Capítulo XVII
XVII Trigueirinhos e Nicota seguiram para Casa Branca numa bella manhã azul, depois de terem feito as suas despedidas á família em Santa Genoveva c de convidarem Octavio para que fosse convalescer em sua casa, aproveitando também o bom tempo das caçadas e a estação das fruitas, como muita gente na província denomina as jaboticabas. Fructas é a designação de espécies variadas,desde a gabiroba selvagem até o pecego bem tratado; fruita, porém, é termo applicado unicamente ao delicioso frueto das jaboticabeiras, arvore que, nascida espontaneamente nas mattas, sem cuidados, sem regas, sem podas, tem a fôrma bizarra, desegual, caprichosa, o tronco alto, robusto, mosqueado de havana e as raizes alongadas em de redor como umas grandes garras nervosas. As fruitas, redondas e pretas, brotam do tronco, e, agarradas á madeira, espalham-se, num prodígio de fecundidade, até a ultima nervura da raiz, salientada no chão. Têm outro aspecto as jaboticabeiras plantadas nas ruas dos pomares ou nos recantos dos jardins; ahi endireitam o tronco assetinado até menor altura, arredondando symetricamente a sua copa verde escura, de folhagem miudinha.
Trigueirinhos dizia ter no seu sitio um bosque de jaboticabeiras e convidava com instância a família. Prometteram todos ir passar lá uns dias e fizeram-se as despedidas sem grande enternecimento. Dr. Castro vinha duas vezes por dia vêr o seu doente, cujo estado só no fim de uma semana declarou livre de perigo. Eva continuou a auxilial-o no curativo, até que o apparelho foi levantado definitivamente; deram os parabéns ao convalescente, que no intimo sentia vêr extinguidas as únicas horas suaves para si, aquellas em que a prima, curvada sobre o seu leito, como um anjo de caridade, tratava d'elle com o desvellado carinho de uma enfermeira, inegualavel! Tinha ás vezes vontade de beijar-lhe a mão, pedindo que lhe perdoasse por ter duvidado d'ella! queria interrogal-a, ou antes, desejava contar-lhe, nessa intimidade de irmão, tudo o que ouvira na maldicta noite em que o haviam ferido. Que explicação podia dar-lhe? como e porque envolveriam o seu nome naquella intriga baixa e cruel? mas Octavio não ficava um minuto a sós com Eva; ella preenchia o seu deverc sahia do quarto antes de mais ninguém, para ir informar por escripto o Dr. Morton c Paulo, do estado do doente, por quem ambos se interessavam muito. Reinava na fazenda uma quietação profunda, aggravando a tristeza da família.
A 1'AMILIA MEDEIROS Medeiros, passados os maiores cuidados com o enfermo, inquiriu parte dos escravos, no tronco, ouvindo a historia singular de um desafio de capangas, mandados por alguém com o fito de os revoltar. D'esse alguém elles calaram a pyncipio o nome; mas, obrigados pelas ameaças e castigos, confessaram por fim ser o de Eva. O fazendeiro ouvia-os de pé, e o feitor executava as suas ordens com desembaraço e calma, escolhendo uns escravos para surrarem os outros. Naquella atmospliera carregada, cheirando a sangue, cortada pelas vibrações sibilantes das pontas do bacalhau e pelos ais dos negros, o nome de Eva parecia fúnebre, repercutindo-se sempre como um dobre a finados a s ouvidos do commendador. A's vezes, um grito mais pungente feria-o no coração; mas lembrava-se do seu pobre Octavio, e a sede de vingança abafava depressa o sentimento de misericórdia. Houve um momento em que os ais esmoreceram: era preciso transferir o castigo para outras victimas; áquellas, extenuadas, deveriam ser dados os curativos do costume. O feitor designou então para o supplicio um outro escravo e para carrasco o próprio pae da victima! No quarto sombrio, onde gottejava o sangue dos corpos quentes, estirados e nus, houve uma scena de dolorosa angustia. O filho avançou rápido para o logar da
tortura, despiu-se elle mesmo num movimento febril, e pondo as mãos para traz encruzou-as, para que as amarrassem; mas o pae continuou no seu canto, com a cabeça baixa, os olhos reluzentes, as pernas tremulas e a respiração offegante; foi novamente intimado mas não deu um passo; um silencio de admiração e de angustia succedeu ás imprecaçÕes e gemidos. Depois de alguns instantes o feitor repetiu a ordem outra vez, num tom forte e áspero, e o algoz cahiu de joelhos elevando para o tecto escuro, como a procurar atravez d'elle o Deus clemente, um olhar cheio de lagrimas e as mãos supplices. Medeiros sahiupara o terreiro, suffocava; não comprehendia bem o que se dobatia dentro do seu coração, mas havia alli indubitavelmente uma força brutal, todos os sentimentos! Lá no quarto do tronco que se terminasse a abominável scena, comtanto queos seus olhos não a vissem; sentia-se fatigado, mordido de remorsos que o perseguiam como uma matilha brava e sôfrega da presa! Desgraçada condição a que se sujeitava! Para elle o castigo era a necessidade absoluta, rígida, indispensável. Sem elle não haveria disciplina. Os negros são como os soldados, que lá têm o calabouço e os castigos corporaes, para eomprehensão mais rigorosa dos seus deveres. Por isso, muitas vezes, calcando a piedade, reprimindo o impulso da natureza, contrafazendo a alma, ordenava a execução
das mais absurdas e intoleráveis penas! Medeiros sentia amargamente essa verdade. Doiam-lhe agora os golpesquemandavavibrar nos servos e desviava a vista, impressionado, dos instrumentos de torturas: a grande palmatória, o relho, a gargalheira de alto gancho, as algemas encorrentadas, todo o museu de instrumentos inventados pela ferocidade humana, pendurados em uma linha na parede sombria do quarto do tronco. Sentia-se cançado d^quclla vida de sustos e de cuidados; não podia conciliar o somno, sem ter a certeza de que os escravos estavam fechados por fora, no quadrado, e que o feitor guardava a chave debaixo do travesseiro. Julgava-se no direito de exercer a justiça pelos mais bárbaros processos; mas de vez em quando voavam alarmados na sua consciência, como grandes corvos negros e pesados, os receios de uma vingança justificada! Seguia os mesmos processos usados pelo pae, que por seu turno os scuuira do avô; desde criança habituara os olhos e o espirito áquelles quadros feitos de sombras, dores e lagrimas, e affizera-se par tal fóima a elles que os achaca naturaes e indispensáveis. Cahia, comtudo, em contradicções desde que Eva fora habitar Santa Genoveva, e principalmente depois da chegada de Octavio. Os dois moços tinham levado ao seu espirito endurecido e indifferente uns preceitos de moral sã e vigorosa, filhos da compaixão, do amor evangelisado por
Christo e preceituado pela egreja—o amor ao próximo; amor que elle, no seu egoísmo, nunca pudera comprehender! Medeiros acordava, mas acordava aos poucos, duvidando ainda se era vigília ou somno o que sentia. Tinha ás vezes vergonha, deante da serenidade de Eva ou de Octavio, de, em um assomo colérico, abrir brutal e escancaradamente a sua alma estupidificada e entorpecida pelo abuso dos crimes, como um chim pelo abuso do ópio. Reagia contra aquelles sentimentos,e para penitenciar-se sacudia com força a piedade que o ia invadindo, e impunha castigos mais rigorosos. Vinha logo depois o remorso perseguil-o e encravar-se no seu coração. Assim, ora altivo, ora humilhado, escondendo o medo cm um desesperado rancor, ia atravessando os dias. Consolava-se com o exemplo de outros fazendeiros mais bárbaros do que elle. Lembravà-se de se sentir arrepiado com a narração de um facto oceorrido em um fazenda de Campinas: O senhor, de imaginação fértil no ódio, tinha mandado surrar um escravo.; até ahi nada de extraordinário. mas depois, sobreas grandes boceas dos golpes e por todoo corpo derramara em camadas grossas o mel, o doce e puro mel de abelhas, e que assim ungido foi o infeliz amarrado a um poste, no terreiro, exposto ás grandes nuvens deinsectos que desciam zumbindo, deliciados por tão opiparo quã > inexperado banquete. O negro,
sem poder defender-se, via descerem as vespas, cobrirem-lhe o corpo, movendo voluptuosamente as azas transparentes a sugarem com avidez o seu sangue envenenado pelo desespero e pela raiva. E o sol illuminavaaquella scena com a sua luz de ouro,brilhante e casta! Occorriam á memória do fazendeiro outros casos. No sitio do Gusmão, seu vizinho, tinham apparecido esqueletos nos charcos, e constava serem de escravos supliciados pelo dono. O próprio compadre Antunes havia abandonado, depois de uma grande surra, uma negra, que, sem se mexer, nem lavar, criara bichos por todo o corpo e morrera já podre... O Jucá Ramalho tivera numa gaiola, presa, durante quinze annos-, uma rapariga mulata, sobre quem recahiam suspeitas de envenenamento; a miserável, na sua jaula estreita e segura, cosia o dia inteiro em tarefas rigorosamente impostas... Medeiros recordava todos os acontecimentos no gênero, os mais pavorosos e inacreditáveis, para revestir os seus actos de uma côr mais suave e piedosa: Sim! elle não faria nunca semelhantes barbaridades; limitava-se a reproduzir os castigos communs, dictados á sua classe como único meio de ordem e segurança. Havia, comtudo,outros mais clementes do que elle; que premiavam os escravos, davamlhes terrenos para cultura e direito de venda e ganho; que não usavam pegas nem viramundo, e adormeciam sem sobresaltos nem
cuidado na chave do quartel! Lembrando as insinuações do filho e da sobrinha, Medeiros lamentava não ter sido um d'esses, e promettia a si mesmo emendar-se... depois de vingado o ferimento de Octavio! Voltou á casa do tronco; o pae negro,chorando, azorragava o filho. Medeiros, num assomo de compaixão e revolta, suspendeu o supplicio. A atmosphera morna, impregnada do cheiro acre do suor e do sangue, deu-lhe uma náusea; a vista escureceu-se-lhe, uma vertigem fel-o tropeçar num corpo humido, cstirado no chão, e nuns passos precipitados e vacillantcs chegou á porta, tacteou-a, abriu-a e tornou a sahir. O ar fez-lhe bem; respirou amplamente e tomou o caminho de casa, moido,.impressionado e ouvindo ainda onome de Eva pronunciado entre gemidos, pelos escravos açoitados. Tudo por causa d'ella! ponderava Medeiros, indignado. Entrando na sala, foi direito á rede e deitou-se; perguntou por Octavio ao pagem, o Saturnino, mulato alto, pernóstico, muito estimado na familia. Saturnino voltou com boas noticias: Octavio tinhase levantado e lia numa cadeira de balanço, rodeado de almofadas. E o pagem, depois de o informar da saúde do senhor-moço, entregou-lhe duas cartas e um masso de jornaes. Medeiros pediu café e rasgou o cnveloppe assetinado e azul de uma das cartas. Era de Nicota: fallava pouco da familia de Trigueirinhos e pedia á mãe umas receitas de bolos
de espeto e de sequilhos, concluindo laconicamente: « quando quizerem virem, avisem. » A segunda carta eradeumfazendeirodeS. Carlos do Pinhal, o Siqueira Franco, homem de afamada riqueza, dono de muitas terras, entre outras a chamada—Morro-verde, cuja colheita nunca era inferior a trinta mil arrobas! Medeiros teve uma sorpreza agradável, que até certo ponto attenuou os desgostos porque tinha passado nessa manhã; a carta dizia assim: «Meu bomamigocommendador Medeiros. As mulheres devem ser escolhidas como os porcos, pela raça, porisso peco-vos para meu filho Júlio, que V bem conhece, a mão de uma de suas filhas. Responda com brevidade; sabe quaes as nossas circumstancias e gênio trabalhador e serio de meu filho. Se quizer avise logo, para nós irmos. Seu amigo attento obrigado—Anastácio de Siqueira Franco.))