Universo da obra
Universo da obra
O comboio parára numa das estações da estrada de ferro paulista, no osstada província de S. Paulo. Aceitando no corpo a capa de viagem, Octavio Medeiros apeou-se com um movimento alegre e decisivo. Momentos depois o trem partia de novo, deitando ao ar -da manhã, profundamente limpidi, o seu silvo «stridulo e a sua pluma de fumo muiro branca que subia em espirae,, desenrolando-se como uma bandeira victoriosa. Octavio deixou as malas na estaca"» e desceu a pé até a uma casa baixa, d: tijolo ^ermjlho e venezianas abertas. Numa ja-ella emmoldurada de hera, cantava, em modesta gaiola de arame, uma patativa parda, ave que •elle não via ha muitos annos, e ie lá d.: d;:atro da sala vinha o rumor monótono, da vo. de um homem a lê • alto, sempre na m.-sraa foada, um livro de sciencia. octavio app o\imou-se, e, encostando-se ao peitoril, exclamou risonho: — Bois dias, doutor Morton! O doutor.VI trton voltou-se, demorando no recém-chegado os seas gra.id^s olhos muito azues. — Então não se recorda de mim? continuava Octavio, sorrindo. — Sim... sim... espere., ah! é o Sr. Medeiros! Ora meu caro, entre, entre!
E o velho, dando volta pelo corredor, foi á porta da rua, estendendo as mãos, com alegria, ao amigo. — Sabe que é sua a minha primeira visita? — Oh! que distincção! mas diga-me: sua família espera-o? — Não. Meu pae aconselhou-me a que, acabados os estudos, eu fizesse- uma excursão pelas principaes terras da Europa; mas logo que concluí o curso resolvi partir e chego inesperadamente. Valho-me do senhor para uma informação: meus pães estão na fazenda? — Ha talvez mais de um mez. Comprehendo agora o motivo de ter sido minha a sua primeira visita, não me zango por isso; é justo. Comtudo, emquanto lhe arranjam o meu cavallo, conversemos. E o doutor Morton, depois de ter ido dentro dar ordens, voltou a sentar-se ao pé do viajante; tirou da cabeção gorro de seda, mostrando a grande calva luzidia e, alisando com a mão o rosto sem barba, começou: — Vae encontrar grande mudança em casa. Sua irman mais velha está para casar; é citada como uma d.is moças mais bonitas de todo o município. a outra sahiu do collegio de Itú e tem uma preceptora allemã, que por •signal foi inculcada por mim, boa senhora, instruída e severa — E minha mãe? está muito velha? tem tido tantos desgostos..
— Qual! sua mãe é sempre a mesma: resignada nos momentos tristes, tranqüilla nos felizes. Presumo que saiba rir e que saiba chorar, mas presumo apenas, porque nunca a vi nem de um, nem de outro modo! Em geral, as senhoras provincianas têm muito cuidado em não demonstrar os seus sentimentos, e sua mãe parece levar isso ao exaggero! — Mas está gorda, bem disposta? perguntou Octavio quasi impaciente. — Sim está. Houve um instante de silencio; depois o velho indagou: — E os seus companheiros de viagem, o João Nunes, o Penteado e creio que o Rodrigo Costa? — O Costa foi depois. — Bem... e que tal? — Lá estão. — A estudar? — A gastar... — Tempo? — E dinheiro.. — Para isso não precisariam sahir d'aqui. E' extraordinário! a maior parte dos rapazes que vão estudar na Europa voltam de lá na mesma, quando não vêm peiores! — Que quer? ha muitos modos de viver nas grandes capitães, e quasi sempre o que mais seduz é o que menos resultado deixa. Eu mesmo, que fui entre os seis companhei-
ros o único que completou o curso, poderia ter vindo mais cedo se não tivesse perdido o primeiro anno na fascinação da novidade! A uma circumstancia desagradável devo a minha rehabilitacão... — Ha males que vêm para bem. — E1 o caso. — E qual foi essa circumstancia? desculpe a curiosidade de um velho amigo — Um grande prejuízo financeiro de meu pae. O anno de 1880 correu-lhe, mal. Uma grande geada inutilisou a colheita; além cTisso, o Elias Brandão, que era o seu correspondente e commissario em Santos, falliu, arrastando a nossa casa quasi á ruina. — Lembro-me bem. — Pois foi isso que me abriu os olhos e a vontade de estudar. Pintaram-me com cores negras, a que a distancia deu ainda mais horror, a nossa situação; a mesada foi reduzida á terça parte e tive de restringir-me e mudar de hábitos. Conheci nesse meio tímpo um estudante de philosophia, allemão, rapaz talentoso e de poucos meios; mirávamos juntos numa hospedaria de um bairro modesto e barato. Deixei-me penetrar da sua influencia, afastando-me dos meus compatriotas e dos parasitas que os exploravam... E agora sabe do que eu estou convencido? é de que, com boa vontade ou necessidade, aprende-se egualmente em qualquer paiz!
— Comtudo, creia que em poucas terras se estuda como na Allemanha; é com justiça que a denominam pensadora. Edward, um Velho amigo meu, viajante incançavel e ávido observador, dizia-me: « Em França riem', na Itália sonham, na Inglaterra trabalham, na Rússia conspiram, na Hespanha faliam, na Allemanha pensam! — E deveria accrescentar: no Brasil dormem. — Talvez o dissesse, eu é que já me não lembro de cada definição; a da Allemanha não me esqueceria nunca, porque para mim o pensamento é a mais bella faculdade do homem. — Conforme... olhe, doutor, que o pensamento ás vezes inutilisa a acção. — Qual! a acção impensada é que é sempre inútil! — De acordo. O que eu digo é que a demasia do pensamento absorve as forças vitaes do homem. E1 preciso subordinar o cérebro a um methodo de que nem todos são susceptíveis. Eu, por exemplo. De que me serviu gastar na Europa tantos annos a estudar e a vêr modelos de arte, se cada um d'elles acordou em mim desejos para grandes emprehendimentos, que não poderei nunca realisar, porque á medida que estudo um o outro se me afigura mais bello, e vivo neste eterno balanço de idéa a idéa, sem me fixar numa só! Sinto que não serei nunca aproveitável, exactamente por pensar de mais!
•G — Não diga isso! o senhor é novo, intelligente, teve o bom tino de escolher a engenharia, que é a carreira scientifica mais proveitosa ao seu paiz; vem gastar a sua actividade numa terra onde ha muito a construir, terá, "pois, occasião de observar as grandes, as enòrmissimas vantagens que tirou da contemplação dos modelos de arte de que acaba dé"fallar. O senhor, que se dedicou á engenharia, viu edifícios extraordinários, pontes, aqueductos, egrejas, cidades inteiras de feição característica; ruínas, castellos, estylos velhos e modernos, conforme os logares e as raças. Bem; julga tudo isso improficuo? engana-se, a impressão deixada pelas maravilhas européas valem-lhe todos os livros e rasgam-lhe uma estrada mais vasta e muito mais bonita. Se, ao principio, todos esses esplendores lhe tumultuaram desordenadamente no espirito, agora, amadurecido e acalmado o enthusiasmo, hão de ser admirados em todas as suas verdadeiras dimensões. Olhe, um pintor adeanta-se indubitavelmente mais visitando durante um mez o Loavre do que em trabalhar, durante um anno, numa cidade sem museus. Eu, apezar de velho, tenho na alma pruridos de ambição: os de correr mundo, estudando deleitosamentc, e se não viajo nem vejo é porque ha uma razão simplici sima que me obriga a isso., é fácil de comprehender qual seja —a pobreza.
O doutor mostrava, fallando, os seus brancos dentes muito sãos, num sorriso manso; pousava as mãos curtas e gordas nos braços da cadeira, todo illuminado pela luz do dia que entrava pela-janella fronteira. — Eu, sinceramente, admiro-me de que o doutor, instruído e observador como é, se resigne a viver neste canto do mundo, onde com certesa não sobejam distracções para um espirito como o seu. — Engana-se, meu amigo; vivo perfeitamente. A indole do povo brasileiro é de uma bondade captivante; a sua franqueza encantadora; a sua hospitalidade única. A não se viver no paiz em que se haja nascido, não ha. pátria mais bella nem onde tanto á vontade a gente se ache. Aqui estou ha muitos annos e nunca pensei em retirar-me, que não sentisse antecipadamente saudades. Ha uma única cousa rque me repugna e entristece aqui, excuso de lhe dizer qual seja, o meu amigo adivinha-a, mas essa mesma extinguir-se-á em breve, porque, Octavio, agora o Brasil não dorme, trabalha. — Tenho acompanhado com júbilo o movimento abolicionista do Brasil; procurei avidamente nas correspondências dos jornaes, sempre, tudo que se referia a' essa grande obra; comtudo, de tão longe, não se pôde fazer idéa perfeita das cousas que os jornaes exaggeram e as traducções adulteram.
— Cuidado! não vá expender idéas de progresso e humanidade no seio da sua fazenda. A abolição mais dia menos dia faz-se; a amisade na. família é que uma vez quebrada, nunca mais torna a ser verdadeiramente solida. — Por que diz isso? — Porque seu pae é um dos maiores inimigos da abolição. Comprehende agora? — Perfeitamente; serei discreto, se me convencer de que o meu braço não é em nada preciso á santa causa, como dizem os periódicos. O doutor ia começar umaresposta, quanda um criado veiu dizer que o cavallo estava á porta. — Bem, Octavio, não quero ter o egoísmo, de o reter aqui: o meu amigo deve estar ancioso por chegar a Santa Genovcva, não é assim? Olhe, talvez queira um companheiro que o guie... — Não me faça a injustiça de suppôr-me esquecido do caminho de casa'!;— Tem razão! pudesse eu hoje chegar á minha aldeia, que iria de olhos fechados á velha casa de meus pães! Note que este é um sentimento que se apura quando se está exilado, quer voluntária, quer involuntariamente: o amor da família e do paiz natal. Depois, tirando o relógio, calculou: — D'aqui a duas horas estará entre os seus... boa viagem. — Obrigado, doutor
— Appareça para uma prosa! — Sim, senhor, adeus! Batendo nas pedras da calçada, o animal seguiu. O doutor entrou de novo para o seu gabinete, estendeu-se no sofá de palhinha, retomou o livro e, cobrindo a calva com o bonnet de seda preta, recomeçou em toada monótona a sua interrompida leitura.
Leia gratuitamente A Família Medeiros, de Júlia Lopes de Almeida, romance brasileiro de 1892 em domínio público sobre família, fazenda, escravidão, abolicionismo e tensões sociais no fim do século XIX. Esta edição digital do Literunico foi preparada a partir da digitalização da BBM/USP e organizada em 42 capítulos HTML para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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