Capítulo III
A dona da casa tivera o cuidado de mandar buscar com urgência as malas do filho. Durante as horas de palestra familiar, de descripções da viagem, dos exames e de vários episódios com que se entrctiveram de manhã, seguira o pagem a toda a brida no desempenho d'essa previdente missão. A's duas horas, Octavio reformava com satisfação a sua toilette, no seu quarto de outr'ora, um quarto bronco, pequeno, com uma janella de peitoril?obre o campo; ás três, reunia-se ao pae, na mesma sala da frente, onde já era esperado com impaciência e para onde o haviam chamado, quando elle ainda começava a abotoacr o collarinho em frente ao espelho. Chegando ao corredor, viu que paravam no terreiro 0*5 trolys dos visitantes. O pae fez-lhe signal de que se approximasse. O commendador Medeiros esperava de pé, no patamar, radiante de alegria, ós amisros que ia successivamente apresentando ao filho. — Major Trigueiros, futuro sogro de Nicota... O major Trigueiros era um velho alto c magro, de grandes bigodes e pera branca, cara curta, engelhada, olhos acastanhados é redondos, movimentos exquisitos e angulosos trazendo á idéa de quem attcntas,se nelle o todo extravagante e bizarro da cegonha.
Octavio cumprimentou-o affavelmente. Seguiu-se o noivo de Nicota, Álvaro Trigueiros, um rapaz baixo, moreno, de barba rala, rente ao rosto inexpressivo, beiços finos e rasgados, cabello cahido na testa, numa pasta luzidia e chata. Agora era o Azevedo, promotor publico, rapaz de estatura mediana, claro e louro com os olhos muito azues a brilhar atravez das lunetas, barba em ponta, pelle bem tratada. Por fim subiu o compadre Antunes, o único já conhecido de Octavio, homeríÍgf«ardor grisalho, de suissas curtas e nariz, pequeno enterrado entre as bochechas carnudas-; colr lete desabotoado, casaco a luzir nas:costuras,, lábios grossos, unhas rentes, ex-feitor da fazenda de Santa Genoveva, cargo que exercera durante annos e de que se despedira para tomar contada lavoura de um filhoquelhe morrera victima dos escravos. Entraram todos para a sala,onde não estavajíienhuma senhora. Depois de meia dúzia d? perguntas banaes, sobre a viagem, e do&v parabéns pela volta de Octavio, distribuiramse aos grupos, conversando descançadamente sobre as ultimas eleições e futuras colheitas, alforrias, corridas de cavallos, etc. O major' Trigueiros elevava a voz, áspera e cortante, acima de todas as mais, desfechando raios de cólera sobre os conservadores, que tinham feito uma grande entrada na urna eleitoral, emquanto o compadre Antunes perguntava ao Azevedo se havia gostado da ultima corrida
no hippodromo de Campinas. — Que sim, afirmava o promotor, e que só para ver as moças bonitas de Campinas, valia a pena ir lá.—E a égua do Aranha, hein? que bom animal! E' ingleza e legitima! ganhei nella ha três mezes; aquillo é que é! Octavio,approximou-se do noivo dairman; Trigueirinhos remexeu-sc e fallou-lhe de um modo constrangido, trocando a miúdo o / pelo r. Cançado da viagem e da conversa, Octavio foi encostar-se a uma janella. O te$£eiro de tijolo, para a secca do café, estendia-se muito limpo e largo deante da casa. Aoupé da escada de pedra-, dormiam deus cães, estiradamente ao sol; lá em baixo no grandeJtanque (') havia scintillaçÕes douradas de luz na água serena, e os pombos voavam aos bandos de entre uma cerrada tousseira de bambus. Os trolys, sem cavallos, inclinados para a frente sobre os varaes, alinhavam-se á sombra, e do lado opposto á cancella, entre as palhas de milho espalhadas, fossavam os porcos. Muito além, fechando o horizonte, a floresta unia com uma linha luetuosa e recta a terra ao céo. Aquella paizagem entretinha-o mais do que tudo que se dissesse lá dentro. Octavio deixou-se alli,, longamente, até que o foram chamar para o jantar. (1) Os paulistas chamam tanque ao lago que ha em todas as fazendas, para aguada da criação e serviço da casa.
Na grande sala, a mesa coberta de crystaes offerecia um aspecto brilhante. Ao fundo, as senhoras conversavam. Octavio, foi apresentado á mestra de Noemia, Mme. Grüber. Os servos e mesmo a dona da casa simplificavam-lhe o nome, chamando-a de Madame, simplesmente. Era uma senhora de quarenta annos, alta, magra, muito loura, vestida de castanho, com um collarinho de homem e um alfinete redondo, de marfim, segurando-lhe a gol Ia do vestido. Nicota e Noemia trajavam irmanmente,de azul, com lacinhos de velludo preto nos punhos e no pescoço. A mãe ia e vinha, fallando baixo com as mucamas, fazendo tilintar as chaves dos armários, attenta e cuidadosa para que não faltasse cousa alguma. Sentaram-se á mesa; de um lado ficaram os homens, do outro lado as senhoras, no systema paulista; só lá para o fim da mesa se alterara a ordem por falta de espaço e passou o promotor para junto das senhoras. Octavio percorreu a vista pelo recinto, admirado de não vêr a prima, quando ella appareceu; sentou-se entre a allcmã e o Dr. Azevedo, que ao vêl-a levantou-se corado. A' cabeceira o dono da casa fallava muito alto aos convivas. Octavio,ao pé,assistia ás baterias de perguntas e respostas. Era uma bulha de vir tudo abaixo! O moço de vez em quando olhava em r?u° r' ^ Trigueirinhos comia com a faca, olhando para o prato, não bebia vinho, mo-
lhava de vez em quando os beiços num copo d'agua e continuava depois muito sério a encher a bocca de feijão, hervas e pasteis folhados: em frente d'elle, a noiva, menos preoccupada como prato,lançava-lhe de muito em muito longe um olhar rápido; Noemia ria alto, dando ás vezes uns guinchinhos agudos, ao ouvir o compadre Antunes contar velhas anecdotas colhidas nos almanaks; a mãe apontava aos pagens os copos a encher e os pratos a renovar, e, lá no fundo, Mme. Grüber comia sem interrupção e o Dr. Azevedo curvava-se fallando para Eva, que o escutava distrahida, empurrando com o pão a comida para o garfo. Travára-se uma discussão entre o major Trigueiros e o dono da casa; as vozes foram subindo; abarcavam gritando. O commendador Medeiros retrucava com desdém ás afirmações do outro: «Capaz! capaz!» E o cavai&nac do major salientava-se, vinha para a frente,, ia para traz, num movimento continuo. Entretanto, as outras pessoas tratavam de fallar mais alto entre si, para que as suas vozes não fossem abafadas: De repente a questão acabou. O commendador bebeu um copinho de vinho do Porto com água, e o major, esquecendo momentaneamente que não estava em sua casa, fincou o calcanhar esquerdo no banco em que se assentava, elevando o joelho pontudo á altura da barba.
Aproveitando o momento de menos bulha, o Azevedo levantou-se, ergueu o copo e brindou a família Medeiros, fehcitando-a pelo regresso de um de seus membros: arranjou um discurso florido, num estylo guindado, onde de vez em quando apparecia, como um espantalho,um nome histórico. Aquillo durou. Elle lançava a voz em inflexões de effeitor arrastando-a dos sons mais graves ao mais agudo falsete. As senhoras ouviam-n'o, paradas, com os olhos fictos nelle. Como isso fosse pelas alturas da sobremesa, o major Trigueiros mergulhava no seu grande prato, transbordante de leite, um grosso naco de abóbora assucarada, e o compadre Antunes ia devastando os cálices de doce de batata, cousa muito da sua predileção. Quando se levantaram da mesa, Octavio suspirou de allivio: precisava de ar fresco e de descançar os ouvidos aturdidos na distracção de umpas seio ao jardim com as irmans e a prima. O commendador,porém,arrastou-o com os amigos a vêr a nova casa da macfiina, extensa e assente no baixio de uma collina, por onde desceram á sombra de limoeiros floridos; d'alli passaram ao açude, ao paiol, ao moinho e á. estrada nova, ladeada pelos cannaviaes de um verde macio e fresco, até o cafezal, onde os carreadores muito limpos se estendiam a perder de vista. O commendador, á frente,
guiava a comitiva, orgulhoso da sua propriedade. Os outros commentavam alto o que iam vendo. — Olhe, meu amigo, chamava o major Trigueiros, as suas terras parece que já estão cançadas... — Qual! protestava o fazendeiro, nunca deram tanto como agora! — Isso não quer dizer nada. Desconfio muito d'esta seceura e amarellidão! E indicava com o beiço inferior o terreno. A minha é roxa, que lá as terras do sertão valem muito mais... O Azevedo ia ao lado do Trigueirinhos conversando num tom discreto, e o compadre Antunes, que ia atraz, reteve Octavio e perguntou-lhe abruptamente: — Que tal lhe pareceu sua prima?. E, como não recebesse em resposta senão um olhor de extranheza e surpresa, o Antunes continuou: — Eu vos explico. Aquclla moça é manhosa: com o seu arsinho de santa é capaz de pôr esta casa de pernas para o ar! Foi bom que o senhor chegasse, para tomar sentido em certas cousas... Eva intriga! A um sorriso de incredulidade de Octavio o outro aíürmou, com lampejos claros nos olhos pequeninos: — Intriga, sini! Detesta vosso pae,ora ahi está. Gosta do Azevedo e o Azevedo está-lhe
com o olho no dote... sabem ambos que o commendador deve ao Banco uma grossa bolada... — D'ahi? perguntou Octavio, no mesmo tom de leve zombaria. — D'ahi? o director do banco é o tio do Azevedo! comprehende agora? — Perfeitamente. E' uma historia assim parecida com a do Castello de Chochurumello. — Isso é que eu não affirmo, porque não sei o tal conto do castello. — Pois, meu amigo, é séria; ora imagine que é a de um cão que mordzu o gato que matou o rato que roeu a correia que atava a chave do Castello de Chochurumello. O Antunes indignou-se, disfarçando a cólera com um riso amarello. — Não cuide que eu brinco, continuou; tome sentido! Seu pae já sabe de muitas cousas, e por ser prudente cala-se; está convencido, e tem provas, de que a sobrinha quer arruinal-o, vingando assim o finado Gabriel. Ora, o tempo provará se tenho razão em recommendar-lhe vigilância! Edemais, aquelle procedimento com o Azevedo é vergonhoso, é preciso decidir-se o casamento, e. que se ponham a andar! Octavio respondeu com altivez ao Antunes, notando-lhe que lhe não competia intervenção em tão sérios negócios, e concluiu: — Eva é livre; fará o que entender. — Lembre-se que afinal seu pae é que é o responsável pelas asneiras d'ella!
— Não lhe dê isso cuidado. O tom secco e decisivo de Octavio emmudeceu o ex-feitor de Santa Genoveva, que mastigou umas palavrasTnintelligiveis. Na frente o grupo ia descuidado e fallador. Antunes apertou o passo e foi ter com o major Trigueiros. Octavio olhava para as costas estreitas do Azevedo, para o seu corpo effeminado e bem cuidado; o cabello louro earapinhoso, onde o sol punha reflexos avermelhados, côr de cobre, a mão muito branca com que alisava a barba apparecendo acima do hombro esquerdo nuns movimentos vagarosos, de caricia. De repente o noivo de Nicota voltou-se, e vendo o futuro cunhado sósinho, propoz que o esperassem e continuaram depois os três, indo Octavio no meio. Então Trigueirinhos, já mais familiarisado, perguntou-lhe se as arvores na Allemanha não eram rachiticas, se bebiam por lá bom café, se havia luxo nas casas e gentileza no povo. O Azevedo escondia sob o bigodinho louro um fino sorriso de ironia. Octavio ia respondendo sempre com phrases curtas, como se as palavras lhe custassem um grande esforço. Trigueirinhos concluiu a palestra convidando-opara uma caçada ás pacas e ás perdizes no seu sitio; era louco por esse gênero de divertimento. Um mal de família, expli-
cava elle. A mãe sahia todos os dias para o matto, com a sua espingarda; era uma destemida! O avô materno^apezar d >s seus oitenta annos, galopava pelos campos do Jahú, dias e dias, farejando caça... E aquelle homensinho baixo, magro, amarello, de dentes postiços e pastinjias lustrosas, empapadas de Orisa, fallava nas correrias, nas esperas no bosque, mostrando-se adextrado e ágil como um heróe das mattas! Quando voltaram, os trolys esperavam já promptos no terreiro. Os visitantes partiram: Nicota e Trigueirinhos cumpriment.ram-se friamente; era a ultima v e z ^ u e se veriam antes do casamento, marcado para d^sse a quinze dias. Azevedo murmurou alguma cousa baixo a Eva, que lhe respondeu disfarçadamente, chegando Octavio a perceber estas palavras: — Eu escrevo amanhã. — Obrigado. Eva retirâra-se e entrara o feitor que vinha prestar contas ao dono da casa, censurando-o por ter mandado tirar os ferros ao Manoel. — Aquelle diabo é um peldido, dizia elle na sua linguagem muito arrastada. O commendador explicou-lhe o facto e o feitor encolheu os hombros, aborrecido. Começaram as indagações e n.rracões do trabalho.
Octavio approximou-se de Noemia,que se debruçava na janella. A noite estava fria e escura; no céo profundo luziam as estrellas, e elle, attrahindo docemente a irman, perguntou-lhe: — Como passam vocês aqui as noites? — Muito mal. — Sim? — Imagine: mãe acorda de madrugada e, como lida muito, logo á noitinha tem somno. Pae também. Nicota balança-se na rede ou faz crochet; eu não gosto de rede nem de crochet, por isso brinco com o Vinagre ou com o Júpiter, que fazem muitas sortes, quer vêr? —• AmanJkã.E ciue janella é aquella, que está com luz r — E1 de Mme." Grüber. Eva faz serão no quarto da. mestra, lêm e trabalham junctas. — Porque não fazem serão antes aqui, na sala, perto de todos? — Porque o barulho não permitte que entendam o que lêm, e pae, bem sabe, não gosta de livros em mãos de mulher... — Você nunca assiste aos serões? — Nunca! — Faz mal. — Porque? — Teria occasião de adeantar-se eoccuparia o espirito durante algumas horas. —- Eu não sou intelligente c não entendo allemão; de dia sim, estudo; á noite estou cancada!
te — Eva falia allemão? — E francez. — Imagino.. aposto que não sabe coser! — Costura até muito bem. — Sim? — Eva sabe tudo; não conheço outra pessoa assim! — Vejo que você é muito amiga d^lla. — Sou. — E Nicota? — Essa não! — Porque? — Acha Eva muito pretenciosa... — E não será? — Qual! " — O Dr. Azevedo parecia encantado com a rosa que ella tinha no peito... — Ella gosta muito de flores. — E elle muito d'ella, não é assim? — Pôde ser. — Nunca se fallou nisso cá em casa? — Nunca. — Pois admira. Que edade tem Eva? — Vinte annos. — Só? — Nem parece ter mais. — E' mais velha do que Nicota. — Um anno. — Mas qual será o motivo da antipathia de ambas? r w, 7J®e a m b- a s n â oE v a S o s t a de Nicota, Nicota e que nao gosta de Eva?
— Ciúmes? — De quem? Não; julgo que é porque Eva disse um dia que não se casaria nunca sem amor, assim como... — Nicota. — E' exacto. — A quem disse ella isso? — A nós. — E' romântica, mas afinal tem razão. — Pois foi esse o motivo; Nicota contou logo tudo a mãe, mãe contou a pae e... — Pae zangou-se, está claro. — E não quer que-a gente esteja muito tempo perto d'ella, com medo que nos pegue a sua maneira de pensar — Como veiu ella para cá? — Hein? — Quem a trouxe, qual o pretexto, como se arranjou tudo isso? — Eu estava no collegio, não sei de nada, mas quem a trouxe parece que foi o doutor Morton. — O doutor Morton! — Sim. Elle era amigo de tió Gabriel e foi sempre o mestre de Eva; estimam-se muito. — An... Então Noemia já a encontrou cá? — Já. Havia cinco mezes que ella morava em Santa Genoveva. Estava ainda de lucto fechado pela morte do pae; logo que me viu, desceu aquella escada e foi-me abraçar. Eu não sabia quem era e fiquei admirada;
depois perguntei a Nicota, e quando ella me respondeu que era nossa prima, fiquei muito contente. — Eva falia muito no pae? — Pouco, mas chora muitas vezes e lê papeis d1elle. Quando vae ao Mangueiral não tem animo de voltar de lá! — E que é o Mangueiral? não me lembro que houvesse aqui uma única mangueira! — Effectivamente aqui não ha. — Então onde é o Mangueiral? — E1 o sitio de Eva, que se chama assim. — Quê! Eva te.n fazenda?! — De que se admira?! Tio Gabriel era rico. — Não me lembrei disso, julguei-a pobre. E' perto d'aqui? — E' — Costuma ir com pae? — Não, com Mme. Grüber, só; pae não gosta de a acompanhar — Mas se Eva ficou rica, por que mora aqui? — Porque foi a ultima vontade do tio Gabriel. Olhe, quem vos pôde explicar tudo é o Dr. Morton. E Noemia afastou-se, chamando Júpiter para as sortes. Na grande sala de jantar, a varanda (d) um lampião preso á parede, localisava a sua (1) Os piulistas costumam chamar—varanda—á sala de jantar, qualquer que seja a sua collocaçãp na casa.
pouca luz num limitado espaço; todo o resto da casa, na sombra, tinha um aspecto somnolçnto e fúnebre. As redes rangiam nas argolas de ferro seguras aos humbraes; ouviam-se bocejos. O feitor continuava a descrever o seu dia, repisando as faltas do Manoel. Octavio não os quiz perturbar e deixou-se á janella, olhando para o ponto da casa onde brilhava a luz de um candieiro com abat-jour de porcellana; d pois desceu a escada e seguiu até debaixo da janella illuminad-a, sentando-se no banco de pedra cpae parecia terem propositalmente posto alli. As rãs coaxavam nos. charcos, e na solidão sombria do céo as estrellas punham luminosos botões trêmulos. Lá de dentro, do quarto illuminado, vinha um murmúrio de vozes e um farfalhar de papeis. Durante todo o dia elle não tivera occasião de conversar com nenhuma dessas mulheres, que eram indubitavelmente as de mais espirito alli e cuja conviveneia mais distracções lhe offereceria. A passividade da mãe; a maneira de pen* sar do pae, tão contraria á sua; a frieza da irmanmais velha ea ingenuidadeda mais nova, obrigal-o-iam a uma vida, concentrada, para que não sentia disposição. Cançado da sua vida de rapaz sósinno, sem lar, sem alegrias intimas, correra ancioso para a família e logo no primeiro dia em que a viu e em que a abraçou, convenceu-se de que não seria nunca comprehendido por ella.
E desilludido, amargurado, lembrou-se das impertinentes insinuações do Antunes e, como para confirmação d'eílas, das palavras da prima ao Azevedo, na despedida. Não tinha tempo para formar de Eva um juizo definitivo, e via, com extranheza, julgal-a cada qual a seu modo. A sua figura altiva, a sua fronte erguida sempre como a desafiar o perigo, o seu olhar sereno e andar firme, demonstravam-lhe uma natureza fria,orgulhosa, inaccessivel; lernbrava-se, porém, da sua voz doce e clara, penetrante e meiga, da sua intervenção pelo miserável.escravo e vacillava entre a candura e a compaixão ou o sentimento calculado e hypocrita. Viera encontrar em casa um problema, um ser com azas para uns, com patas para outros, mysterioso e attrahente por isso mesmo. Eva não se mostrara nem surpresa nem contente pela chegada do primo; recebera-o como a um extranho de quem não tivesse ouvido nunca o nome. Octavio reflectiu nisso e tornava a lembrar-se das palavras ditas ao Azevedo, na penumbra do corredor. D'ahi, quem sabe? Talvez o Antunes tivesse razão. A antipathiadopae pela sobrinha deveria ter um ponto de apoio que a justificasse. Eva mettera-se em casa de um velho inimigo da sua família, com o fito de uma vingança qualquer... era o que lhe queria ter feito acreditar o Antunes, que, afinal, era um homem pratico... Não! isso seria uma indignidade '
Mas o certo é que ella era evidentemente uma mulher de recursos, uma mulher perigosa. E deixando-se arrastar por uma corrente de maus pensamentos, Octavio sentia quasi alegria eni' encontrar naquella solidão um motivo de lucta, um sentimento forte que o penetrasse c o não deixasse cahir na apathia provinciana. Ia levantar-se, tendo-se em mente declarado contrario a Eva, quando a doce voz da prima, num tom grave, recitou lá dentro uns versos de Goethe. Octavio estremeceu; aquella voz humida de frescura, cahihdo serena no silencio da noite, vibrada numa lingua a que se habituara ha tantos annos, e em que expressara os seus primeiros amores, perturbou-o fortemente. Tornou a sentar-se no banco de pedra, vendo sem attenção os pyrilampos scintillando aqui e além, e ouvindo encantado, avidamente, as melancholicas phrases do velho amigo de Bettina.