Capítulo XXXVII
A FAMÍLIA xMEDEJROS XXXVII No primeiro dia de maio o commendador Medeiros acordou sobressaltado, ouvindo de um amigo commum a noticia de ter desapparecido o Antunes! — Ora essa! exclamou elle muito espantado; então um homem é cousa assim que se suma, sem se saber como nem porque? — Seria assassinado? — Uhm.. é pouco provável, o Antunes não tem inimigos, que me conste... — Ter-se-ia suicidado? — Qual! E1 verdade que os negócios d^lle estavam atrapalhados. mas não dava para isso. — Homem, elle gostava do seu joguinho e voltava a que horas da noite para casa; pôde ser que na estrada... — Também não me parece. — Sim, é verdade que elle era muito caipora no jogo; não levava nunca dinheiro para casa.. — Teriam escondido o Antunes?! — Para que fim? — Na verdade, p'ra que? — Ora! vocês estão mal informados. O compadre a estas horas está a regalar-se em casa da irman, em Campinas. — Não está, já lhe perguntámos; ella não sabe do irmão desde o casamento da filha. — Oh! diabo, o negocio então é serio.
E o commendador foi com o amigo ao sitio do Antunes. Encontraram a caseira, chorosa. O Antunes sahira sem dizer para onde, havia uns vinte dias, e o sitio passara do poder d'elle para o de um outro sujeito, que se dizia administrador de um banco. — Seu Antunes sempre teve maurejume (i), disse cila com um suspiro; e depois de uma pequena pausa: E' verdade! acerescentou, quando os visitantes se dispunham a sahir: seu Antunes me deu uma carta pYa eu entregar a seu commendador, mais eu não tive portador e guardei ella commigo p'ra quando nos encontrasse.. E levou um tempo immenso a procurar a tal carta na cesta de costura, indo por fim achal-a entre o travesseiro e a fronha da cama. Medeiros rasgou o envellope, mas, lendo logo no começo a palavra — RESERVADA — em grossos caracteres, sofreou a impaciência e guardou-a no bolso, desculpando-se com o companheiro. Sahiram e foram junetosaté a cancelladc Sta. Genoveva; ahi o outro seguiu para a cidade e o commendador entrou. Um quarto de hora depois, fechado por dentro no seu quarto, elle abria curiosamente a carta do Antunes e lia entre a indignação e o pasmo: li) Regime».
«Meu bom amigo Medeiros—Fujo, e peço a Deus e a você que me perdoem. Como nunca mais ha de tornar a me pôr a vista em cima, e como as cousas já tomaram o caminho que haviam de tomar, deixe eu lhe fazer as minhas confissões; vou mudar de vida e não quero carregar remorsos. Meu compadre e amigo! são historias tristes as que eu tenho para vos dizer! o primeiro caso de que me arrependo e peço perdão, foi passado ha muitos annos. Lembra-se, meu amigo, da morte do jornalista, avô de sua sobrinha? » Neste ponto o commendador Medeiros sentiu perturbação na vista e um suor afflictivo humedeceu-lhe a testa; teve*um momento de pausa e proseguiu depois na leitura: « Pois fui eu que -matei elle, meu compadre, fui eu! « Deveis estar lembrado que pousámos no mesmo hotel emS. Paulo, ora, o seu pagem, o Antoninho, já tinha sido meu escravo e me respeitava muito, ordem que eu desse a elle era cousa cumprida! Eu então ordenei que me levasse todas as cartas que escrevesseis, era para vêr se vós me compromettieis com o vosso irmão Gabriel, a respeito da hypotheca do sitio e da berganha da casa de vosso pae com a minha... Desejava também vêr se lhe queria persuadir de casar com minha irman. Foi assim que eu li o bilhete em que o senhor ameaçava de morte o jornalista, mais não puz logo no sentido o que depois suecedeu!
O diabo foi o demônio do jogo, que foi sempre a minha peldição. Na mesma noite em que li o seu bilhete fui para o o club e calhou de jogar com o avô de Eva; elle ganhou, eu perdi tudo! fiquei desesperado, me lembrei do seu bilhete, esperei na esquina e matei o homem; mas quando ia tirar meu dinheiro das algibeiras do casaco d'elle, não sei o que senti: entrei de tremer, e voltei para o hotel, como um idiota. Encontrei no meu quarto o seu pagem, zanguei-me com elle mais fiquei sempre com medo que vos dissesse da minha indiscrição, e p'ra ter elle sempre em baixo das mãos foi que vos pedi o logar de feitor'no seu sitio. Ahi estive; quando tive de me retirar o seu pagem morreu! Deus me perdoe! Depois disso passaram-se muitos annos, e fui sempre bem recebido por toda a vossa familia. excepto o Gabriel, que parecia desconfiado de mim! e mesmo eu não tinha coragem de encarar com elle! Julgava-me livre de commetter outro crime, infelizmente, porém, não foi assim! Agora, ha poucos mezes, tornei a cahir; eis o caso: desejava com grande empenho que a minha sobrinha Sinhá casasse com o seu filho Octavio, não só por sympatisar muito com elle, como porque eu, como tutor d^lla, tinha disposto do seu dote em transacções com amigos; sendo você o meu maior credor, estava claro que seria o mais indulgente, passando depois a sua divida a ser liquidada com seus filhos, isto é.
estava já na familia parte importante do dote de Sinhá, e eu não soffreria nada com isso! Suppunha que Octavio se agradasse da menina, mas desconfiei de Eva. que formosa e instruída acabaria, se não a puzessem á margem, por apossar-se do coração de Octavio. Fui espiando o negocio e quando vi que as minhas prevenções se realizavam, fiz com os meus capangas o barulho em Santa Genoveva, atirando depois com a responsabilidade p'ra as costa da orphã do Gabriel! A coisa foi bem feita. E vi com alegria e orgulho que V despedia de casa aquella que eu temia vivesse ao lado de Octavio! o ferimento de seu filho é que eu não previ eme entristeceu, felizmente elle está bom e não levo por isso cuidados. Do que me arrependo é de não ter feito a intriga a tempo, foi tarde e já nada aproveitou! Q casamento do Azevedo com a minha sobrinha me pôz em embaraços, houve exigência de dinheiro, etc, rompi com minha irman, o meu sitio, já hypothecado ha annos, foi-me tirado hontem! Vejo-me sem recursos e para não viver humilhado onde já aparentei tanto, fujo para outro paiz, onde não saibam os meus credores! Escrevo esta carta como quem se confessa! E o único alivio que posso ter no fim de minha vida é saber que me perdoaes. Rasgae esta carta e esqueça-se do desgraçado que a escreveu!.. Perdão, mais uma vez, perdão! Seu amigo,—Antunes. » O commendador, livido e tremulo, tornou
a lêr do principio ao fim, uma, duas, quatro vezes, aquelle papel maldicto, que parecia queimar-lhe as mãos! O homem em quem tanta confiança tinha depositado, a quem sempre recorria numa occasião de desgosto ou de duvida, era um deposito de veneno, um espirito pervertido e um coração falso! Buscava-o como um consolo, e era só elle, única e exclusivamente elle a causa da sua desgraça! As lagrimas cahiam-lhe em fio pelas faces manchadas de indignação e de cólera! Sentia raiva e dôr ao mesmo tempo: uma illusão de muitos annos não cae, sem que o golpe não cause magua intensissima! E' como se fosse uma arvore copada, viridente, perfumosa, a cuja sombra se tivesse affeito e que arrancada de repente deixasse tudo árido, secco e melancholico! Nessa mesma tarde, o commendador, mostrando ao filho a carta do Antunes, confessava-se arrependido do que fizera á sobrinha. Octavio, radiante de alegria,lembrou-lhe irem todos ao Mangueiral. — Para que? Estou velho e não me devo abaixar a pedir perdão a uma criança! Ella que fique sabendo que já não a odeio e é quanto basta! Octavio quiz insistir: o pae voltou-lhe as costas.