Capítulo XXIII A Família Medeiros · Capítulo 23 de 42
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Capítulo XXIII

XXIII Depois de muito tempo de reclusão, Octavio dirigiu-se para a casa do seu velho amigo Morton, numa bella manhã de sol. Foi cncontral-o a escrever na sua larga secretaria coberta de papeis. Conferenciou longamente com elle; precisava orientar-se com as suas informações, fel-o repetir a mesma historia que já lhe ouvira,escutando-o então com muita serenidade, a pesar as palavras uma por uma. Mas o velho exigiu-lhe também, com todo o seu direito de amigo, a narração do succedido em Santa Genoveva, e Octavio referiu minuciosamente o caso, não occultando mesmo aparte referente aEvae exppondo as suas intenções. Morton meditava, recolhido, com as mãos nas algibeiras, o olhar fixo num ponto, o corpo recostado na cadeira redonda e gradeada. Depois de um pequeno silencio: —E que conta fazer? —Descobrir os capangasearrancar-lhes á força a verdade. —Como espera encontral-os? —Isso é que ainda não sei! —Fixou bem as feições de alguns d'elles? —Não; era noite, como sabe, e de mais a mais muito escura! mas ouvi as vozes. —Isso não é suficiente: pôde falhar... Lembrei-me de uma coisa... —Qual?

—Não é muito verosimil, mas emfim, é possível... Lembrei-me, digo, que andasse envolvido nisso o Antunes! — O Antunes?! — Sim, o Antunes! de que se admira? —Conheço-o ha muitos annos; sei que é incapaz d'isso! é honesto! respondeu Octavio. — Ora, honesto! Eu ainda o conheço ha mais tempo! fique sabendo. — Pelo amor de Deus, doutor! pois não vê que isso é absurdo! — Não é tal absurdo... —Que interesse teria o pobre homem em intrigar Eva? —Vocês estão muito enganados com elle, é o que é! O Antunes é mau, é ignorante e é cobarde! toda esta historia está-lhe perfeitamente no gênero! Creia, meu amigo, que eu não fallaria assim sem ter motivos. Já o pilhei numa cousa semelhante, eu! ora ahi está! Além disso elle é a única pessoa que pôde ter empenho em retirar Eva de Santa Genoveva... — Porque!? —Porque! olhe que ingenuidade I Consta por ahi que o homem cobiça-o para marido da sobrinha... — Parece que sim... — Então percebe? — Não percebo nada! — E' boa! pois não vê que a estada de sua prima na fazenda pôde prejudicar a causa

da outra? Eva é intelligente, é bonita, tem uma educação muito pouco vulgar aqui; é portanto perigosa! Nada mais natural do que Octavio apaixonar-se por ella, e isso é que elle não quer! —Isso seria futil! perfeitamente insensato! Desculpe-me, doutor, mas não acceito a sua hypothese! —Pois faz mal! Conheço o Antunes ha uns trinta annos; tenho razões serias para desconfiar d'elle! Era inimigo encarniçado de Gabriel Medeiros e estendeu seu rancor até a filha. Teve ha pouco tempo, ahi ha cousa de um mez, se tanto, uma pendência com o Azevedo a propósito de um escravo que esse moço remiu com dinheiro de Eva. Um filho natural do Antunes, que morreu ás mãos dos escravos e de quem elle herdou o sitio que hoje administra, teve a veleidade de pedir a mão de Eva! Olhos no dote, está visto; ella era ainda uma criança 1 A familia oppozse e elle enguliu a taboa! Parece-me que tudo isto juneto deve ter influído para a concepção e realisação da historia que acabou de contar. —Sempre tive o Antunes em muito boa conta! —Pois se eu estivesse em seu logar procuraria saber quaes são os capangas d'elle, e então talvez não fosse dilficil descobrir a verdade!

—Nesse caso era mais leal ir directamente a elle e interrogal-o! —Seria uma imprudeneia, meu caro! Emfim, faça lá o que entender; comtudo, fique certo que com aquelle sujeito é melhor lidar-se com manha do que com lealdade. A conversa prolongou-se por mais de uma hora. Sahindo da casa de Morton, Octavio retirou do correio a correspondência e seguiu para o Monjolo, fazenda do Antunes. Fazia calor; a estrada sem sombra cortava grandes campos esbranquiçados e maninhos, cobertos de barba de bode. Octavio, moido do sol e da viagem, fechava os olhos quasi adormecido, quando o troly, dando uma volta, desceu aos solavancos até um milharal, que atravessou depois, de vagar, esmigalhando sob as rodas, num ruido áspero e surdo, a folhagem secca que atapetava o chão. De um lado e do outro pendiam dos arbustos, numa attitute de cançaço, como espadas vencidas, as folhas do milho, e em cima, as espigas erguiam-se envoltas nas suas capas de palha já amarellecidas, com as espessas borlas avermelhadas de fino filamento crespo e farto, soltas, como os pennachos das barretmas. Passada a roça de milho entrou de novo o troly numa estrada, sombreada a espaços por umas arvores de copa achatada e larga. Ao fim de uns quatrocentos metros,

adeante de umas piteiras inclinadas de um barranco, apparecia uma casa rústica, com duas portas na frente, paredes mal caiadas, tecto baixo, um terreiro ao lado cercado de pedaços grosseiros de páu- enleados de cipó, com duas larangeiras da terra, uma bananeira a um canto e uma goiabeira rachitica, com os galhos estrangulados na cerca. Era uma venda, e cantavam lá dentro ao violão. Octavio julgou reconhecer aquella voz e mandou parar o troly. Entrou. O taberneiro, com as mangas arregaçadas, fazia em letras garrafaes uma conta do café roubado pelos escravos da visinhança aos senhores, e vendido a elle por uma ninharia: era o seu commercio e o que o enriquecia á sombra de meia dúzia de garrafas de cerveja nacional, que vendia a custo a um ou outro viandante. Octavio pediu-lhe aguardente, água e assucar, e emquanto o vendeiro, debruçando-se sobre o balcão encebado em que pregara duas moedas de cobre, o servia, elle passeava curiosamente o olhar pelo recinto. Numas três prateleiras toscas, lateraes, havia muitas botijas e garrafas vasias, uma ou outra com cerveja ou cognac; juntamente peneiras de diversos tamanhos, chapéus de palha grossa, uns rolos de fumo e, num caixote, muito sabão de cinza, preto, envolvido ás bolas em palha de milho. Ao fundo, sentado num barril de décimo, estava um caboclo alto, magro, de grande

cabelleira desgrenhada a cair-lhe nos hombros, barba falhada e rente, olhos languidos, camisa aberta mostrando o peito cabelludo, lenço mal atado ao pescoço, calças de algodão mineiro, e grande faca ao lado, na bainha de couro entalada na cinta. Ao pé, sentada no primeiro degrau de uma escadinha que descia para o interior, uma caipira moça, de quem não se via senão o busto, alisava com um pente de bufalo os cabellos corredios e negros.. Ella sorria para o violeiro; elle proseguia cantando, a bambolear o corpo sobre o barril de décimo: >< Santo Antônio amarra negro na beirada da capoeira: todos santos 'stão quieto, Santo Antônio está com asneira!» « Madama de Campinas me mandou chama, madama de São Paulo não quer que eu vá! » « Tenho meu chapéu de palha, Me custou mil e quinhento; Quando boto na cabeça Não me farta casamento! » — Cante a outra, a do patchoulím.. pediu a caipira; elle accedeu logo, e mudando de tom, recomeçou:

« Chinello de tapete Forrado de marroquim, Relógio de ouro, Corrente de trancelim, Lenço branco n'algibeira, Cheirando patchoulim. Ai, ai, meu bem Se eu pudesse andar assim! » Octavio deu tempo a que acabasse a canção; o caipira tangeu ainda alguns compassos até o estallido do acorde final que abafou logo com a mão espalmada sobre as cordas. — Cante outra moda, Nhó-Quim! pediu a moça no tom arrastado e langoroso da gente do campo. — Mais logo, Nha-Tuca! — E' á! mecê hoje tá muito sarambé! (i) — Não to não! Di noite nois vimo cá tudo junto pra hi fazê um cateretê rasgado! E'ta nois! — Que não esqueça a sanfona! observou o taverneiro. — Eu empresto ella pra Cacuta e venho toca... (2) (1) Sarambé,— tolo, parvo. (2) Os paulistas dizem geralmente—Emprestar por pedir emprestado; assim, 6 [requente ouvirem-se phrases como estos I «F. mandou-me emprestar o meu cavallo. «Eu não tinha casa mas emprestei a do meu amigo, etc

— E'pérciso arranja as bugia. ( ^ o b servou a moça. Pondo de lado a viola, o caipira ergueuse e fez um cigarro, emquanto Octavio pagava as despezas. Sahiram ao mesmo tempo. Ladearam o cercado do quintal da venda, onde algumas gallinhas cacarejavam soltas, depenicando os seixinhos e as hervas rasteiras. O caboclo parecia ter adivinhado a intenção do moço: seguia-o de perto, esperando ser chamado. Assim foi; Octavio,voltando-se para elle, disse: — Vai fazer-me um favor. — Diga. — Quero saber se foi vossemecê quem me atirou ha vinte dias um tiro num hómbro. — Pôde sê. — Eu quero a certeza. — Se explique meio.. — Já me expliquei: quero saber quem me feriu! — Ah! foi mecê o atirado? Octavio, enchendo-se de paciência, relatou as suas intenções ao caboclo, propondolhe boa paga. O outro, depois de um curto momento de reflexão, murmurou: (1) Os caipiras chamam bugia ao lampeão.

— Tá dêrêto! Elle me enganou, eu não encubro elle! — E quem foi esse elle? — Pois foi mêmo nhô Furctuoso! — E quem é nhô Fructuoso? — Uê! mecê não conhece elle não?! — Não! — E1 um capanga destemido, e tem fama por todo esse sertão. Contou então que o Fructuoso morava em terras do Antunes, indo muitas vezes pousar lá no sitio. Octavio seguiu esperançado para a fazenda do amigo. Depois de meia nora de caminho abriu a porteira do «Monjolo». Tudo vulgar; pastos cheios de vassoura, cafezal mal trajado e habitação pobre, baixa, suja, isolada num terreno manchado e árido. A pequena distancia o tanque, brilhando ao sol como uma grande placa de aço, e na cerca da horta muita roupa a seccar. Octavio entrou para uma sala térrea com duas janellas sem caixilhos, onde, por toda mobília, havia uma mesa de pinho e quatro cadeiras. A um canto estava um cacho de bananas a amadurecer; no batente da porta uma gaiola com um sabiá, e em baixo da mesa, encostada á parede, uma caixa de folha com a tampa já amolgada. Sobre uma prateleira uma garrafa de mel de fumo, para golpes e mordeduras, uma caixinha de páu com mercúrio doce de Lisboa, para curativo das bicheiras,

e uma lata de unguento, para feridas. Ao lado do cabide, um rabo de tatu e um chapéo do Chile. Num outro canto três perobas brancas, para cabos de relho. Nada mais. — Sinhô tá na roça, informou uma preta, nova e asseiada, a Octavio. Este decidiu-se a esperal-o. A caseira espreitava-o, passando, sem o cumprimentar, na varanda próxima, com um prato na mão, a caminho da cosinha; de volta, tornou a observal-o, atrevendo-se a entrar na sala em que Octavio estava, não tendo pejo de lhe mostrar os pés sem meias, nuns chinellos de trança, e o corpo sem collete num vestido de chita; mas acanhada e arrependida, voltou depressa para dentro e poz-sea espreital-o pela greta da porta lateral. Reinava o maior silencio. O sol reflectiase abrasadoramente nas paredes da casa, os gallos cantavam de vez em quando, ao longe, e o sabiá depenicava a metade da laranja posta no chão da gaiola. A mucama tornou a entrar com a bandeja do café; Octavio bebeu machinalmente; depois, voítando-se para a preta, perguntou: — Sabe dizer se o Fructuoso está hoje aqui? — Seu Furctuoso? elle foi fazê viage... — Quando partiu? — Nhô? — Quando se foi embora?

— Di já hoje... di menhãsinha. A mucama sahiu; os gallos cantavam ao longe, o sabiá, muito somnolento, subiu para o polciro; e Octavio, contrariado pela ausência do Fructuoso, sentia que o espreitavam ainda pela porta da esquerda, semi-cerrada. Veiu quebrar aquella monotonia a rude voz do Antunes, que se approximava, dizendo alto a outra pessoa: — E' assim mesmo. O Fructuoso lá se foi para Casa Branca. pelos modos não vorta tão cedo! — E o Navárrinho? — Também foi! — P'ra Casa Branca? — Sim senhor. — Cuns diabo! O negocio então parece que está feio. — E' exacto. Entraram O Antunes deitou uma alegre exclamação ao deparar com Octavio e apresentou-o ao amigo, um lavrador gordo e trigueiro. Este, depois de trocar meia dúzia de palavras, tornou a referir-se á ida do capanga Fructuoso para Casa Branca, mostrando-se contrariado com isso; precisava do homem, affirmava elle. Serviram de novo café. A conversa tomou diversos rumos. Octavio levou geitosamente o assumpto para a revolução havida em Santa Genoveva, das suas causas e effeitos, sem per-

der de vista a physionomia do dono da casa, em cujas feições procurava estudar a culpabilidade. No largo rosto do amigo não transparecia a minima commoção. Octavio, entristecido, recolheu-se a Santa Genoveva. Logo ao entrar em casa soube pelo pae que o Trigueirinhos escrevera conviclando-o para, com toda a familia, assistir no seu sitio á inauguração da sua machina Paulistana, das ofificinas Lidgerwood. O commendador estava contente e Octavio resolveu no mesmo instante ir também.

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