jury seria mandal-a ás galés, e as galés para um captivo são a liberdade. Não seria punição, bem vê; seria um prêmio! — Nesse caso não competeria á justiça intervir seriamente no crime? perguntou com ingenuidade o moço escrivão. — Oh! a justiça é muitas vezes illudida e. e muitas vezes também ha uma série de conveniências que a obrigam a fechar os olhos. Que remédio! Como o Fonseca demonstrasse sorpreza, o delegado, retorcendo as suissas grisalhas, continuou: — E' bom notar uma cousa, que até certo ponto attcnua a gravidade do delicto: muitos negros matam sem ódio, praticando as mais absurdas vilanias com o único intento de irem para as galés! Desapparecendo essa esperança... '— Diminue o numero de crimes de tal ordem, por certo, interrompeu o escrivão. — Homem... não sei... mas é possível! O dialogo suspendeu-se á porta de Medeiros. A policia foi recebida sem constrangimento. Octavio dormia ainda, e o seu medico assistente fez,a pedido do dè!egkdo,por escripto,
uma exposição succinta do ferimento. Foi excusado o exame no paciente, á vista das autoridades, e mesmo o delegado, poupando trabalhos incommodativos, dizia mandar assignar por um segundo medico o relatório feito pelo Dr. Castro... Era preciso prevenir Octavio para um interrogatório, e, emquanto o medico e Eva o fortaleciam com o alimento, aconselhando-o a que respondesse com poucas palavras para se não fatigar, Medeiros expunha ao delegado: que sabia, por um aviso anonymo, ter de se dar nessa noite, motivado por uma pessoa que até ahi julgara livre de toda a suspeita, um levantamento em Santa Genoveva; que pedira ao seu amigo Antunes conselho e auxilio, visto estar nessa occasião preso na cidade com o casamento da filha; que dissera tudo aOctavio, Sabendo só á ultima hora da resolução que este tomara de se apresentar no sitio, sendo por isso baldados todos os meios para detel-o em casa, etc. O delegado pediu-lhe então a carta anonyma, que havia de esclarecel-o, desde que viesse nella o nome do amotinador. Medeiros levantou-se e foi direito á secretaria. Um sentimento de vingança punha-lhe lume noa^olhos. Abateria emfim o orgulho de Eva! Efla seria em breve desmascarada pela voz insuspeita da autoridade. Vel-a-ia ajoelhar-se supplicando perdão para a sua falta,
num grande temor de que toda a gente a apontasse depois comointrigante e alliciadora. Choraria com certeza muito, e antes da noite havia de partir para o Mangueiral, arrependida e humilhada. O delegado esperava recostado no sofá, sumindo os dedos nas fartas suissas grisalhas. Fonseca, o escrivão, deante da pasta aberta, estava prompto no seu posto para a primeira ordem. Medeiros introduziu a chave na gaveta da secretaria c abriu-a com resolução. Guardara alli a carta entre outros papeis de importância e ia lançar mão d^lla, quando deparou com a folha da carteira do Dr. Castro, em que a mão enfraquecida de Octavio escrevera: « Proteja Kva; ro^olhe por » Todo o ódio, todo o desejo de vingança retrahiram-se á vista dessas palavras que pareciam envolver uma suppÜca. O commendador voltou confuso, affirmando ter perdido a carta. O delegado olhou de soslaio para o escrivão e, sob o fino bigodinho loiro d'este. despontou, disfarçado e contrafeito, um sorriso de irônica incredulidade. Dr. Castro veiu nesse momento dizer-lhe que Octavio estava prompto para o interrogatório, e seguiram todos para o quarto. Installados ahi, e preenchidas as indispensáveis formalidades c usuaes perguntas, a que o doente respondia por mo-
nosyllabos —sim. não. o delegado perguntou: —O senhor viu quem o feriu? —Não. —Nem o suspeita? —Não. —Tem algum inimigo? —Creio que não... —De qual dos escravos desconfia? —De nenhum. — Mas naturalmente terá entre elles algum desafeiçoado.. — Não foi um escravo quem me feriu. Olharam-se todos attonitos. —Bem! nesse caso, continuou o delegado, o Sr. sabe qual foi a pessoa que disparou o tiro; porque disse então que a não tinha visto? — Porque a não vi. Mostraram-se admirados; o doente declarou entrecortadamente não querer serparte no processo; os negros de Santa Genoveva eram innocentes, haviam sido incitados por extranhos; a pessoa que o ferira não o podiater reconhecido no meio da escuridão. E contou, supprimindo o nome de Eva, tudo o que tinha ouvido. Fallava de vagar, parando de vez em quando, encostado em almofadas. O medico aconselhava descanço. A penna do escrivão traçava as palavras do doente, e acabadas as declarações leu-as
em voz alta. Assignaram como testemunhas o Honoratoe o medico. Medeiros indagou depois, em particular, se iriam proceder ao interrogatório dos escravos. —Por ora não, respondeu o delegado; mas ha de dar-me o nome das testemunhas do facto, para a seu tempo serem chamadas a juizo, na casa da câmara. Acceitando o almoço, em que os pratos paulistas se suecediam abundantemente, o delegado inquiria pela segunda vez, o feitor, de todo o suecedido. O fazendeiro, voltando-se para a esposa, recommendou-lhe: —Olha, manda servira ordenança aqui do Sr. delegado.. Ella levantou-se, fazendo um signal affirmativo. Encheram-se os copos e a conversa animou-se. Até a nhá Colaca, (diminuitivo de Escolastica), confessou ter feito uma promessa ao Bom Jesus de Pirapóra para o restabelecimento de Octavio. A promessa constava em ir o moço a pé e descalço, no dia 6 de Agosto, festa do milagroso santo, até o pequeno arraial, d'ahi a muitas léguas, onde a multidão leva as suas preces e de onde traz relíquias sagradas e bemfazejas. O Bom Jesus açode a todas as tormentas, desde que lhe levem ao seu rico altar de Pirapóra uma offerenda qualquer! No dia 6 de
Iti6 A FAMÍLIA MEDEIUOS Agosto a povoação transforma-se! E1 verdadeiramente assaltada por ondas humanas que affluem de todos os lados da província. Não bastam as hospedarias; ficam transbordamos as casas particulares e apropria egreja, onde muitos romeiros passam a noite, á falta de outra pousada. A fé, o doce balsamo para as grandes dores,e o cumprimento de uma divida sagrada, impelle para aquelle cantinho de milagres os crentes e os afflictos. O mais interessante, porém, o verdadeiramente característico, é que muita gente vai pagar promessas que não fez! Acontece freqüentes vezes estar um indivíduo qualquer gravemente doente; então alguma pessoa da família ou de amizade levanta os olhos ao céo clemente e,num intuito piedoso, promette que, em estando completamente restituido á vida e á saúde, levará o enfermo, pisando descalço as pedrinhas da estrada, um feixe de lenha ás costas, ou uma perna de cera, ou uma talha de água, ou qualquer cousa que o humilhe e o alague em suor, ao misericordioso, ao poderoso, ao todo justo Bom Jesus de Pirapóra! Pelo caminho encontram-se grupos curiosos: ora umas mulheres que se arrastam de joelhos, ora outras com pedras á cabeça. Homens esfalfados de cançaço, conduzindo pela arreata os animaes bem ajaezados. De longe em longe brilha num ponto e noutro da estrada umaluzinha: é um cirio que uma devota leva.
Acabada a festa e findo o sacrifício, voltam tranquillos para,as suas casas, na doce alegria, na imperturbável serenidade que dá a consciência de um dever cumprido. Como preservativo de futuras doenças, trazem comsigo, em cadarço branco, a medida da cabeça, do ventre ou das pernas da imagem do Senhor Bom Jesus. Desde então não ha pessoa amiga que, soífrendo da garganta, de rheumatismo, ou de qualquer incommodo physico, emfim, não ponha sobre o logar affectado a medida correspondente, como a melhor e a mais benéfica das panacéas! Nhá Colaca não declarou em que consistia o sacrifício destinado a Octavio. Era um segredo que só ao doente deveria ser revelado, sob pena de perder a virtude! Ella adorava o Senhor Bom Jesus, do qual tinha um registro na parede do quarto. Logo de manhã, o seu primeiro olhar era para o santo, muito resignado, de tanga, capinha curta e mãos atadas. Ella benzia-se, e agradecia-lhe do fundo da sua boa alma o ter-lhe concedido a graça de vêr ainda a luz d'esse dia! Depois do almoço as autoridades policiaes partiram, debaixo de um sol ardente. Na caixa do troly mandou a dona da casa pôr uma cesta de ameixas muito doces, para as filhas do Sr. delegado. Vendo-se a distancia da casa de Medeiros, perguntou o escrivão:
— Que julga de tantas hesitações, e como devemos proseguir no processo? —Não é preciso esforço para apprehender a verdade, e... Ahi interrompeu-se para accender o charuto já entalado nos dentes. —E? tornou o escrivão. —E quanto ao processo, é talvez d'aquelfes a que a conveniência manda pôr pedra em cima.