Capítulo XXX A Família Medeiros · Capítulo 30 de 42
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Capítulo XXX

XXX Trigueirinhos ficou só. Sentia percorrerlhe a espinha dorsal como que uma cobra de neve, e encolhia-se todo. Arregalava muito os olhos, fixando-os na porta aberta para o vazio negro do corredor. Queria fechar aquella porta, que se abria para a tréva, e não se podia mover! Desejava illuminar bem o quarto, ouvir vozes amigas, sentir o rumor da casa, que o tranquillisasse, e vêr a claridade do sol! Aquelle silencio e aquella escuridão apavoravam-no! Procurava com a vista, anciosamente, ora a janella ora a porta, esperando e temendo vêr numa e noutra surgir, sinistra e aterradora, a cabeça do morto. Como estivesse no meio do quarto, temeu que alguém, á traição, se collocasse atraz d^lle, e recuou espavorido até unir as costas á parede caiada e fria; mas de um e outro lado, os buracos escuros da janella e da porta enchiam-no de terror, e engatilhou o revólver, disposto a defender se dos phantasmas que a sua imaginação excitada lhe suggeria! Houve um curto instante de allivio! No interior da casa uma criança chorou! Emquanto durou o som débil d'essa voz infantil, impotente mas emfim humana, um grande conforto revestiu a sua alma de homem! Desgraçadamente a criança foi depressa acalentada e tudo recahiu na grande quietação ante-

rior. A viração da noite tornava-se cada vez mais humida, e trazia dos campos o aroma fresco da gramma e os sons esparsos e indecifráveis dos animaes e da vegetão. Pelo espirito desordenado de Trigueirinhos passavam e repassavam numa vertigem todas as scenás que presenciara, desde o dia em que um grupo de amigos o foi convidar para a grande desforra! Tinha sido ali mesmo, no Sertãosinho! O Dr. Azeredo e mais cinco amigos diziam todo o mal do juiz, jurando que o haviam de amordaçar de uma só vez. E discutiam baixo a política, e o caracter do homem, pedindo a opinião e o auxilio do Trigueirinhos, que fugia com evasivas, sem saber que partido tomasse! Repugnava-lhe a acção proposta: chegou mesmo a avançar um mas.. os outros porém cahiram-lhe em cima nuns termos enérgicos, reçumantes de indignação, torcendo a lei, esmagando a moral, abafando o que houvesse de bom nos seus corações, abrindo unicamente a válvula ao ódio negro, infectante, corrosivo, immundo, que explodia em borbotões, levando na sua grande torrente as raras florinhas dos sentimentos piedosos. — Todos os lavradoros estão contra elle; veja se quer ser só você o piegas! exclamava o Azeredo. — Venha dtahi! insistia outro; um homem é um homem!

Trigueirinhos torcia-se, mastigava as palavras, mas, não sabendo discutir com o Azeredo -e receiando principalmente que o chamassem—poltrão, annuiu a tudo, embora muito constrangidamente. Desde esse momento envolveram-n'o numa rede de combinações 1 Enterravam-n'o na questão, compromettiam-n'o. O caso era fazer numero, estendendo num largo circulo a responsabilidade do acto. Assim, faziam reuniões, forjavam intrigas e espalhavam pela cidade boatos aterradores, designando astuciosamente uma data certa para uma revolta de escravos, afastando toda a suspeita de que fossem elles, os brancos, os ricos, os senhores, os proprietários, quem andasse pelas ruas de revólver em punho, arrombando casas e despedaçando a felicidade de uma familia honesta e pobre! Os burguezes medrosos encolher-se-iam entre os lençóes, deixando lá fora berrarem os negros á vontade! Trigueirinhos seguia todos os planos, boquiaberto, assustado, tentando fugir ás vezes áquellas combinações, mas obedecendo sempre. Chegara o dia designado para o assalto. Trigueirinhos passou-o em jejum; tinha fastio, amargos na bocea e arripiava-se-lhe o corpo com um frio nervoso e humido. Ao aproximar-se a noite sentiu recrudescer o s u rr:' estar; teve vontade de dizer tudo ao cunhado e ao sogro; chegou a procural-os para isso,

í>—— — " mas.a coragem fugiu-lhe e, abatido pelo medo de uma censura grave e justa, transigiu com a sua consciência. Deliberou não comparecer e estava nesse propósito quando um capanga do Azeredo o foi avisar de novo da parte ao patrão, com a instante recommendação de não faltar. «Seja homem!» dizia-lhe no seu estribilho o amigo; «acompanhe-nos tio perigo como nos tem acompanhado nos dias bons In Trigueirinhos julgou de seu dever e lealdade acompanhar os outros. A's onze horas da noite montou a cavallo e partiu. O céu sem estreitas parecia mais profundo e mais vasto; as arvores, mal sacudidas pelo vento subtil do verão, agitavam preguiçosamente as suas ramas escuras; a natureza, bella e serena, suscitava pensamentos calmos, idéas de uma requintada tranqüilidade e doçura. Era meia-noite quando Trigueirinhos chegou ao pasto do Simões Rodrigues. Assaltaram-iVo com mais vigor idéas desencontradas: via o condemnado coberto de sangue, ouvia a opinião publica depois, açoitando o seu nome salpicado de lama, e vinha em cortejo a prisão, o interrogatório... o despreso da familia e a impossibilidade de continuar a viver alli! No pasto estavam já cerca de duzentas pessoas; ouvia-se um rumor surdo de vozes e a bulha secca, de vez em quando, de uma arma que se apromptava. Trigueirinhos então, sem

saber porque, como um autômato, deu volta ao animal e poz-se a galope para casa. Parecialhe que o perseguiam, que o vaiavam, chamando-o repetidas vezes: «Pusilamine! poltrão!» Tentava parar, ir reunir-se aos companheiros, mas esbarrava com a visão do morto; e a côr do sangue punha-o fora de si. Sentia necessidade de se refugiar em alguém. Iria acordar a mulher, pedir-lhe que o defendesse, rogar-lhe uma protecção que não suppuzera nunca dever-lhe. Entrou á pressa em casa, cahiu nos degraus; levantou-se arrrepiado, transido de medo, sentindo atraz d'elle o Azeredo a dizer-lhe com ironia: «Fraco! medroso! desleal!» Viu então luz no quarto de Octavio, apoiou-se á porta quasi desmaiado e bateu.

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