Capítulo VI A Família Medeiros · Capítulo 6 de 42
Obra Menu

Capítulo VI

VI A borrasca continuou tenebrosa durante todo o dia seguinte, em que Medeiros não appareceu á familia, manifestando desejo de que o não fosssem ver. « Aquillo é enchaqueca, dizia a mulher, placidamente; logo está bom. » Descançados com esta ponderação, os filhos não tinham cuidados; limitaram-se a andar em bicos dos pés e a não abrir o piano. Depois do jantar Mme. Grüber e Eva sahiram para a horta, Noemia e Nicota ficaram na sala, a primeira contrariada, chorosa, a segunda tranquilla. A mãe transmittira á filha o recado do pae e sua prohibição, sem commentarios, succintamente. Octavio gyrou ao acaso e foi ter depois com a •extrangeira e a prima. Quando se recolheram já as estrellas tremulavam no céo ainda pallido. As horas do serão decorreram na mesma monotonia da véspera. Eva retirara-se para o quarto da mestra, e na grande varanda, sem conforto, mal allumiada e fria, rangiam as argolas das redes e perpassavam de vez em quando ao fundo, descalços e sem ruido, os escravos como sombras mysteriosas. O enfado trazia depressa o somno.

Depois de uma noite socegada, Octavio levantou-se ás seis. horas, fez o costumado passeio, demorando-se lá embaixo nos seus terrenos a calcular o melhor local para a projectada fabrica. Voltando, encontrou o pae de pé na soleira da porta, com o chapéo enterrado até os olhos e o chicote seguro na mão direita. A uma exclamação jubilosa do filho correspondeu preoccupado o fazendeiro, dizendo precisar faljar-lhe a sós; e seguiu para a sua sala fazendo-lhe um gesto para que o acompanhasse. Alli chegados, Medeiros estendeu a Octavio uma carta já amarrotada, dizendo-lhe seccamente, no habitual tratamento dos paulistas—Lede! Entre muitos termos sem sentido e erros de orthographia colossaes, Octavio leu uma longa denuncia que do Dr. Azevedo e de Eva fazia um anonymo. No meio d'aquelles caracteres sujos, cuspidos por uma penna grosseira, resaltava o ódio e a repugnante preoccupação de armar uma intriga. Depois de referir-se aos amores da orphã e do magistrado, affirmava saber que os dous preparavam, coadjuvados pela extrangeira, uma revolução dos escravos de Santa Genoveva. Dar-se-ia essa revolução na noite do casamento de Nicota. « A sua casa é um ninho de abolicionistas. Previna-se. » — Então?• perguntou o fazendeiro, cruzando os braços, que dizeis?

— Digo que isto é uma infâmia, respondeu surdamente Octavio com os olhos ainda fitos na carta. — Infâmia, sim! gritou o pae manchado de cólera. Ella ha de me pagar, aquella. — Meu pae, interrompeu Octavio vivamente, a infâmia, a inqualificável maldade é de quem escreveu esta carta. Eva é innocente e, em vez de accusal-a, devemos defendel-a! O commendador vociferava, batendo raivosamente com o chicote nos trastes. Octavio continuou: — Se ella realmente ama o Azevedo, porque não se ha de casar com elle? Procure meu pae, que é hoje o seu, auxilial-a nisso, se é por acaso o Azevedo, como eu julgo, digno dessa felicidade. O fazendeiro abriu a bocca, attonito; o filho proseguiu: — Quanto a serem ambos abolicionistas, não vejo motivo para que os censurem; ao contrario, vejo para que sejam louvados. Não creio que Eva trabalhe contra um irmão de seu pae, em cuja casa está. Que poderia ella, pobre moça, fazer para isso'? Reflicta um momento na desegualdade^que ha entre a sua força e a d'ella, e ha de acalmar-se, meu pae. — Que mal me pôde fazer? todo! Pôde perder a minha familia.. tem documentos perigosos, e neste tempo, o que não conseguirá contra mim? Decididamente é preciso que saia, hei de mandal-a sahir.

Um grande desgosto pintava-se na physionõmia do commendador que, deixando-se cahir no sofá, escondeu o rosto entre as mãos. — Eu nada sei relativamente a Eva, tornou Octavio; conheço-a ha poucos dias e do seú passado nunca me fallaram. Que deu origem á desunião de pae e do tio Gabriel? Ignoro-o! Quaes os documentos perigosos possuídos por Eva? Não sei quaes sejam! De tudo isto só julgo comprehender uma cousa: é gue jogam com a sua reputação, que a calumniam e que devo defendel-a. Lembre-se, meu pae, que Eva tem-nos a nós unicamente por conselheiros e guias, pois que ficou a nosso cargo. O senhor não pôde nem deve expulsal-a; Eva é-lhe mais sagrada do que uma filha! — Irra! exclamou o fazendeiro, batendo com o pé no chão; Eva é um demônio, e ha de ir embora hoje mesmo! — Mas se a teme não a expulse, que isso seria precipitar os acontecimentos de uma maneira brutal. Conte-me com franqueza em que o pôde prejudicar a pobre moçar o que ha de razão em todo este jogo de crianças*! — Faltaes-me ao respeito!? Não sois preciso: eu sei o que devo fazer.. Sahi! — Não saio sem lhe repetir que me declaro protector de Eva e que espero não delibere repentinamente uma situação que nos pôde comprometter a ambos. Deixe passar o casamento de Nicota e, á vista dos factos, o

senhor deliberará Éf^gr o que lhe dictar a consciência. — E a atrevida.da allemôa, que come o meu dinheiro e trabalha para me arruinar! Essa é que não me escapa, c ha de pôr-se na rua,já, já! Octavio tentou encaminhar o pae para a prudência, mas o commendador abriu estrepitosamente a porta e sahiu sem lhe dizer mais nada. Mme. Grüber Jia um jornal perto da janella da varanda, onde a dona da casa, cruzada dentro da rede, embalava-se e cosia ao mesmo tempo. As filhas e a sobrinha não tinham apparecido, e meia dúzia de negrinhas com timão de baeta, sentadas no chão, uniam a ponto de serro os pannos de um lençol. O fazendeiro deu varias voltas, agitadamente, pelo meio da sala; Grüber, com o seu faro de mulher intelligente, adivinhou estar próxima uma tempestade e levantou-se respeitosamente, quando o viu ir direito a ella. — Dona, disse elle, preciso fallar com a senhora. A mestra acompanhou-o até á sala, ao fim do corredor, onde, ainda de pé, o óomfljendador lhe disse: — Vamos fazer contas. Já não careço dos seus serviços.. Nicota vae-se casar e Noemia sabe de mais! — Mas. o contracto.. s

— O contracto quebra-se. — E' que... — Descance que ha de receber o seu dinheiro, como se ficasse até o fim do anno. Mme. Grüber corou, e, depois de uma pequena pausa: — Incorri cm alguma falta? Está por acaso ò Sr. commendador descontente com os meus serviços? — Eu não entendo de livros, não sei se a madama ensinou mal ou bem. Grüber, esforçando-se por não responder, enguliu em secco e depois de uma pausar — Tenho a infelicidade de ser antipathica á sua família? — Nada dMsso! nem eu quero que a minha família saiba que eu a despeço. Eva, sobretudo, entendeu?! Foi, principalmente, por causa d'ella, disse accentuadamente, sublinhadamente, que resolvi dar este passo. — Por causa d'ella! — Sim! sei perfeitamente que a senhora lhe dá conselhos prejudiciaes para mim. — E u?! — Portanto, repito, não lhe diga nada, porque se ella me vem tomar satisfações é que... é que eu a mando ao diabo! — Descance, disse muito pallida e com altivez a extrangeira; eu nada direi, porque não quero desgostar aquelle anjo; unicamente por isso. Saio com a consciência tranquilla, e certa de que o tempo me fará justiça.

E, sem procurar explicações que a justificassem, combinou fazer naquelle dia as malas e partir para Santos na madrugada seguinte: ahi receberia do correspondente de Medeiros o ordenado dos mezes accumulados e embarcaria para Hamburgo, no primeiro paquete allemão. Durante o tempo da entrevista, Octavio, preoccupado, passeava no corredor, olhando de vez eni quando para a porta da sala. De que palavras se serviria o pae? Com que pretexto despediria uma senhora respeitável, de quem o Morton dissera: «é uma mulher instruída e severa;foi-lhesrecommendadapor mim»? Porque haviam de enredar na intriga o nome da Grüber? Que interesse teriam em perdel-a? Qual seria o terrível documento possuído por Eva?! Decididamente, a doente imaginação do pae creára visões de uma absurda crueldade! Havia ainda restos de febre naquelle corpo e com certeza era tudo délirio conseqüente d^lla. Mas a carta? Quem a escrevera? Um anonymo, um covarde, um desgraçado, em quem se não devia pensar. Comtudo, sempre era certo que Eva amava o Azevedo, aquelle boneco de rhetorica balofa! É tornava a pensar na dolorosa expressão do pae: « Eva possue documentos perigosos e tudo conseguirá contra mim! ». Um raio de luz feriu a idéa de Octavio; talvez que a prima tivesse assistido á agonia de algum escravo açoutado.. talvez que in-

dignada tivesse proferido uma phrase de rancor ou um protesto de ódio. O mais leal era ir ter com ella, fallar-lhe sem rodeios, pedir-lhe explicações, instar para que restituisse ao tio a tranquillidade precisa. Resolvido a isso, Octavio desceu ao jardim, onde a essa hora Eva costumava estar cultivando as flores. Não se enganara; a prima entretinha-se a entrelaçar num gradil as hastes de um jasmineiro. Ao vêl-a tão cuidadosa e serena, entre o chuveiro das perfumadas estrellinhàs brancas da planta trepadeira, Octavio teve remorsos de a ir perturbar. Depois, que direito tinha para lhe exigir uma confissão sincera? Como a deveria interrogar? Não se offcnderia ella por a julgarem capaz de uma denuncia contra o homem que lhe dava abrigo, contra o irmão de seu pae, cuja memória respeitava tanto? Pôl-a ao facto da caíta recebida? uma indignidade! Prevenil-a do desgosto que a ameaçava? seria ahtecipal-o. Emfim, confessar-lhe tudo seria o mesmo que dizer: duvido de si, Eva, e por isso, em vez de procurar desarmar o seu inimigo, sem nem por sombras agitar-lhe o somno, venho miseravelmente dizer-lhe o que se passa, pondo-a ' na contingência de, ou se ir embora altivamente, ou ficar humilhada! E' necessário que eu a proteja sem que ella o suspeite, reflectia Octavio; que eu tenha põr ella a solicitude do amigo que lhe fal-

ta e que nol-a confiou. Provocarei uma confidencia do AzeVedo e concorrerei para que o casamento se faça cm breve. Era com amargura mas com, firmeza que o moço Medeiros fazia a si próprio a ultima promessa. Vim muito tarde, talvez que se não amem ha muito tempo... Eva continuava entre as estrellinhas brancas dos jaámins a entretecer-lhes as hastes, e o f>rimo olhava-a de longe, lembrando-sc do que he dissera um dia o seu querido Adolpho Meyer: « Quando vejo uma mulher tratar das^flôres com amor, tenho vontajde de beijar-lhe as mãos!... 8

1/1
Menu

Fazer anotação