Uma manhã serena pairava sobre o colégio. Os alunos apressavam-se pelos corredores, animados com o início das aulas, enquanto o sol banhava os pátios com uma luz dourada. No meio da multidão, um rosto familiar se destacava: Kenji Takahashi, de volta após duas semanas de ausência. Seu braço direito estava envolto em gesso, uma lembrança da briga que o afastara das aulas. Apesar do contratempo, Kenji exibia um sorriso radiante, sua energia contagiante iluminando o ambiente ao seu redor. Sakura, como sempre ao seu lado, guiava-o com cuidado pelos corredores. A cada passo, ela soltava uma piada ou um comentário divertido, arrancando gargalhadas de Kenji. “Você está ficando um fracote com esse gesso, sabia?” disse, com um sorriso brincalhão. “Logo você vai precisar de ajuda até para escovar os dentes!” Kenji, fingindo indignação, retrucou: “Ora, cale a boca! Eu ainda sou mais forte que você com um braço só!”
Hinata, observando a interação dos amigos, não podia conter o riso. A alegria contagiante de Kenji e a lealdade de Sakura formavam um espetáculo que alegrava o dia de qualquer um. Em meio aos corredores movimentados, o trio de amigos era um oásis de humor e leveza. Era como se o sol da manhã se refletisse em seus sorrisos, iluminando o caminho e dissipando qualquer nuvem de tristeza. No entanto, um silêncio desconfortável se abateu sobre eles ao avistarem Akane e Taishou caminhando pelo corredor. Seus passos estavam próximos, e seus rostos, inclinados em uma conversa animada, pareciam completamente alheios à presença dos amigos. Kenji sentiu uma pontada de ciúmes no peito, cerrou os punhos e desviou o olhar. “Akane está namorando aquele esquisitão agora?” ele perguntou, sua voz tensa e carregada de ressentimento.
Sakura, com o coração apertado pela situação, hesitou por um momento antes de responder. “Não, Kenji,” ela disse, sua voz suave e triste. “Eles só... estão mais próximos. São amigos.” As palavras de Sakura pouco fizeram para acalmar a fúria de Kenji. A imagem de Akane tão próxima de Taishou, um homem que ele considerava perigoso e insensível, era insuportável. “Mais próximos?” ele repetiu, sua voz ríspida. “Do que você está falando? Eles estão praticamente se abraçando!” A frustração em seu tom era palpável, e sua expressão carregava um misto de preocupação e indignação. Hinata, percebendo a tensão crescente, interveio antes que a situação se intensificasse. “Kenji, acalme-se,” ela disse, colocando a mão sobre o ombro dele, tentando transmitir calma. “Você acabou de voltar do hospital; por favor, não brigue.” Mas Kenji se afastou bruscamente, seus olhos ainda fixos em Akane e Taishou, a imagem da amizade deles mais próxima do que nunca se gravando em sua mente.
“Eu não consigo acreditar nisso,” murmurou, sua voz carregada de frustração. “A Akane sabe o que está fazendo?” A preocupação transparecia em seu olhar, enquanto ele tentava compreender como a amiga, tão próxima a ele, poderia se aproximar de alguém como Taishou. Sakura, vendo a dor de Kenji, tentou amenizar a situação. “Talvez seja apenas uma fase,” sugeriu, sua voz suave, buscando encorajar Kenji a não se precipitar em julgamentos. “Akane é forte, e ela sabe cuidar de si mesma.” Mas Kenji não estava convencido. A visão de Akane rindo e se divertindo com Taishou mexia com seus sentimentos mais profundos.
“Ela pode ser forte,” Kenji respondeu, a tensão ainda evidente em seu tom, “mas isso não significa que ela deva estar com ele. Ele não é quem parece ser.” A convicção em suas palavras refletia o desejo de proteger Akane, mesmo que isso significasse confrontar a realidade de suas escolhas. Hinata, sentindo o peso da situação, buscou equilibrar a conversa. “Talvez seja hora de você conversar com a Akane,” sugeriu. “Ela pode precisar do seu apoio, mesmo que você não entenda as escolhas dela agora.” Kenji hesitou, as palavras de Hinata ressoando em sua mente. O que realmente importava era a amizade que eles compartilhavam, e se havia uma chance de ajudar Akane, ele não poderia se afastar. “Você está certa,” ele finalmente admitiu, o olhar suavizando. “Mas eu vou precisar de tempo para digerir isso.” As emoções eram intensas, e, embora sua frustração não tivesse desaparecido, ele sabia que a amizade e a confiança eram fundamentais.
O trio respirou fundo, ciente de que, apesar das tensões, a força de seus laços ainda poderia superar os desafios à frente. O dia estava apenas começando, e a complexidade dos relacionamentos deles prometia muitos mais altos e baixos. Sakura puxou Kenji pelo braço, seus passos rápidos e firmes guiando-o pelo corredor em direção à sala de aula. A irritação tomava conta de seu ser, cada fibra do seu corpo vibrando com a raiva que sentia. “Você precisa parar com esse comportamento infantil, Kenji!” disse, sua voz ríspida e cortante, ressoando como um eco nos corredores movimentados. “Akane é uma pessoa adulta, e ela sabe muito bem o que faz. Você não tem o direito de questionar suas decisões.” Kenji, ainda abalado pela cena que presenciara, deixou-se levar pela fúria.
“Mas Sakura, você não vê?” protestou, seus olhos arregalados e cheios de frustração. “Aquele cara não é bom para ela. Ele é perigoso, ele é…” Mas antes que pudesse completar, Sakura interrompeu-o. “Chega!” gritou, sua voz ecoando na sala cheia de alunos. “Não quero mais ouvir falar nesse assunto. Vamos para a aula, agora!” Kenji, contrariado, mas sem vontade de discutir, se deixou levar por Sakura. Seus olhos, no entanto, não se desviavam de Akane, que os observava de relance, seus olhos refletindo uma mistura de tristeza e raiva. A conexão que antes parecia inquebrável agora parecia tensa e distante. Hinata seguiu os dois, preocupada com a dinâmica entre eles. Ao chegarem à sala de aula, Sakura se sentou ao lado de Kenji, seu coração ainda batendo acelerado. A imagem de Akane e Taishou juntos a perseguia como um fantasma que assombra seus pensamentos, a dúvida e a insegurança se entrelaçando em sua mente. Hinata, observando a amiga com preocupação, colocou a mão sobre seu ombro.
“Quer conversar sobre isso?” perguntou, sua voz suave e gentil. Sakura balançou a cabeça em sinal negativo, sua expressão fechada. “Não agora,” ela disse, sua voz baixa e tensa. “Pode ir sentar, Hinata. Eu vou ficar com o Kenji, para evitar que ele faça outra besteira e quebre o outro braço!” Hinata fez um sinal pensativo com o rosto, a preocupação evidente em seus olhos, e caminhou lentamente até seu lugar habitual, sentando-se com um suspiro. Kenji a olhava, frustrado, enquanto tentava processar tudo o que estava acontecendo. No outro lado da sala, Akane se sentou ao lado de Taishou, seus pensamentos em tumulto. O olhar de Kenji, carregado de ciúmes e raiva, a feriu profundamente. “O esquentadinho voltou,” disse Taishou, com sua expressão calma de sempre, observando Akane com uma leveza que a irritava. “Parece que ele não está nada feliz com a nossa aproximação.” Akane desviou o olhar, incapaz de responder, a tensão entre eles crescendo. As palavras de Taishou, embora ditas em tom calmo, a deixaram ainda mais nervosa.
O dia se arrastou, lento e pesado. A cada minuto, Akane sentia-se mais e mais distante de Kenji, Sakura e Hinata. A amizade que antes era tão forte parecia estar se desintegrando diante de seus olhos, como folhas secas ao vento. As aulas se iniciaram, e Sakura, fiel à sua promessa, se dedicou a ajudar Kenji, anotando suas lições, virando as páginas de seus livros e até mesmo carregando suas coisas quando necessário. Kenji, apesar da frustração por sua condição, apreciava a companhia e o cuidado de Sakura. Sua presença constante era um lembrete de que, mesmo nos momentos mais difíceis, a amizade verdadeira sempre encontrava uma maneira de se manifestar. O sinal tocou para o intervalo, ecoando pelos corredores como um grito de liberdade. Os alunos se apressaram em diferentes direções, ansiosos por um breve descanso da rotina escolar. Sakura, com a paciência de sempre, auxiliava Kenji a juntar suas coisas, seus dedos ágeis organizando livros e cadernos em sua mochila. Ao lado deles, Hinata se aproximava de Akane e Taishou, um sorriso tímido em seus lábios.
“Akane, você gostaria de almoçar conosco?” ela convidou, sua voz suave e hesitante, como se temesse a resposta. Akane hesitou por um momento. Seus planos para o intervalo incluíam se sentar com Taishou, conversar e aproveitar sua companhia. Mas a gentileza de Hinata a comoveu, e ela se viu dividida entre suas obrigações e sua amizade. “Claro, Hinata,” disse, com um sorriso hesitante, mas sua mente estava agitada. “Mas…” Hinata, percebendo a indecisão da amiga, logo propôs uma solução. “Que tal todos nós sentarmos juntos?” sugeriu, seus olhos brilhando com entusiasmo. “Seria divertido!” Akane sentiu um frio na barriga, mas a ideia de estar em um grupo misto a acalmava um pouco. “Certo, então,” respondeu, a voz hesitante, mas começando a sentir que talvez a amizade ainda pudesse prevalecer, apesar das dificuldades. Assim, o grupo se formou, as dinâmicas entre eles ainda complicadas, mas a esperança de um momento de união estava presente. À medida que caminhavam juntos para a cantina, a tensão pairava no ar, mas a luz do sol ainda brilhava sobre eles, prometendo que, mesmo em tempos difíceis, a amizade sempre teria um caminho a seguir. Sakura, que nesse momento se aproximava do grupo carregando as coisas de Kenji, sussurrou para Hinata: “Isso é uma péssima ideia.” Seus olhos se fixaram em Kenji e Taishou, os olhares se cruzando com uma intensidade que a deixou nervosa. Kenji, concordando com Sakura, retrucou: “Eu não quero sentar com esse esquisito aí.” Taishou, com sua calma habitual, respondeu: “Não se preocupe, eu não vou quebrar seu outro braço.”
Irritado com a provocação, Kenji explodiu: “É o quê? Seu esquisito!” A tensão no ar era palpável, e Akane, com o coração apertado, interveio. “Parem com isso! Vocês estão agindo igual crianças!” Sakura, suspirando de frustração, puxou Kenji pelo braço. “Vamos logo para o refeitório,” disse, lançando um olhar de reprovação para o amigo. No refeitório, a atmosfera era tensa. Grupos se formavam em torno das mesas, conversando e rindo, mas no centro da sala, um silêncio desconfortável se instalava entre os cinco amigos. Kenji e Taishou se sentavam um de frente para o outro, seus olhares se cruzando de relance, carregados de hostilidade. Akane, sentada ao lado de Taishou, tentava amenizar a situação, mas seus esforços pareciam em vão. Sakura, sentada ao lado de Kenji, o ajudava a comer, enquanto Hinata observava a cena com tristeza. A alegria que antes marcava seus intervalos havia sido substituída por um sentimento de angústia e incerteza.
O almoço se arrastou, cada minuto mais pesado que o anterior. As palavras eram raras e forçadas, e o clima no ar era de puro desconforto. Hinata, na esperança de amenizar a tensão, dirigiu-se a Taishou, buscando puxar conversa. “Então, Seiji,” começou, sua voz hesitante e tímida, “você gosta de ler?” Taishou, com sua calma habitual, a encarou por um breve momento antes de responder. “Sim,” disse, sua voz grave e monossilábica. Hinata, nervosa, lutou para encontrar um novo tópico. “Que tipo de livros você gosta?” perguntou, seus olhos fixos em Taishou, buscando qualquer sinal de interesse em seu rosto impassível. “De tudo,” ele respondeu, com um encolher de ombros. A conversa, por assim dizer, não fluía. As respostas curtas e secas de Taishou deixavam Hinata cada vez mais nervosa e sem palavras. Akane, percebendo o constrangimento da amiga, decidiu intervir com uma piada. “Sabem qual é o livro favorito do Taishou?” perguntou, com um sorriso brincalhão. “O manual de instruções!” Um silêncio constrangedor invadiu a mesa, até que Kenji soltou uma risada. “Faz sentido, Akane. Esse esquisitão aí precisa mesmo de instruções para aprender a conviver em sociedade.” Taishou o encarou sem expressão, o olhar impassível. Sakura, irritada, enfia uma colher de comida na boca de Kenji. “Fique quieto!”
Akane sentiu um aperto no coração por não conseguir uma interação amigável entre eles. Hinata, rindo de forma desconfortável, decidiu mudar de assunto. “Bem, você gosta de qual tipo de esporte?” Taishou olhou para Hinata, sua expressão calma como sempre. “Luta.” Sakura respondeu de forma ríspida: “Faz sentido. Pelo jeito você gosta de machucar as pessoas!” Taishou não disse nada, e Akane tentou contornar a situação. “Sakura, isso foi meio…” Mas Sakura a interrompeu, seus olhos lançando dardos de fúria em direção a Taishou. “Chega! Se você quer fazer parte do nosso grupo,” disse, sua voz ríspida e cortante, “vai ter que se desculpar pelo que fez com o Kenji.” Para a surpresa de todos, Taishou olhou calmamente para Kenji. “Peço desculpas pelo que aconteceu. Não foi minha intenção te machucar, Takahashi.” Um silêncio constrangedor se espalhou pela mesa. Sakura não esperava que o frio Taishou se desculpasse tão facilmente. Até Kenji ficou meio desconfortável, mas hesitante, aceitou a desculpa. “Tudo bem,” disse, acenando a cabeça. “Mas da próxima vez, serei eu a arrebentar você.” Ele sorriu, e a tensão no ar parecia diminuir um pouco, mas a sensação de desconforto ainda persistia.
O almoço terminou em um clima de paz incerta, com cada um dos amigos perdido em seus próprios pensamentos. Ao final da refeição, os cinco se levantaram lentamente, a tensão ainda pairando no ar, mas a esperança de que poderiam superar as dificuldades os acompanhava. O dia se arrastou, lento e pesado, como uma nuvem escura pairando sobre os cinco amigos. As aulas transcorriam sem entusiasmo, cada minuto se estendendo como uma eternidade. Na aula de Inglês, Kenji rabiscava em seu caderno, seus pensamentos perdidos em Akane e Taishou. Ao seu lado, Hinata tentava se concentrar na explicação do professor, mas seus olhos se desviavam constantemente para Akane, que conversava em um canto da sala com Taishou. Na aula de Geografia, Sakura se esforçava para prestar atenção nas palavras da professora, mas sua mente estava ocupada com raiva e frustração. A imagem de Kenji olhando para Akane com um sorriso no rosto a consumia por dentro. O tempo parecia ter se esquecido de passar, cada segundo transformando-se em uma tortura.
Finalmente, o sinal soou. Os alunos se apressaram para juntar suas coisas, ansiosos por um breve descanso. Sakura, Kenji e Hinata se reuniram no pátio, seus rostos cansados e abatidos. Hinata, logo atrás, acompanhava o ritmo dos amigos, ainda presa aos acontecimentos do dia. “Taishou e Akane não vão se juntar a nós?” perguntou, sua voz hesitante e tímida. Sakura, sem se virar, respondeu: “Akane disse que já estava vindo, só estava terminando de guardar suas coisas no armário.” Kenji observava o corredor em direção aos armários do prédio. Akane e Taishou conversavam animadamente em frente aos armários, e seu olhar carregava uma mistura de tristeza e raiva. A cena o deixava profundamente insatisfeito, a sensação de impotência consumindo-o por dentro. Sakura, ao seu lado, lançou-lhe um olhar compreensivo. “Eu sei que você não está feliz com isso, Kenji,” disse, sua voz suave e gentil. “Mas precisamos fazer isso pela Akane.” Kenji suspirou, derrotado. “Eu sei,” respondeu, com amargura. “Se isso a deixa feliz, então estou disposto a fazer isso.” Sakura sorriu, agradecida pela compreensão do amigo. “Obrigada, Kenji,” disse, colocando a mão em seu ombro. Kenji desviou o olhar, incapaz de encarar os olhos de Sakura. A culpa o consumia, a sensação de traição o corroendo por dentro. “Mas eu não vou desistir,” disse, com a voz baixa e firme. “Vou encontrar uma maneira de mostrar à Akane que o Seiji não é bom para ela.”
Hinata e Sakura se entreolharam, seus rostos carregados de tristeza e frustração. As palavras de Kenji ainda ecoavam em seus ouvidos: “Vou provar que o Seiji não é um bom amigo para Akane.” Enquanto isso, no corredor, Akane terminava de guardar suas coisas, seus pensamentos perdidos em meio a tudo que havia acontecido. Taishou, ao seu lado, segurava seus livros com um gesto de gentileza rara. Finalmente, Akane terminou de guardar tudo e se juntou aos amigos. O caminho de volta para casa foi silencioso e pesado, cada passo carregando uma tristeza que pairava no ar. Aos poucos, o grupo foi se separando, cada um seguindo seu caminho. Hinata foi a primeira a se despedir, seguida por Sakura e Kenji. Os três amigos se sentiam insatisfeitos em deixar Taishou e Akane sozinhos juntos, mas sabiam que não havia muito o que fazer. Taishou caminhou ao lado de Akane até sua casa, o silêncio apenas quebrado pelo som de seus passos. De repente, Taishou se virou para Akane e disse, com uma voz melancólica: “Seus amigos me odeiam.” Akane se virou para ele, surpresa com a confissão. “Por que você diz isso?” perguntou, seus olhos cheios de preocupação.
Taishou deu de ombros, como se não importasse. “Eles me culpam pelo que aconteceu com Takahashi,” disse, sua voz baixa e hesitante. “Eles acham que sou um perigo para você.” Akane ficou em silêncio, ponderando as palavras de Taishou. “Bom, e você é?” Taishou a olhou calmamente, com os olhos tristes e melancólicos. “Talvez.” Os dois amigos continuaram caminhando em silêncio, cada um perdido em seus próprios pensamentos. A sombra da desconfiança pairava sobre eles, mas a amizade que os unia era forte e resiliente. Taishou acompanhou Akane até a porta de sua casa, seus passos lentos e hesitantes. A noite havia caído, e a luz da lua banhava a rua com um brilho pálido e distante. Ao chegarem à porta, Taishou se virou para Akane, seus olhos refletindo uma emoção que ela não conseguia identificar. “Até amanhã, garotinha,” ele disse, com uma voz suave e melancólica.
Akane sorriu, um sorriso triste e hesitante. “Até amanhã,” respondeu, sua voz quase um sussurro. Taishou se virou e se afastou, sua silhueta se dissolvendo na escuridão da noite. Akane permaneceu parada na porta, observando-o partir, seu coração apertado por uma mistura de tristeza e esperança. A noite se desenrolava como um manto negro sobre Akane, cada minuto se arrastando como uma eternidade. As lembranças do dia pesavam sobre seus ombros, e a tristeza, junto à dúvida, consumia seu coração. Em sua mente, os rostos de seus amigos se alternavam com a imagem de Taishou, cada um representando um lado diferente da sua vida. A amizade que antes era tão forte agora parecia estar se desintegrando diante de seus olhos. Após o jantar com seus pais, Akane se recolheu em seu quarto, buscando refúgio da tempestade que se desenrolava em seu interior. Sozinha, sentou-se no chão e abriu seu baú de tesouros, um depósito de memórias da infância e de sonhos. No fundo do baú, escondida entre cartas antigas e fotos desbotadas, estava a polaroid do monstro que havia visitado seu quarto alguns meses atrás. Seus olhos vermelhos, como sangue, brilhavam na escuridão, e seus longos cabelos prateados emolduravam um rosto misterioso e impenetrável.
Akane pegou a foto com cuidado, seus dedos acariciando a superfície lisa do papel. Uma onda de perguntas invadiu sua mente: Quem era ele? De onde ele veio? O que ele queria? As respostas pareciam estar escondidas em algum lugar dentro da foto, mas Akane não conseguia decifrá-las. Seus olhos se fixaram nos olhos vermelhos do monstro, e, por um momento, sentiu como se já conhecesse aquele ser. Com a foto na mão, Akane se deitou na cama, seus pensamentos ainda girando em torno do monstro e de tudo que havia acontecido nos últimos meses. A noite se arrastou, lenta e agonizante, até que finalmente ela adormeceu, a foto ainda apertada em suas mãos.
Os primeiros raios de sol espreguiçaram-se pelo horizonte, pintando o céu de tons de laranja e rosa. Akane acordou com um sobressalto, a foto do monstro caída no chão ao lado da cama. Sentou-se, a mente ainda nebulosa pelo sono, e pegou a foto com cuidado. A imagem do monstro, com seus olhos vermelhos penetrantes, a encarava de volta. Um calafrio percorreu sua espinha, mas logo o ignorou. Levantou-se da cama e se dirigiu ao banheiro, seus pensamentos ainda girando em torno da foto e do mistério que ela representava. Após um banho quente e revigorante, Akane se vestiu e desceu para o café da manhã. A casa estava silenciosa, seus pais ainda dormindo. Na cozinha, preparou uma xícara de café e se sentou à mesa, a foto do monstro ainda em suas mãos. Observou-a por um longo tempo, ponderando sobre seu significado e o que deveria fazer. De repente, a porta da cozinha se abriu e seus pais entraram, sorrindo e desejando-lhe um bom dia. Akane rapidamente escondeu a foto em meio aos seus livros, como se guardasse um segredo. O aroma de café fresco pairava no ar enquanto Akane se sentava à mesa, o sol da manhã banhando a cozinha com uma luz dourada. Seu pai, Ryo Hiromi, comentou com um sorriso no rosto: “Hoje é noite de lua cheia, não é?” Akane assentiu, os pensamentos ainda presos nos eventos dos últimos dias.
Sua mãe, Haruko Hiromi, observando a expressão distante da filha, disse: “A lua estará mais próxima da Terra hoje, um evento chamado de perigeu. Dizem que isso acontece somente uma vez por ano.” Akane guardou essa informação com cuidado. O pai a olhou entusiasmado: “Excelente noite para lobisomens, não é? Minha pequena caçadora de criptozoologia!” De repente, a mãe de Akane se virou para ela e, com um sorriso brincalhão, disse: “Você tem um garoto lá fora esperando por você.” O pai de Akane, com uma expressão de surpresa e ciúme, perguntou: “Um garoto? Te acompanhando para ir para a escola? Desde quando isso está acontecendo?” A mãe, tentando controlar o ciúme do marido, disse: “Akane está crescendo, querido. Logo ela será uma mulher.” Akane se sentiu corar, seus pensamentos divididos entre a conversa de seus pais e o mistério do monstro. “Quem é o garoto?”, o pai perguntou novamente, sua voz tensa. Akane hesitou. “É apenas um amigo,” respondeu, sua voz baixa. O pai não pareceu convencido, mas não disse mais nada. A conversa se dissolveu em um silêncio desconfortável, cada um perdido em seus próprios pensamentos. Ao terminar o café, Akane se levantou da mesa e se dirigiu para a porta. “Estou saindo,” disse, quase em um sussurro. Ao passar pela cozinha, deu uma última olhada para a foto do monstro, escondida em seus livros. “Eu vou descobrir quem você é,” murmurou, seus olhos cheios de determinação.
O sol da manhã banhava as ruas com uma luz dourada enquanto Taishou aguardava pacientemente por Akane. Seus olhos, como poças de mistério, observavam o movimento da rua, sua mente perdida em pensamentos que apenas ele conhecia. Finalmente, Akane surgiu, seus cabelos como uma cascata de fogo sob o sol nascente. Um sorriso radiante iluminou seu rosto enquanto ela se aproximava de Taishou, seus olhos brilhando com uma alegria contagiante. “Bom dia, Taishou!” ela exclamou, sua voz melodiosa como o canto dos pássaros. Taishou apenas acenou com a cabeça, os olhos ainda fixos no caminho à frente. Um silêncio desconfortável se instalou entre eles, uma nuvem de mistério pairando sobre seus ombros. Akane, tentando romper o silêncio, comentou: “Mamãe me disse que hoje à noite vai acontecer o perigeu.” Taishou não respondeu, mantendo sua expressão mais séria do que o habitual, um tom sombrio nos lábios. Akane se sentiu desconfortável com o silêncio e a mudança de comportamento de Taishou. “Você acha que algo diferente vai acontecer hoje?”, ela tentou novamente, sua voz hesitante quebrando a tensão. Ele, com os olhos fixos no horizonte, murmurou: “Talvez.” A resposta enigmática de Taishou deixou Akane ainda mais intrigada. Já ia fazer um ano que o conhecia, e ele sempre fora esse poço de mistérios, um enigma que nunca conseguia desvendar completamente.
Seus pensamentos se voltaram para a foto do monstro, escondida em meio aos livros. Sim, era verdade. Aquele ser estranho havia surgido em seu quarto numa noite de lua cheia, no meio do perigeu. A lembrança de seus olhos vermelhos e penetrantes a fez tremer. “O que você sabe sobre lobisomens, Taishou?” perguntou, sua voz quase um sussurro. Taishou se virou para ela, os olhos como brasas ardendo na penumbra da manhã. “Lobisomens são criaturas lendárias, amaldiçoadas a se transformar em feras selvagens sob a luz da lua cheia.” Akane engoliu em seco, seu coração batendo forte em seu peito. “Você acredita em lobisomens?” Taishou não respondeu. Ele apenas continuou andando, seus passos cada vez mais rápidos. Ao chegarem à escola, Akane caminhava pelos corredores com Taishou, os passos ecoando no silêncio da tarde. O ar estava carregado de expectativa, como se algo estivesse prestes a acontecer. Taishou, encostado em um armário, observava Akane guardar seus livros com uma calma estudada. Seus olhos escuros, normalmente cheios de sarcasmo, agora estavam nublados por uma preocupação indecifrável.
De repente, a foto polaroid de Akane caiu no chão do corredor. Ela se agachou rapidamente para pegar, mas o silêncio foi quebrado por um som áspero. Taishou arrancou a foto de sua mão, seus dedos ágeis e implacáveis. “O que é isso?” perguntou, sua voz rouca e carregada de desdém. Akane se lançou em direção a ele, desesperada para recuperar seu bem mais precioso. Seus golpes eram rápidos e precisos, mas Taishou era mais forte e ágil. Ele se esquivava de seus ataques com facilidade, mantendo a foto fora de seu alcance. “Me devolve, Taishou!” Akane gritou, os olhos marejados de lágrimas. “Isso é importante para mim! Por favor, não rasgue!”
Taishou ignorou suas súplicas, examinando a foto com atenção. Seus olhos negros se estreitaram enquanto ele observava a imagem borrada, uma mistura de raiva e frustração crescendo em seu rosto. “O que é isso, garotinha?” ele perguntou novamente, agora com sarcasmo na voz. “Um monstro que você inventou para se assustar?” Akane o encarou em silêncio, lutando contra as lágrimas que teimavam em cair. As palavras de Taishou, como sempre, feriram-na profundamente. “Eu não vou te contar,” ela disse finalmente, a voz baixa e hesitante. “Você vai rir de mim, como sempre faz com tudo que eu acredito.”
Taishou ergueu uma sobrancelha, um sorriso zombeteiro se formando em seus lábios. “Por que não experimenta me contar primeiro, antes de decidir como eu vou agir?” disse ele, sua voz carregada de ironia. Akane hesitou, desviando o olhar dos olhos penetrantes de Taishou. Verificou ao redor, certificando-se de que ninguém os observava. O corredor estava vazio, exceto por alguns livros espalhados pelo chão. “Há um ano, eu vi uma criatura assustadora no quintal da minha casa,” começou, sua voz fraca e vacilante. “Ela tinha olhos vermelhos penetrantes, garras afiadas e presas enormes. Era alta e musculosa. Essa foi a foto que tirei dele naquela noite, antes dele me atacar.” As palavras de Akane pairavam no ar, pesadas e carregadas de emoção. Taishou permaneceu em silêncio, seus olhos negros fixos nela.
“Esse borrão aí te atacou?” ele disse finalmente, sua voz ironicamente suave. “Você tem certeza de que não estava apenas sonhando?” Akane mordeu o lábio, lutando contra a raiva que crescia dentro dela. “Eu sabia que você iria zombar.” “Eu não disse que não acredito em você,” Taishou retrucou, sua voz agora séria e inexplicavelmente gentil. Akane o encarou com surpresa, os olhos arregalados. “E você acredita?” perguntou, a voz quase inaudível. “Quando você viu a imagem da foto, você pareceu estranhamente expressivo. Algo que não é comum para você. Você acredita em mim, não acredita?” A aflição em sua voz era palpável.
Taishou desviou o olhar, um leve rubor colorindo suas bochechas. “Eu só fiquei assim porque você disse que era importante para você,” murmurou. Ele devolveu a foto a ela. Akane segurou a imagem em silêncio. Depois de alguns instantes, disse: “Eu não sei se acredito mais nessa foto. Já se passou um ano. Às vezes, me pergunto se não foi um sonho.” Taishou a observou por um longo tempo, seus olhos negros cheios de uma emoção que ela não conseguia identificar. “O que mais aconteceu naquela noite, garotinha?” Akane, apreensiva, começou a contar a Taishou o que aconteceu. “Ele... escalou paredes da minha casa e entrou no meu quarto.” Taishou se aproximou dela, os olhos negros fixos nos dela. Sua voz era baixa e rouca, carregada de uma intensidade que a assustava. “E o que ele fez com você?” perguntou, cada palavra como um soco no estômago de Akane. Ela relutou em responder, as lembranças daquela noite terrível voltando à sua mente com força total. O terror, a dor, o medo... tudo se misturava em um turbilhão de emoções que a deixava nauseada.
“Ele... ele tinha presas e garras assustadoras,” finalmente conseguiu dizer, a voz tremida. “Parecia um lobo, com longas orelhas pontudas e focinho longo. E... ele tinha um pelo de cor branca prateado. Eu não conseguia ver em detalhes seu corpo. Estava muito escuro.” Taishou a observava atentamente, seus olhos negros cheios de uma escuridão que a deixava desconfortável. “Ele te agarrou e te pressionou na parede,” ele disse, mais como uma afirmação do que uma pergunta. Akane assentiu, um calafrio percorrendo sua espinha. “Sim,” murmurou. “Eu perguntei várias vezes quem ele era, e ele não me respondia. Até implorei que não me machucasse. E ele disse que não iria. Mas…” Hesitou, os olhos cheios de lágrimas. “Algo que ele me disse... ficou gravado na minha memória.” Taishou se inclinou ainda mais perto, seus lábios quase roçando os dela. “O que ele disse?” sussurrou. Akane fechou os olhos, tentando se concentrar. “Ele disse...” começou, sua voz quase inaudível. E, quase em uníssono, Taishou completou: “Seu cheiro... seu cheiro me trouxe até aqui...” As palavras ecoaram no ar, pesadas e carregadas de significado. Akane arregalou os olhos, o medo dominando-a por inteiro. “C-como você sabe disso?” finalmente perguntou, a voz falhando.
Taishou manteve o olhar fixo nela, um misto de preocupação e algo mais nos olhos. “Porque... eu conheço essa sensação,” ele respondeu, a seriedade em sua voz fazendo o coração de Akane acelerar. “E não é apenas uma história que você inventou.” A revelação pairou entre eles, uma tensão palpável. Akane sentiu um frio na espinha, a realização de que havia algo mais profundo entre eles, uma conexão que transcendia o que parecia ser apenas um encontro casual no corredor da escola. “O que isso significa, Taishou?” ela perguntou, a insegurança e o medo dançando em seu olhar. O silêncio pairava sobre Akane e Taishou, quebrado apenas pela respiração ofegante de ambos. A frase inacabada de Taishou, “Porque...”, pendia no ar, carregada de uma tensão palpável. De repente, o som estridente do sinal da escola ecoou pelo corredor, rompendo o clima de suspense. O local rapidamente se encheu de alunos apressados, ansiosos para o início das aulas. Em meio à multidão, Sakura, Hinata e Kenji se aproximavam do casal, seus rostos animados pela perspectiva de mais um dia de estudos. Sakura, a primeira a chegar, dirigiu-se a Akane com um sorriso radiante. “Oi, Akane! Pronta para mais um dia de aula?” perguntou, notando a palidez da amiga e a expressão de terror em seus olhos. Akane, ainda em estado de choque, desviou o olhar de Taishou e respondeu sua amiga de forma animada, disfarçando o terror que sentia. “Sim, estou sim.” “Akane, o que aconteceu?” perguntou Hinata, colocando a mão no ombro da amiga. “Você está pálida e parece assustada.”
Akane olhou nervosamente para Taishou, que permaneceu com um olhar calmo e sereno. “E... eu... estou bem, Hinata! É apenas que... hoje é... noite de lua cheia... O Perigeu... é a noite favorita dos... lobisomens.” As palavras de Akane ecoaram nos ouvidos dos amigos, que se entreolharam com preocupação. Hinata, com sua perspicácia aguçada, percebeu que algo grave havia acontecido. “Akane, isso não é só uma superstição, é?” sua voz era suave, mas havia um toque de urgência. “Você parece realmente assustada.” Kenji, que até então observava em silêncio, franziu a testa. “Ei, vamos relaxar. Não precisamos nos preocupar com lendas e mitos, certo? É só mais uma noite.” Contudo, sua tentativa de amenizar a situação parecia frágil, especialmente diante da inquietação no rosto de Akane. “Mas e se for real?” Akane murmurou, seu olhar se perdendo nas sombras do corredor. “Eu vi algo, Kenji. Eu sei que vi.” A confusão e o medo em sua voz faziam com que os amigos a olhassem com seriedade.
Sakura, sempre a voz da razão, tomou a frente. “Ok, Akane. Se você realmente acredita que há um perigo, devemos nos preparar. Não podemos ignorar isso.” Sua determinação era clara, e ela começou a olhar para o grupo, como se estivesse organizando uma equipe de batalha. “E se o que você viu voltar?” Hinata perguntou, a preocupação crescente em seus olhos. “Você tem um plano?” Akane respirou fundo, sua mente agora agitada com a ideia de se preparar para a noite. “Acho que podemos... podemos nos reunir em casa mais tarde. Juntos, somos mais fortes.” A proposta trouxe um certo alívio ao grupo, um lembrete de que, apesar do medo, eles tinham uns aos outros. Taishou, que havia permanecido em silêncio, finalmente se pronunciou. “Se for verdade, você deve estar atenta, Akane. E não se esqueça de que a lua cheia não traz apenas perigos... mas também revelações.” Seu olhar se intensificou, como se houvesse mais por trás de suas palavras. “O que você quer dizer com isso?” Kenji questionou, olhando para Taishou com desconfiança. Mas Taishou apenas balançou a cabeça. “Apenas que nem tudo que parece ser um monstro realmente é. E às vezes, a luz da lua revela mais do que esconde.” Akane sentiu um calafrio percorrer sua espinha. O que isso significava? As palavras de Taishou estavam imbuídas de um significado que ela não conseguia decifrar, e a ideia de que a noite poderia trazer não apenas perigos, mas também respostas, a intrigava e aterrorizava ao mesmo tempo. O grupo, agora unido em uma nova determinação, começou a se mover em direção à sala de aula, mas a sensação de que algo monumental estava prestes a acontecer pairava no ar, como um presságio sombrio.