Capítulo XX A Família Medeiros · Capítulo 20 de 42
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Capítulo XX

XX Nessa mesma tarde a orphã de Gabriel Medeiros despediu-se da tia e de Noemia, que chorava muito, e desceu a escada de pedra de Santa Genoveva; em baixo no terreiro esperava-a o troly já prompto e o feitor, o Honorato, a quem tinham ordenado que a acompanhasse ao Mangueiral. Eva tomou com repugnância logar a seu lado, o cocheiro fustigou os animaes e partiram. O caminho era longo, sinuoso e pittoresco. Iam beirando um no estreito e sombrio aquella hora; a água marulhava nas pedras monotonamente e as rãs coaxavam atoladas nos limos das margens. Eva ia silenciosa, pensando na singularidade da sua vida, nos casos imprevistos é mesmo romanescos, que lhe iam succedendo naquelle meio tão rotineiro e tão avesso a aventuras, e invejava a passividade, a doce tranquillidade das outras mulheres, rodeadas de affectos, de protecção e de confiança! Como era bom ter pae e ter mãe! Como era útil ter um gênio sereno, moldavel a todas as circumstancias! Ella herdara da familia materna aquella rebeldia e independência de caracter, que a educação do pae, homem de raciocínio, pouco conseguira attenuar Elle applaudia-a algumas vezes, outras chamava a precipitada e fazia-lhe pacientemente vêr o erro em que havia incorrido.

Eva concentrava-se nestas lembranças, quando o Honorato principiou a fallar, sem olhar para ella: —Os diabo dos negro faz farta! quando os mardito leva di reio, ahi elles ha de se arrepende... Eva continuava muda, elle proseguia: —Os cafesá tão no matto! porque os cachorro não pôde trabaiá dèrèto... mais também despois elles fica macio que nem sctim. bem faz o visinho Simão, aquelle é que não peldôa mêmo! Sabe aquelle Bento veio que costuma i lá in casa? Eva não respondeu, elle continuou: —Fugiu! mais os capitão do matto agarraram elle e foi mettido no tronco prá sê sovado... o boraco do tronco táva muito apertado, dahi o pé d^lle inchou tanto qui foi pérciso os medico coltá. E riu-se. Eva aconchegou o chalé ao corpo: sentia arrepios. —Negro sem chicote não é gente mêmo. E' á toa... O matto tá cheio de quilombóla, tudo do José Dualte qui é um lavrado sem corage... muito molle! si elle castigasse os negro d'ellenão havéra de assucedê ansim... Tá hi, seu Antune é qui sabe lida cum os preto! Estas ultimas palavras, disse-as com intenção, olhando fixamente para Eva, que parecia impassível.

—Foi elle qui amarrou os negro lá di casa... aquillo é que foi baruio, hein sá dona? Eva não tinha ainda ouvido a discripção da revolta em Santa Genoveva. Não lhe parecia extraordinário o facto; sem imaginar que o seu nome estivesse enredado nelle, fugia de fallar nisso, temendo emittir opinião desagradável aos tios. Agora, que o feitor parecia disposto a pol-a ao corrente de tudo, sem que para isso ella desse o minimo motivo, perguntou-lhe: —Quem foi o cabeça da revolta? —Uê, gentes! mecê tá caçoando? — Ora essa! porque? ouvi dizer que tinha sido o Damião... foi? —Uê! que sperança! ná terra! Houve uma pausa; Eva, enfadada, voltou o rosto e calou-se. O Honorato então disse a meia voz, mas já sem ser percebido: —Se mecê tivesse escravo, mecê avéra de sê mais rigorosa; no que é alhêo não custa fazêdesórde! Depois d'estas palavras fez um gesto de arrependimento, mas Eva já não parecia darlhe attenção. Attribuiu aquella referencia, como tinha attribuido a do tio, á sua piedade para com os escravos. Honorato continuou: —A mardade que os diabo teve de querê mata seu Octavio! aquillo merece bem bom tronco!

Eva voltou-se rapidamente e fixou naquelle homem nojento, que ia alli a seu lado, um olhar cheio de curiosidade. Sentia grande repugnância por elle, e desviava-se do seu contacto. Desde que entrara em Santa Genoveva que o aborrecia; vja-o sempre de chicote em punho, os grossos pés de pelle resequida e gretada, sem meias, dentro de uns sapatÕes de couro amarello, faca á cinta, camisa de algodão mal abotoada, cabellos ásperos, palavras injuriosas a ferver-lhe na larga bocca sensual e carnuda, ignorante, carrasco, impondo-se pela força bruta, pela pancadaria; abominável na sua profissão, intolerável na sua estupidez. Ouvindo-o, porém, referir-se ao ferimento de Octavio, Eva não se pôde cohibir e dirigiu.lhe pela segunda vez a palavra: —Mas quem seria que o feriu, e porque seria? elle é tão bom... O feitor arregalou os olhos pasmado e depois, para certificar-se: — Que é qui mecê tá dizendo áhi? Eva repetiu a phrase; elle exclamou: —Tão vendo só?! Isto é qui eu queria sabe de mecê... Eva attribuiu estas palavras a egual ignorância da verdade e calou-se pensativa. Tinham perdido de vista o riosinho que apparecia numa e noutra curva do caminho, como um brejo meio encoberto de mattos e agriões.

Entraram por fim numa estrada larga, entre cafezaes escuros, promettedóres de grandes safras. Escondia-se o sol, incendiando os vidros das janellas de um casarão branco, isolado num extenso valle á esquerda, muito verde, cortado pelas listas vermelhas dos caminhos. Na estrada amarellada, lisa, viram ao longe um ponto escuro que, á proporção que se foram approximando, verificaram ser um grupo de três homens, douscapitães do matto, armados e ferozes, a arrastarem um negro magro, fortemente enleado por cordas grossas, abatido pelas vigílias e pela fome. O negro, vendo-se já perto da casa do dono, recusava-se a andar, tranzido de medo, fincando no chão os pés escalavrados pelos espinhos e estepes dos caminhos; mas as pernas, bambalcantes, tremiam e arqueavam-se; por vezes cahia de joelhos, e era assim levado, de rastos, como um animal morto e pesado! Atravez da pelle resequida, via-se-lhe desenhada em grandes traços salientes toda a carcassa, a carapinha arrepiada, suja de terra, tinha uns tons ruivos que faziam lembrar as cabelleiras dos diabos de mágica; os olhos salientes rolavam nas orbitas, com fatídica expressão de loucoura! E assim o desgraçado, sempre a debater-se, ia rolando entre imprecaçÕes e ponta-pés.

Chegando perto do miserável escravo, o Honorato levantou o chicote, para bater-lhe nas costas e incital-o a seguir; mas aquelle movimento brusco, Eva seguro'u-lhe no braço ainda no ar, com firmeza, nervosamente, e o troly passou. Era demais! o feitor, vermelho de raiva, resmungou baixo: —Por estas e outras è qui está tudo példido! Eu sempre quero vê de quê sélviu fazê aquella revórta em Santa Genoveva... irra! Excitada contra o seu companheiro, Eva gritou para o cocheiro que puzesse os animaes a galope. Era já noite, quando muito cançada e febril, parou á porta da sua amada e tranquillissima habitação. Apeou-se, entrou apressadamente e foi sorprehender o Paulo no seu gabinete de trabalho. Paulo, depois de ter manifestado o seu espanto, perguntou lhe quem a tinha acompanhado. —Vim com o feitor, disse Eva ironicamente, e é bom darem de beber a esse animal! —Eva! —Vai, Paulo, vai! Elle obedeceu e Eva, vendo-se só, começou a chorar. O feitor de Santa Genoveva voltou pela mesma estrada, ábaça luz do luar, assobiando aUo,repotreado á vontade,com os braços abertos sobre o encosto do trolv.

O gabinete de Paulo era adornado com severidade: mobília de jacarandá, mesa espaçosa com bem feitas carrancas a guarneceremíhe os cantos, estantes cnvidraçadase cadeiras antigas de espaldar alto. Alguns dos seus amigos riram-se francamente d'aquelle desusado luxo, dando-o como a mais irrecusável prova de pouco juizo. O engeitado, o filho adoptivo de Gabriel Medeiros enterrava as suas economias em cousas para elles surperfluas, nosdeliciantes objectos artísticos, tão raros na província! Entretanto, os agentes e commissarios dos grandes armazéns de Paris recebiam listas enormes de toilettes caras; as senhoras encommendavam sedas e velludos, guarneciam-se de rendas, envolviam-se em perfumes e habitavam casas sem conforto, áridas, quasi nuas c aborreciveis! Os rapazes esbanjavam os seus lucros de lavradores ricos láfóra, no jogo, com mulheres, em extravagâncias de toda a ordem, e recolhiam-se sem alegria para os seus quartos cheios de apetrechosde caça, com roupas pelas paredes e garrafas de cognac e bolsas de fumo sobre a mesa. A pouco e pouco abriram-se algumas excepçÕes; já não se pediam só, exclusivamente, os vaidosos vestidos d'esta ou d,aquella modista; reclamavam-se também uns apparelhos de jantar, com o seu monogramma, uns estofos ou uma mobília a gosto do fabricante ou do

expeditor. Comtudo, prevaleciam nesses pedidos os adornos de toilette. E a persistência de Paulo em mandar ir para o sitio trastes elegantes, concentrando nisso todo o seu vicio, era tida como espantosa e absurda! • Que se enfeite uma casa da cidade, diziam elles, vá! mas a do sitio! No emtanto é na fazenda que o lavrador passa a maior parte da sua vida, é nella que lhe deslisam, bons ou máos, os dias; é nella que tem os seus interesses e o seu orgulho de fortuna! Quando Paulo voltou, Eva, sentada perto da mesa, com os cotovellos firmados numa larga pasta de"couro e o rosto entre as duas mãos, tinha os olhos ainda humidos e brilhantes. Elle sentou-se em frente d'clla, fez gyrar o ecran para que a luz do lampeão cahisse em cheio sobre as feições da moça, e, inclinandose um pouco, perguntou-lhe carinhosamente o que se tinha passado. Parecia calmo. Eva estremeceu á sua voz avelludada e grave; levantou-se, deu algumas voltas na sala sem lhe responder; depois, approximando-se d'elle, ainda de pé, com os lábios trêmulos e o olhar indignado, começou nervosa e ininterruptamente a narração de tudo: as injustificáveis e cruéis phrases do tio, o pedido generoso de Octavio,' a sua recusa e sahida precipitada, a desconfiança de que a cercavam e a maneira pouco gentil de a tratarem.

Paulo escutava-a em silencio, com o rosto carregado por uma grande sombra de tristeza; deixou-a expandir assim todo o seu resentimento e cólera; depois fel-a sentar-se e disselhe pausada e moderadamente: — Eva, fez mal! De um movimento instantâneo e irreflectido depende muitas vezes a alegria da nossa vida inteira! Acredite, minha querida Eva, que quanto maior fôr a serenidade, mais certa é, em todos os casos, a victoria. Ora, Eva foi precipitada; não olhou a conveniências nem transigiu com os seus deveres de tutelada! Abriu a válvula do seu temperamento e deixou-o fallar sem consultar a razão. Agora, sem o saber, poderá justificar alguma suspeita que talvez haja a seu respeito, cousa que poderia ter perfeitamente evitado! — Eu não o comprehendo! Sempre o tive na conta de orgulhoso e de justo! — Não o tenho sempre sido, porventura? — E então?! — Escute: ha uma grande differença entre nós dous; eu sou homem, independente, responsável pelos meus actos, prompto adescer álucta, a rolar com o inimigo na terra, na própria lama! Eva é mulher, sem pae, sem marido, sem um braço forte que a defenda, que apare os golpes que lhe forem dirigidos, que esbofeteie, emfim, quem se atrever a dizer-lhe uma palavra menos cortez; provocar um sugeito pouco delicado e impetuoso é,

portanto, um erro imperdoável numa pessoa do seu sexo e do seu critério! — E é o filho adoptivo de meus pães, o meu irmão quem me diz isto! exclamou Eva nervosamente. — Sim! sou eu, o filho adoptivo de seus pães, a quem prezei sempre, a quem devo posição, nome, fortuna, tudo, tudo; mas não sou o seu irmão, Eva! A lei não me dá os mesmos direitos que o coração me confere; e, se assim fosse, se a sociedade me julgasse digno de a proteger, de a amparar, de tomar a responsabilidade das suas palavras e das suas acções, como um verdadeiro irmão, porque não teria ficado aqui, no Mangueiral, a meu lado, na doce, na santa intimidade em que nos criaram seus pães?! Oxalá que eu podesse ter aos olhos de toda a gente o dever de a aconselhar e de vingal-a! — Mas esse é o dever de todo o homem de honra para com uma mulher honesta... — Quando essa mulher é ultrajada em sua presença! — Eu não fui em sua presença, mas negará também què eu tivesse sido ultrajada? — Nego. — Ohl — Eva collocou-se numa posição falsississima em casa de seu tio; mais de uma vez eu lhe disse que as suas manifestações repetidas de piedade para com os escravos poderiam alli ser tidas como um desafio. A sua at-

titudc enérgica e bondosa era com certeza mal interpretada, á vista dos tristes precedentes da familia. velhos rancores, cousas que a gente moça esquece e que a gente antiga conserva na memória! — Velhos rancores! mas que tenho eu com isso? Serei porventura a causa d'esse ódio mysterioso que tantas amarguras deu a meus pães? — Não sei; conheço tanto como Eva essa historia! Algum motivo grave deveria tel-a determinado, apezar de que, nesse tempo, as rixas nas famílias eram freqüentes... mas, não se trata agora d'isso; a verdade é que Eva foi imprudente. — Não me arrependo! — E a verdade é também que terá em breve um protector natural, um marido que a resguarde de todas as calumnias e traições. Tive escrúpulos em mandar hoje a sua carta ao Dr. Azevedo; mandal-a-ei amanhã e o seu desejo será cumprido! Paulo tirou a carta do bolso, releu-a alto e perguntou: — Não está arrependida, Eva? A moça continuou silenciosa. — Persiste em offerecer a sua mão ao Azevedo? — Persisto. Paulo tornou-se livido; depois, com um sorriso contrafeito: — Farei o que manda.

Dobrou outra vez o papel e ia guardal-o quando Eva llVo pediu, com um gesto, estendendo-lhe a mão. Paulo obedeceu, e ella, muito pallida, rasgou em muitos pedaços o papel, e atirou-os ao chão. Sentou-se depois num canto do divan. — Decididamente Eva está excessivamente nervosa! — Sim, estou. Paulo aconselhou-lhe prudência e um esforço para se tranquillisar. Sem força de vontade, qualquer perigo é um abysmo, aífiançava' elle. Vá deitar-se e procure dormir. Isto de se entregar a gente a um desgosto é o mesmo que entregar-se a um inimigo. Descance e espere, que ha de ser feliz! Eva leventou-se, estendeu-lhe a mão, que elle apertou commovido, e voltando-lhe as costas seguiu para o seu quarto sem lhe dizer mais nada. Paulo abriu a janella, sentou-se, e começou a fumar, reflectindo em tudo que ouvira e perdendo-se em conjecturas.

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