A escuridão da noite era implacável, tragada apenas pelo brilho tênue da lua crescente que se escondia por entre nuvens densas. Uma estrada solitária serpenteava pela paisagem árida, envolta em um silêncio sepulcral quebrado apenas pelo ronco do motor da Hyundai HB20 preto. Ao volante, Taishou dirigia com dificuldade, seus olhos fixos na estrada à frente, suando frio, com a mente perdida em um turbilhão de pensamentos sombrios. Sua aparência era péssima. Ele ofegava lentamente enquanto tentava se manter concentrado nas ruas de Hinode. Em seu rosto, hematomas vermelhos se espalhavam por suas têmporas e maçãs do rosto, enquanto cortes pequenos marcavam sua pele. A camisa social preta, antes impecável, agora pendia em farrapos em seus ombros, rasgada em pedaços em seu corpo. Suas mãos trêmulas seguravam firme o volante, suas unhas estavam manchadas com sangue seco do seu melhor amigo. O gosto metálico do sangue fresco ainda pairava em sua boca, um lembrete cruel da transmutação terrível que havia ocorrido minutos antes quando ele atacou e mordeu o peito de seu melhor amigo, Kenji.
Em seu interior, Taishou sentia um turbilhão de emoções: cansaço, exaustão, medo e, acima de tudo, uma profunda tristeza. Mas, em seu exterior seu olhar era morto, frio e cansado. Ele estava fazendo de tudo para prender suas emoções dentro de si, cavando e enterrando o mais profundo possível. Ele não podia deixá-las escaparem, nem por um segundo. Se não, a besta retornaria, e ele perderia o controle de tudo. Seu desejo de reativar a licantropia havia cobrado um preço alto. Taishou havia emergido vitorioso e recuperado o controle de sua natureza sombria, mas, a custo de sua própria humanidade. De repente, uma figura fantasmagórica surgiu do nada, materializando-se no banco do passageiro do carro. Um homem alto com ombros largos deitava-se de forma desleixada, espalhando seu corpo e marcando sua presença dentro do carro. Seus olhos azuis penetrantes brilhavam com uma luz sinistra, seu cabelo preto curto, liso e bagunçado em uma franja, com alguns fios grisalhos visíveis. A figura trajava um roupão de seda pura e macia. A cor vermelha como sangue moldava seu corpo musculoso e torso definido enquanto caía de forma folgada em seu corpo. Ele tinha um sorriso cruel que se desenhava em seus lábios finos. Era Demétrio Rodrigues, ou pelo menos sua aparição espectral.
"Você não parece nada bem, velho amigo", Demétrio disse com uma voz rouca, baixa e zombeteira. Rindo maliciosamente, uma risada cruel e maldosa, sua expressão de arrogância desenhada em seu rosto. Ele continuou. “Porque você mentiu sobre mim para meu filho? Eu achava que vocês tinham uma amizade forte e verdadeira”. Taishou se recusou a acreditar no que seus olhos viam. Demétrio estava morto, ele mesmo o havia matado. Era impossível que ele estivesse ali, sentado ao lado dele. "Vai embora", Taishou murmurou, sua voz rouca de cansaço, "Você não é real. Você é só uma ilusão patética da minha cabeça perturbada." Demétrio apenas riu, um som que ecoava pelo interior do carro como um lamento fúnebre. "Você tem certeza?", ele disse, inclinando-se para frente e tocando o ombro de Taishou. "Não sente meu toque?" Um calafrio percorreu a espinha de Taishou quando os dedos gelados de Demétrio tocaram sua pele. A presença fantasmagórica era inegável, carregada de uma aura maléfica que o deixava sem fôlego. "O que você quer?", Taishou perguntou, sua voz tremendo de medo e raiva.
Demétrio se inclinou ainda mais perto, seus olhos azuis perfurando a alma de Taishou. "Eu vim te lembrar do que você se tornou", ele sussurrou, sua voz carregada de veneno. "Um monstro, Taishou. O lobisomem Alfa." As palavras de Demétrio atingiram Taishou como um punhal. Ele sabia que eram verdade, mas ouvi-las da boca de seu antigo amigo era como ter um espelho cruel escancarando a sua alma. “Você não… você não é real.” Taishou repetiu gaguejando mais para si mesmo do que para ele. "Olhe para si mesmo, Taishou", Demétrio continuou, apontando para o sangue que escorria da boca de Taishou. "Como se sente? É quente e agradável, não é? E tem um sabor tão bom. Precisamos de mais!.” “Cala a boca!” Taishou desviou o olhar, incapaz de suportar a verdade que Demétrio falava. “Some daqui”. Ele murmurou. “Eu já disse, você não é real.” Demétrio, com seu sorriso cruel e malicioso, apenas riu. "Eu não sou um fantasma, Taishou. Eu sou sua consciência, eu sou parte de você agora. Uma parte que você deixou adormecida por muito tempo. Mas finalmente, você deixou sair. “Do que você está falando?” Taishou perguntou confuso. “Você sugou meu sangue para se tornar o lobo alfa, você não se lembra?".
As palavras de Demétrio atingiram Taishou como um soco no estômago. Era verdade, ele havia matado Demétrio e tomado seu sangue para se tornar o novo líder da alcateia. A culpa e o remorso o consumiram, e ele apertou o volante com tanta força que seus dedos ficaram brancos. "Sim, eu me lembro", Taishou respondeu, com a voz baixa e carregada de angústia. "Mas, por que você está aqui agora? Por que hoje? Por que você não apareceu antes?" Demétrio riu ainda mais, sua risada ecoando pelo interior do carro como um som macabro. "Porque antes você era apenas um pequeno lobo branco assustado", ele disse. "Você se recusava a aceitar a sua natureza, mas hoje, você recuperou a sua verdadeira forma. A sua deliciosa essência maligna. Você provou de sangue humano novamente, meu amigo. E eu, triunfante, retornei apenas para lembrar de quem você é agora. Você é um monstro que gosta de carne e sangue humano. E na próxima noite de lua cheia... Nós dois, juntinhos, vamos saciar esse desejo primitivo. “Vai se foder!” Taishou não aguentava mais. Ele gritou com toda a força de seus pulmões: "Vai embora! Você não é real! Eu meti uma porra de uma bala de prata no seu peito!". Seu grito ecoou pela estrada vazia, sem resposta. O carro continuou a avançar pela noite escura, enquanto Taishou lutava contra seus próprios demônios internos. A imagem de Demétrio, com seu sorriso cruel e suas palavras venenosas, assombrava sua mente, e ele sabia que a batalha contra a escuridão dentro de si havia apenas começado. “Ah, meu amigo, aquilo não foi nada delicado da sua parte. Como você conseguiu virar meu filho contra mim?” Demétrio acariciou a coxa de Taishou. Ele se encolheu com raiva. “Para!” Taishou reagiu negativamente. O sorriso tortuoso de Demétrio aumenta ainda mais.
"Olhe para si mesmo, Taishou", Demétrio continuou, apontando para o sangue que escorria da boca de Taishou. "O que você se tornou? Um monstro, em corpo e alma. Que ironia deliciosa. Qual é o sabor do meu filho? É agradável, não é? Deveríamos retornar e matá-lo juntos para beber o resto do seu sangue.” “Não fala merda!” Taishou desviou o olhar, incapaz de suportar a verdade que Demétrio falava. Ele era um monstro, sim. E agora ele tinha um desejo assassino. Ele sentia mesmo vontade de voltar e terminar o serviço. Mas, ele o reprimia dentro de si. Ele segurava esse desejo com todas as suas forças. “Você não vai parar até sentir esse doce sangue de ferro na boca de novo” Demétrio continuou. Taishou, ainda em estado de choque, olhou para o banco do passageiro, mas Demétrio havia desaparecido. Ele estremeceu, e voltou sua atenção para a estrada. Mas a voz continuava. E Demétrio agora estava deitado no banco de trás. “Você precisa disso… você sabe que você precisa…” A voz rouca de Demétrio ecoava no carro. Uma onda de calafrios percorreu seu corpo, a sensação de que ele ainda estava ali, observando-o, era quase insuportável. Com a voz ainda rouca de emoção, Taishou quebrou o silêncio: "Por que você voltou? Por que você apareceu agora? Depois de cinco anos que eu te matei. Se fosse para me assombrar, isso não deveria ter acontecido antes?". Taishou balançou sua cabeça freneticamente em negação. “Você está errado…você não existe mais…Eu não preciso de sangue…eu posso…viver como antes…com a força da natureza!”
Demétrio apareceu novamente ao seu lado, no banco carona, agarrando firmemente seu peito. A sensação de falta de ar preencheu sua mente. "Você pode fugir de sua natureza, Taishou", Demétrio disse, sua voz suave como seda, "Mas você nunca escapará de si mesmo." Com essas palavras finais, Demétrio se dissolveu no ar, deixando Taishou sozinho na escuridão da noite. O silêncio que se seguiu à última fala de Demétrio foi quase palpável, pesado e opressivo. A lua crescente, agora mais alta no céu noturno, parecia observá-lo com um olhar impiedoso, como se estivesse aguardando ansiosamente a próxima lua cheia, quando Taishou e Demétrio, unidos em sua natureza monstruosa, finalmente se libertariam para saciar sua sede de sangue e violência. A estrada se estendia diante de Taishou como uma fita negra sem fim, enquanto ele dirigia em meio à noite escura. Os faróis do carro cortavam a névoa densa, revelando apenas alguns metros à frente. Em sua mente, a voz de Demétrio ecoava incessantemente, como um fantasma que se recusava a partir. "Você é um monstro, Taishou", Demétrio zombava. "A sua besta quer sangue." Taishou apertou o volante com força, os nós dos dedos brancos de raiva. Ele sabia que Demétrio estava certo, mas não queria aceitar a verdade. Ele havia se transformado em um monstro, em corpo e alma. A cada quilômetro percorrido, a culpa e o remorso o consumiam cada vez mais. As imagens do momento de perda de controle, o momento em que ele atacou Kenji, o cheiro do sangue e a sensação de violência, se repetiam em sua mente como um pesadelo sem fim.
Finalmente, após o que pareceram horas eternas, Taishou chegou em casa. Ele estacionou o carro de maneira grosseira, quase jogando-o contra a calçada, e saiu cambaleando para fora. Seus passos eram pesados, como se cada passo o distanciasse ainda mais da sua própria humanidade. Ao entrar em casa, a escuridão o envolveu. Ele nem acendeu a luz. Taishou se dirigiu rapidamente para o banheiro, impelido por uma necessidade urgente de se limpar. Ao chegar diante do espelho, ele se deparou com a própria imagem, um reflexo que mal reconhecia. Seu rosto estava coberto de hematomas e cortes, seus olhos estavam vermelhos e inchados, tinha sangue em sua boca e em seu rosto e seus cabelos estavam desgrenhados. Ele parecia um animal ferido e assustado. De repente, a figura de Demétrio apareceu ao seu lado no reflexo. Um sorriso cruel se desenhava em seus lábios. "Nossa, você está um caco", Demétrio disse com zombaria. "Parece que a vida de lobisomem não te está tratando muito bem." Taishou fechou os olhos com força, tentando bloquear a imagem de Demétrio. Ele não queria ver, não queria ouvir. Ele queria apenas que ele sumisse. Com um movimento brusco, ele arrancou as próprias roupas, tirando-as do seu corpo, e as jogou no lixo do banheiro. Entrou no box e abriu a torneira do chuveiro e deixou a água quente cair sobre seu corpo. A água quente era um bálsamo para suas feridas físicas, mas não para as feridas da alma. Demétrio ainda estava ali, sua voz ecoando em sua mente. Ele era um fantasma que Taishou não conseguia escapar. A cada gota d'água que caía sobre seu rosto, ele se lembrava da promessa de Demétrio: na próxima lua cheia, eles se uniriam para saciar sua sede de sangue e violência.
Taishou sabia que precisava encontrar uma maneira de se livrar de Demétrio, de silenciar a voz que o assombrava. De acalmar a besta. Mas como fazer isso? Ele estava sozinho, perdido em um mundo de escuridão e desespero. A única luz que restava era a esperança de que, de alguma forma, ele conseguiria controlar aquilo tudo. Enquanto a água quente continuava a cair sobre seu corpo, Taishou fechou os olhos e rezou em silêncio. Ele implorava por força, por sabedoria, por um caminho para sair da escuridão. Ele sabia que a batalha pela sua alma havia apenas começado, e ele precisaria lutar com todas as suas forças se quisesse ter alguma chance de vencer. A porta do banheiro se abre com um rangido suave, revelando Taishou, ainda envolto em uma toalha branca, os cabelos úmidos pendurados na testa. Seus passos são lentos, hesitantes, como se cada movimento exigisse um esforço sobre-humano. Ao entrar no quarto, a penumbra acolhedora é rasgada pela luz que ele acende. Akane, sua esposa, dorme serenamente na cama, alheia ao turbilhão de emoções que consome Taishou. A voz de Demétrio ecoa em sua mente, fria e cruel, envenenando seus pensamentos com imagens horríveis. "Então, essa é a sua mulher?" A zombaria de Demétrio fere como um punhal. "Ela é muito gostosa... você já pensou em qual é o gosto do sangue dela? Por que você não chega mais perto? Vamos experimentar…" Taishou cerra os punhos, seus músculos se contraindo em fúria reprimida. "Cala a boca!" ele sibila entre os dentes, a voz carregada de ódio e desespero. Virando-se de costas para Akane, ele se aproxima da cômoda, buscando por uma peça de roupa limpa. Com movimentos mecânicos, termina de secar o corpo, a toalha branca caindo no chão como um fardo. Ele veste uma cueca preta, a única peça de roupa que o separa da nudez completa.
Um movimento involuntário o faz olhar para Akane. Ela se mexe na cama, seus lábios entreabertos em um sorriso adormecido. Taishou sente seu cheiro, doce e inebriante, e uma onda de desejo quase o consome. Ele luta contra seus instintos, os punhos cerrados com força. A voz de Demétrio retorna, sussurrando promessas macabras, alimentando a escuridão em seu interior. "Qual será o sabor do sangue dela?" Em um ato desesperado, Taishou abre a última gaveta da cômoda. Lá dentro, encontram-se acessórios que ele não usa há seis longos anos: colares, brincos e anéis de prata, as peças brilham fracamente em sua mão trêmula. Um sorriso sombrio se desenha em seus lábios enquanto ele pega as joias. Com movimentos rápidos e precisos, ele as coloca em seu corpo, a prata fria tocando sua pele quente. A cada peça que ele veste, sente a escuridão em seu interior recuar. A prata parece absorver a raiva, o ódio e o desespero, acalmando sua alma atormentada. A prata acalma a besta e a controla. Finalmente, o silêncio toma conta de sua mente. Demétrio se cala, seus sussurros malignos substituídos por uma paz serena. "Você finalmente, calou a porra da boca" ele sussurra, sua voz quase inaudível. “Boa noite, Demétrio,” Taishou sorri, um sorriso triste e melancólico. Ele se aproxima da cama e observa Akane dormir, sua expressão serena e angelical. Com um último olhar para a esposa adormecida, ele se deita ao seu lado e fecha os olhos. E por incrível que pareça, o sono vem rapidamente.
A cidade de Hinode desperta para mais um dia, banhada pelos tons dourados do amanhecer. A luz do sol, tímida a princípio, invade o quarto do casal, acariciando os rostos adormecidos de Akane e Taishou. Akane, com os olhos ainda pesados pelo sono, abre um sorriso ao ver seu marido ao seu lado. A imagem de Taishou, sereno e tranquilo, a acalma, trazendo paz ao seu coração. Mas logo, um frio percorre sua espinha. Seus olhos se fixam nos diversos acessórios de prata que adornam o corpo de Taishou. Colares, pulseiras, anéis, todos brilham com a luz da manhã. Esses acessórios, símbolos de um passado doloroso, despertam em Akane um sentimento de insegurança. Ela engole seco, tentando afastar os pensamentos que a atormentam e as lembranças do passado. Com um olhar mais atento, ela percebe algo que a deixa ainda mais preocupada. No rosto de Taishou, alguns cortes e ferimentos recentes são visíveis. O que poderia ter acontecido com ele na noite anterior? Akane se aproxima cautelosamente, seus dedos roçando a pele macia do marido. Ela hesita antes de perguntar, temerosa da resposta.
"Tai…" ela sussurra, sua voz carregada de preocupação, balançando o marido para acordá-lo Taishou se move levemente, abrindo os olhos lentamente. Ao ver Akane ao seu lado, um sorriso suave se desenha em seus lábios, mas logo ele volta com sua expressão séria. "Oi amor, bom dia" ele responde, sua voz rouca pelo sono. Akane não se convence e pergunta “Por que você está usando todos esses acessórios de novo?” Taishou a olhou fixamente, sua expressão fria e vazia, não dando lugar para demonstrar nenhum tipo de sentimento, mesmo diante de uma pergunta tão importante de sua mulher. “Eu preciso de tudo isso novamente, minha besta voltou, e eu preciso de algo para me ajudar a manter o controle como antes”. Akane olha para Taishou com um olhar triste, ela sente que ele voltou a ser o que era quando eles se conheceram. Um homem amargo, frio e vazio. Mas ela havia prometido a ele que o apoiaria. Então, ela força um sorriso e diz “Voltou?...Então…você está bem agora? Está …feliz?” A expressão de Taishou não muda, ele continua apatico. Mesmo que ele queira demonstrar emoção agora, ele se segura para mantê-las trancadas. “É, estou. A minha besta voltou e está controlada. Eu estou muito feliz”. Akane olha nos olhos do seu amado buscando algum indício de sentimento. Mas não vê nada. Aqueles mesmos olhos profundos, escuros e vazios de dez anos atrás, estavam de volta. “Tai.. você voltou a ser frio e insensível de novo?” A voz de Akane sai com um tom de tristeza Mas, Taishou a repreende. “Insensível? Não. Controlado é a palavra certa.” “Eu estou feliz agora, e você também deveria ficar feliz por mim.” Akane não responde nada, Ela passa a mão no peito nú de Taishou e acaricia seus colares de prata. Ele a observa em silêncio. Sua expressão continua sem emoção. Ele não diz nenhuma palavra. Akane tem que perguntar de novo. “Por que você está machucado?”
Taishou disse de uma forma controlada. “Houve alguns contratempos ontem, eu acabei perdendo o controle da besta, e Kenji e eu tivemos uma luta corporal, mas agora está tudo bem”. Ele continuou, tentando desviar o foco do assunto “Na próxima lua cheia, eu irei me transformar e matar alguns animais, você não precisa se preocupar, eu não vou ferir nenhum humano.” “Aconteceu algo mais sério?” Akane pergunta preocupada. “Não” Taishou responde em monossilábico. Ela insiste. “tem certeza?”, e ele responde da mesma forma. “tenho”. Akane morde o lábio inferior, ela quer acreditar nisso, mas algo dentro do seu peito diz que seu marido está mentindo. “Se você diz…” Ela conhece seu marido bem o suficiente para saber que algo mais aconteceu. Mas Taishou insiste em negar, e ela decide não insistir. Levantando-se da cama, ela se dirige ao banheiro, tentando afastar os pensamentos sombrios que a assombram. Ela sabe que Taishou não está contando tudo, mas por enquanto, ela decide respeitar seu silêncio. No entanto, a semente da dúvida foi plantada em seu coração. O que Taishou está escondendo? O que aconteceu na noite anterior? Akane sabe que precisa descobrir a verdade, mesmo que isso signifique enfrentar seus maiores medos. No banheiro, ela pega seu celular e manda uma mensagem para uma velha amiga de infância. Sakura. A mensagem é simples. “Preciso de você, e da Hinata, é muito importante, por favor, me responda quando podemos nos encontrar na casa de chá da Haru.”
Akane sai do banheiro, o rosto marcado por uma apreensão que não consegue disfarçar. A imagem de Taishou com os acessórios de prata ainda a perturba, e ela não consegue evitar se questionar sobre o que realmente aconteceu na noite anterior. Mas, ao entrar na cozinha, ela é recebida por um sorriso radiante. Caleb, ainda com os olhos sonolentos, espreguiça-se na cadeira, pronto para aproveitar o belo dia de sábado. Akane força um sorriso, tentando afastar os pensamentos sombrios que a rodeiam. Ela sabe que este é um dia importante para a família, e não quer que suas preocupações atrapalhem a felicidade do filho. Com um entusiasmo forçado, ela começa a preparar o café. O aroma do café recém-moído invade a cozinha, misturando-se ao cheiro de pão fresco que ela também prepara. Em poucos minutos, Taishou aparece na mesa de jantar, já vestido e pronto para o dia. Ele se senta ao lado de Caleb, um sorriso suave brota no rosto do garoto. Porém, Caleb observa o pai com curiosidade, seus olhos fixos nos adornos prateados que adornam o corpo de Taishou. Bem com alguns ferimentos estranhos em seu rosto que não estavam ali da última vez que ele o viu. Ele sabe bem o que esses acessórios significam, e um tom de preocupação se instala em seu olhar.
Mas, consciente de que este é um dia especial, ele decide não perturbar o pai com perguntas óbvias. Ele se concentra em comer o café da manhã, aproveitando a companhia da família e o clima agradável do sábado. Akane, por sua vez, observa o filho e o marido com uma mistura de tristeza e esperança. Ela sabe que as sombras do passado ainda pairam sobre sua família, mas também acredita que o amor e a união podem superar qualquer obstáculo. Ao terminar o café da manhã, Caleb se levanta da mesa com um sorriso animado. "Hoje é sábado, e eu tenho um plano incrível para a tarde!" ele anuncia, seus olhos brilhando com entusiasmo. "Vou levar a Yuki para o parque, e vamos nos divertir muito!" Taishou fixa seus olhos em Caleb por um instante, um lampejo de dúvida cruzando sua mente. Será que os planos do filho para aquela tarde realmente se resumiam a um simples "passeio no parque"? A lembrança da conversa íntima que ele teve com seu filho volta a sua mente, a ideia de Caleb estar com Yuki despertava em si pensamentos que ele preferia evitar. Mas logo, ele afasta esses pensamentos pervertidos. Caleb era seu filho, e ele precisava confiar nele. Ele se lembra da inocência e pureza do menino, e sabe que ele jamais faria nada para prejudicar Yuki. Com um sorriso forçado, ele responde: "Que ótimo, Caleb! Divirtam-se muito no parque!"
Akane, por sua vez, parece radiante com a notícia. Ela adora ver Caleb e Yuki juntos, e sabe que o parque é o lugar perfeito para eles se divertirem. "Vocês vão tirar muitas fotos, não é?" ela pergunta, pegando o celular em mãos. Caleb acena com a cabeça, animado. "Claro que sim, mamãe! Vou mostrar todas as nossas aventuras para vocês!" Os três se dissipam da mesa, cada um seguindo para seus próprios afazeres. Caleb volta para o seu quarto, ansioso para se preparar para o passeio com Yuki. Taishou e Akane, por outro lado, permanecem na cozinha, finalmente livres para aproveitar a companhia um do outro sem nenhuma interrupção.
Um silêncio confortável toma conta da cozinha, enquanto eles se sentam à mesa e tomam um último gole de café. A luz do sol entra pela janela, iluminando o rosto de Akane e acentuando a beleza de seus olhos cor de mel. “Eu te amo, meu querido” Ela decide demonstrar um pouco de afeto pelo marido. Beijando seus lábios com carinho. Taishou não reage a esse sentimento, e Akane fica incomodada. “Tai…eu estava tão acostumada com seu jeito carinhoso, e agora, você parece mais distante do que nunca. Você ainda me ama dentro dessa casca vazia?” Akane diz, uma voz fraca e preocupada. Taishou pisca lentamente e olha para ela, sua expressão fria não muda. “Eu sei. Mas eu preciso muito me manter no controle e ficar sem demonstrar fortes emoções. Mas isso não significa que eu deixei de amar você. Você é, e sempre será importante para mim”. Akane o observa em silêncio, seu coração se aquecendo com a presença e as palavras ditas por ele, ainda que de forma seca. Apesar das dúvidas e preocupações que a assombram, ela sabe que tem Taishou ao seu lado, e isso lhe dá força para enfrentar qualquer desafio. “Vou ter que me esforçar para me acostumar com isso de novo”. Akane admite.
Taishou não diz mais nada, ele a envolve num abraço, tomando seu corpo para mais perto de si e beijando seus lábios com carinho. Ainda sem emoções, mas pelo menos sua bestialidade estava dormindo agora. E não ameaçava a mulher que ele amava. Taisho então diz, “Vamos fazer amor hoje? Quando Caleb sair”. Akane não deixa de abrir um sorriso de um jeito sem graça. “Sério?” Ela diz com um sorriso nos lábios. Taishou acena levemente a cabeça. “Sim de qualquer maneira..eu ainda te quero, você vai ter que se acostumar a fazer isso comigo dessa forma, de maneira calma, fria e sem emoções. Minha besta está de volta, e eu tenho que manter meu controle. Vai ficar pior na próxima lua cheia”. “Tai..” Akane sussurra. Pensando consigo mesmo quando será a próxima lua cheia. Agora, a preocupação da previsão astronômica teria que entrar na sua lista de preocupações, bem ao lado da lista de compras. Com um sorriso sincero, ele se levanta da mesa e pega nas mãos de Akane, a puxando de volta para o quarto. "Vamos aproveitar este dia juntos, meu amor," ele diz, segurando suas mãos de forma firme. "Tenho certeza de que será um dia especial." Akane sorri em resposta, seus olhos brilhando com amor. Juntos, eles saem da cozinha, prontos para aproveitar o que o dia tem a oferecer, com a certeza de que, juntos, serão mais fortes.