Capítulo XXXIX A Família Medeiros · Capítulo 39 de 42
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Capítulo XXXIX

XXXIX Quando a mão patricia da princeza Izabel decretou no Rio a abolição dos escravos, davam-se na prorincia scenas domaisgrotesco e irresistível cômico! Octavio, para quem tudo parecia agora risonho e bello, envolto na doce esperança de desposar a prima, fazia passeios longos, tendo occasião de verificar até que ponto o egoísmo dos velhos lavradores consumia e estragava tudo! Passou dous dias de tranquillidade de espirito, apesar de não ter a definitiva certeza do perdão e da acquiescencia de Eva. Estava na expectativa, mas, vencida a má vontade do pae, tudo o mais lhe parecia fácil e ameno. E emquanto não recebia a resposta de Paulo c o consentimento da prima, elle ia animado e sereno observando com curiosidade a attitude dos antigos amigos da familia. Quando vibrou, como um toque sonoro de clarim, a noticia da redempção dos escravos, o commendador Medeiros foi o primeiro a offerecerá observação do filho um facto singular. Elle, que até então apoiara o governo, applaudindo, por convicção e systema, todos os actos do ministério conservador, partido em que militára desde a mocidade; c le que fora sempre fiel á sua idéa, agarrando-sc a ella como uma ostra á rocha,e que era naseleições um dos influentes e poderosos; elle, o ve-

lho Medeiros, tradicional na política da teri4, como um dos mais ferozes e acerrimos defensores do thr.ono; elle, na tarde do glorioso dia i3 de maio, bufava de indignação, dispersando aos quatro ventos todas as suas velhas opiniões, e proclamando, como única salvação para esta terra, a republica. Descontente, ferido nos seus interesses particulares, elle era sincero; não mudava de política por accinte: mudava porque o impellia a isso a sua decepção. Octavio presenciou, pasmado, aquella mudança. No dia seguinte observou uma scena mais extraordinária em casa do Gusmão, lavrador tido por implacável e duro. A fazenda do Gusmão ficava a meio caminho do Mangueiral, e Octavio acercava-se da casa da prima, procurando sempre um ou outro pretexto, a vêr se a encontrava na estrada, ou se tinha animo de lhe ir bater á porta; mas nem uma nem outra cousa succedia nunca. Eva encerrava-se na sua deliciosa vivenda, e Octavio perdia positivamente o seu tempo. Nesse dia elle tomara o caminho da fazenda do Gusmão, como teria tomado qualquer outro dtaquelle lado; foi encontrar o rancoroso fazendeiro discursando aos escravos, aos quaes dizia conceder a liberdade! E pavoneava-se na sua acçãogenerosa, cpuerendo persuadir os servos de que partia d elle tão grande beneficio!

Octavio não pôde deixar de rir. D^lli, depois do indefectível café, e um pouco de prosa, seguiu de novo peta estrada do Mangueiral, onde as giestas punham grandes manchas amarellas; ia pensativo: tinha escripto a Paulo relatando-lhe tudo, fallava no seu amor e nas esperanças que acalentava. Era já tempo de ter uma resposta.. E porque não iria elle próprio sabel-a? Estava perto; em dez minutos poderia adquirir a certeza de um futuro feliz; porque havia de hesitar? Todavia, a cada passo, surgia no seu pensamento uma duvida, um medo instinctivo, vago, pueril, de ser mal recebido e soffrer uma disillusão. E varria logo do espiriio aquellas supposiçÕes; julgara adivinhar em Eva um sentimento occulto de paixão abafada, e por isso mesmo mais intensa. E revia-a nas bellas horas da sua convivência, desde o dia da chegada, quando a vira pedir misericórdia para o negro escravo, até o dia da partida, em que a tinha visto sahir de cabeça erguida e olhar faiscante e altivo! Pensando nella, a viagem tornou-se longa: deixara o animal seguir á vontade, placidamente, até que se encontrou, já tarde, á luz das primeiras estreitas, no terreiro de Santa Genoveva. Na grande \aranda sombria rangiam, como sempre, as redes e ouviam-se bocejos. Noemia já não brincava com os cães; perdera essa mania; agora tinha a de ensinar uns pombos correios, mas já se ia mostrando desanimada com a estupidez dos

pobres bichinhos e andava á cata de outra distracção. A lembrança de Paulo tinha-se apagado. Com o seu temperamento e os seus quinze annos, as sensações iam-lhe e vinhamlhe sem.que ella realmente se sentisse muito perturbada! — Veiu alguma carta para mim? perguntou Octavio ao Saturnino, logo ao chegar. — Não senhor. não veiu nada, que me conste! respondeu o mulato com os seus gestos pretenciosos.

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