Capítulo VIII A Família Medeiros · Capítulo 8 de 42
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Capítulo VIII

VIII Numa pequena sala quadrada, com portas de vidro para o jardim, Noemia e Eva esperavam Paulo e os hospedes. Pela janella aberta, emmolduráda de mimosas rosinhas de toucar, entrava o aroma das flores e o alegre -chilrear dos pássaros de um viveiro que ficava perto. A mesa, posta com elegância, despertava o appetite. As garrafas de crystal, com vinho, o abatcaxi cortado em espiral, expondo a sua carne dourada e summarenta; a fructeira de madeira escura, das Caldas de Minas, com pecegos e uvas aninhadas em musgo novo, ainda cbeiroso e humido, o pratinho das azeitonas e do salame, o requeijão feito em casa, a farinheira de coco com relevos trabalhados na Bahia, a manteiga fresca, fabricada egualmente no Mangueiral, e os cangirões de barro cheios de leite natoso, davam áquella mesa de campo um aspecto risonho e convidativo, tanto mais que o relógio marcava já meio dia. Sentados á mesa, a conversa tomou diversos rumos, variando de momento a momento o assumpto. Acabado o almoço, Azevedo partiu, confessando-se com pena de deixar aquelle delicioso retiro e ter de ir á fazenda do Leocadio, a interesse de umas orphãs menores, que não conhecia, mordido do calor dos descampados,

para se demorar numa casa de incrível aridez, em que o dono, paulista refractario á civilisação, apparecia ás visitas em mangas de camisa, chinellos e chapéo enterrado até as orelhas!• Paulo e Octavio seguiram a pé, numa visita e revista á colônia;.Noemia e Eva ficaram esperando o Raymundo. Elle não se fez esperar, veio logo ao primeiro chamado. Era um homem alto, de barba ruiva, olhos azues e rosto queimado, carregando muito na sua pronuncia minhota, pospontada de diminutivos. Eva evitava envolver-se na administração do Mangueiral, accedendo, uma ou outra vez a isso, só a instâncias de Paulo. Nunca, porém, fora chamada ppr tão futil pretexto-; manifestando a Paulo a sua surpreza, elle respondeu-lhe com um sorriso. — E' que eu estava com muitas saudades suas... comtudo, Eva, não deixe de aconselhar o Raymundo, e o outro, como cousa sua, sem que elles suspeitem que eu me metti nisso. Raymundo entrou embaraçado, e ás interrogações de Eva respondeu gaguejante, procurando os termos com dificuldade, até que, mais animado pela attenção com que era ouvido, seguiu sem interrupções: — « E' que. minha senhora. o Samuel quiz bater na minha pequena., a senhora bem sabe que ella é aleijadinha e fraca...

vae então, eu perdi a cabeça, e quiz dar cabo d'elle, ora ahi está! A pobresinha de Christo ficou estarrecida que nem pinga de sangue parecia ter! não, que uma coisa assim!... Ainda hoje. o anjinho é ver (com perdão da palavra) o demo do velho, que parece logo de cera, como uma santinha! » O desgraçado tinha medo de que o despedissem. O trabalho dos colonos é duro, e era em todas as outras fazendas mal retribuído. Só alli encontrara certas vantagens que lhe permittiam viver á farta e ainda guardar todos os annos algum dinheirinho. Tinha consciência do valor do seu braço de camponez robusto, e não queria ser explorado. Do esforço que fazia para cavar a terra, via brotar esperanças de futuro descanço. Antes de entrar no Mangueiral trabalhava para os grandes proprietários, supportando injurias de feitores boçaes; acertara por fim numa fazenda modelo, estava feliz. Eva provou que elle tinha sido impetuoso e que, se não refreasse o gênio, poderia um dia comprometter-se. Que ella advogaria a sua causa se o visse fazer as pazes com o Samuel. Não quero no meu sitio duas pessoas que se aborreçam, concluiu. O colono sahiu cabisbaixo, e foi chamado o Samuel. Era um velho baixo, gordo, de cabellps corredios e brancos, a quem Eva se habituara a chamar desde pequena, por—tio Samuel.

Tinha por elle um certo respeito que a impedia de censural-o- abertamente; deu-lhe um cálice de vinho que elle exgottou, fel-o sentar-se e perguntou-lhe: — Então que foi isso?! Tio Samuel quiz bater numa criança? — Porque já que o pae não sabe ensinal-a, é preciso que um extranho se metta nisso! E desanco-a se ella me torna a fazer caretas! — Não diga isso; quando alguma criança se portar mal com Vm., faça queixa aos pães ou ao Sr. Paulo. Eu não quero que o bom tio Samuel seja o papãopara os anjinhos. E agora, vamos, confesse que se visse aqui a pequena do Raymundo, dava-lhe uni beijo.. Mas o tio Samuel era difficil de convencer; pyrrhonico,avermelhava-se e gritava contra o Raymundo, a mulher do Raymundo, a filha do Raymundo, as aves do Raymundo, que lhe saltavam para a horta, até o cão do Raymundo, um diabólico rateiro que já lhe rasgara as abas de um casaco! Eva sabia que o Raymundo estava ancioso por mudar-se para uma casa nova, muito maior do que a que tinha, perto do rio, onde a mulher poderia ir com mais facilidade lavar. Prometteu ao Samuel desembaraçal-o da visinhança. do rival, com a condição de os ver nesse mesmo dia em boa amizade. Samuel reflectia. mas por fim declarou rudemente

que não daria para isso um passo e sahiu sem ouvir mais nada. Ia zangado, resmungando baixo. A meio caminho encontrou a filha do Raymundo; a pequenina, muito desbotada e rachitica, junctava pitangas, que o vento espalhava no chão; deparando com o tio Samuel, ergueu-se assustada,deixou cahir as fructas que tinha posto na saia arrepanhada em fôrma de bolça, e depois de vacillar um instante, deitou a correr, coxeandq, muito afflicta. Samuel gritou-lhe: — Não sejas tola! eu não te faço mal! Ouvindo aquella voz e não comprehendendo as palavras, a pobresinha cahiu e foi bater com a cabeça no rebordo da pedra de um tanque. Samuel, que sorrira ao primeiro movimento da menina, sentiu então grande magua, ao vêl-a cahir, e apressou-se em soccorrel-a. Estava desmaiada, com uma brecha na testa e inundada de sangue. O velho poz a criança ao collo e lá se foi com ella á casa do Raymundo. A mãe da menina gritou contra o velho maldicto; a seu vér, fora elle quem lhe batera, quem a ferira até matal-a! E deu-lhe um murro, com raiva vigorosa. Samuel esperava aquillo mesmo, e deixou-se insultar. Só depois da criança voltar do desmaio é que se soube a verdade; o Samuel beijou-a, deu-lhe dinheiro para doces, fez momices até vcl-a rir; e assim se fizeram as pazes. Percorrendo com Paulo a colônia, Octavio lastimava a prima mais do que nunca!

Tendo uma habitação tão encantadora, vivia a pobre Eva naquella triste fazenda de Santa Genoveva, sem conforto para o espirito nem para o corpo, ameaçada de um desgosto, aborrecida, sem que ao menos tivesse a percepção d'isso! Quando sahiram do Mangueiral, Paulo acompanhou-os até meio do caminho. Depois, os três seguiram calados, sentindo acabar-se o enlevo d'esse dia cheio de recordações. Octavio pensava no testamento do tio, no bello systema estabelecido por elle, na gentileza de Eva e cavalheirismo de Paulo; Eva relembrava a sua meninice; Noemia meditava em tudo: nas trepadeiras que vestiam as paredes exteriores do prédio, nos sons do violoncello, nos quadros, na mobília apropriada e distincta de cada compartimento, nas casas dos colonos, com telhados novos, e janellas abertas, nas flores, nas crianças loiras, n o parquesinho das mangueiras, em Paulo, em tudo. Não imaginara nunca poder haver tanta elegância e graça numa fazenda! Qando chegaram a Santa Genoveva eram Ave-Marias, cabiam as sombras e perdiam-se no ar as vibrações do sino chamando os escravos para a revista. No fundo esfumado do céo, destacava-se o batalhão dos negros suados, doridos de cansaço, com um feixe de lenha e a enxada ao hombro, silenciosos e tris-

tes. Alinhavam-se em frente á casa do senhor. E, ao approximarem-se, Octavio e as amazonas ouviram, como um sussurro de onda triste, o—Sum Christo! murmurado ao mesmo tempo por cem vozes e o baque da lenha cahindo como um fardo ao chão.

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